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quinta-feira, 5 de março de 2009

O Vaso e Os Cães

Ao chegar a casa e mesmo ainda antes de pôr a chave na fechadura, algo se insinua discretamente sugerindo-lhe que alguma coisa não está bem. Nem visível ou imediato, mas sente-o nitidamente. Algo se passara com a sua casa durante o dia e alguma coisa não estava bem. Mas o quê? Milésimos de segundo apenas em que mil pensamentos lhe ocorrem e nada se lhe depara aos olhos, apenas o coração o sente. E então percebe. Não há nada para ver porque o que não está bem não é nada que se veja, mas antes precisamente a sua falta ou ausência.

Um vaso de barro que lhe tinha dado a mãe estava à porta dela marcando presença. A dela. Albergando uma flor que fora assassinada por estranhos, há semanas, minuciosamente cortada folha a folha por mão humana de unha afiada, restava a esperança da flor renascer e o vaso continuava guardião da porta. Da dela. E hoje não estava lá.

Ao longo da vida vamos conhecendo os homens, as emoções, os sentimentos, os nossos e os dos outros. Já muito pouca coisa a surpreende. Aliás, para dizer a verdade o que a admira foi o vaso ter durado praticamente um ano, à solta, mas como fiel companheiro, não partira para outra casa e outras mãos que o cuidassem. Estava ali à porta dela. Vendo-a sair, entrar, carregar sacos e malas, ora para dentro ora para fora. Vendo-a limpar a porta, varrer a entrada e sacudir o tapete. Ali permanecera até hoje. Até mãos estranhas e alheias o levarem.

Que importância tem isso, perguntarão. Na verdade, a importância é nenhuma. Salve-se o corpo e alma, e o resto é paisagem como o vaso.

Mas porra! Ela é que não é de barro, ou sendo, roubaram-lhe um bocado dela. E ficou triste hoje. Não tanto por ter ficado sem o vaso, mas por dividir o mundo e a rua onde mora com quem rouba vasos. Simples. De barro. Claro, claro, há coisas piores. Inqualificáveis. Pois há. Mas a ela hoje, roubaram-me um pedaço de barro. Um pedaço de barro que era seu.

Não vai ter pena nenhuma de deixar esta casa e este sítio! Está até ansiosa por isso. Aliás, nesta, assim como em várias casas onde viveu nos últimos anos, os seres que de facto lamenta deixar, são cães. Há sempre cães, de vizinhos ou vadios, que se tornam amigos dela. Intensamente mais que os vizinhos-pessoas.

A começar pelo que foi dela e que teve de abandonar quando se divorciou: o Dipsy. Houve depois o King e o Roby, que foram verdadeiros amigos e companheiros logo a seguir ao divórcio dela no início de 2002. Da última casa, tem saudades do Snoopy, um cão preto que partilhava o prédio num qualquer dos 7 andares e que saía à rua sozinho. Sempre alguém lhe abria a porta do prédio para entrar ou sair. Muitas vezes ela (devia ter horários idênticos). Chegou uma altura que bastava chegar a uns metros ainda, de carro na estrada e já o Snoopy vinha ao seu encontro (talvez já andasse há algum tempo na rua e quisesse ir para casa).

Aqui, terá pena de deixar a Nina, a pequena cadela branca e preta, que vive na casa ao lado e que até entra na casa dela quando está a descarregar ou a carregar o carro, e que ladra aos estranhos que se aproximam da porta dela como se fosse a sua!

Fazer amizade com cães mais do que com as pessoas… ela é assim, uma perfeita anormal e uma desajustada neste mundo cão.

2 comentários:

joaquim adelino disse...

Amiga dos animais sim, das pessoas nem tanto, é justo o pensamento, a pureza dos animais está muito acima da raciocinalidade humana, que por tão pouco, alguns se aprestam vergonhosamente a possuir.
Um beijinho

Luna disse...

Olá minha querida...

Muito obrigada pelo comentário...

Quanto aos encontros light....é uma questão de se combinar e antes de tudo, arranjar pessoal para ir!!

Desejo-te um excelente findi...

Beijinhos