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quinta-feira, 26 de abril de 2018

41ª Corrida da Liberdade


Lisboa, 25 de Abril de 2018:

Vialonga, 25 de Abril de 1977:


Corro desde que me conheço. E conheço-me há quase cinquenta anos.

Passam os dias e os anos, e sem darmos conta, a Vida. 

Muno-me do que tenho e vou à 41ª Corrida da Liberdade em Lisboa. A 1ª vez que corri em comemoração da data faz precisamente 41 anos (em Vialonga, no "I Encontro da Juventude de Vialonga"), e hoje repito a "graça" pelas ruas da cidade onde nasci. Tantos anos depois, continuo a correr.

Comemoração da data... Agora e sempre: 25 de Abril, sempre! Nasci no regime fascista e vivi nele apenas 5 anos, o insuficiente para o sentir na pele de forma consciente, mas cresci a ouvir, não estórias, mas a ouvir a vida que os meus pais levaram, que os meus avós levaram. Cresci. O suficiente e suficientemente inteligente para defender o 25 de Abril acerrimamente. Nada paga a Liberdade. A Liberdade. De falar, de pensar, de estar, de ser!

E de forma singela, comemoro. Corro. Participo numa Corrida, verdadeiramente Corrida para todos! Evento simbólico, festa gigantesta que pára a cidade para cerca de 8000 pessooas (este ano), comemorarem nas ruas. Percursos para todos os níveis atléticos, para todos os bolsos (custo zero), para todas as idades e todas as classes. Desde que sejas de Lisboa, ou tenhas carro e gasolina no carro para te deslocares, ou se tiveres um amigo que te leve (que foi o meu caso) podes participar e ser elemento activo e fundamental nesta festa. Porque a Corrida da Liberdade é a festa da Corrida. Para todos.

Lembra-te as conquistas de Abril, nomeadamente no que à Corrida diz respeito,e cale-se quem o despreza (o 25 de Abril) que também os há por aqui, e se esquecem que antes, nem podiam correr assim nas ruas nem podiam desprezar em voz alta o que quer que fosse contra o regime. Ia dentro! Levava porrada no lombo e ia dentro! Hoje, censuram em voz alta e desprezam em voz alta, sem medo. Esquecem que só o podem fazer precisamente porque houve Abril.

Eu não esqueço. A História, que não é feita de histórias e historinhas mas que é feita da vida real das pessoas reais, e eu, conheço muitas e muitas, que viveram na pele o Regime Fascista.

Por isso,de forma singela, comemoro. Homenageio os capitães de Abril e respeito. Envergo  e ostento ao peito, o cravo, símbolo vivo, e faço a Corrida toda com ele ao peito. Depois, já para o final, ergo-o no punho fechado, levanto o braço e selo com passos de Corrida e o maior sorriso que consigo esboçar, a Liberdade que Abril nos deu e as portas que Abril abriu. Só por isso vale a pena aqui estar. Só porque houve Abril, eu posso aqui estar. Só por isso, Abril valeu a pena.

Certo, certo, já sabemos que defendes Abril com unhas e dentes, mas a tua Corrida como foi?

Foi bem. Num panorama de escassez de participações em provas, esta, veio-me mesmo a calhar e a deliciar. Correr é bom. É muito bom. É magnífico. E correr é sempre um acto solitário. Tiras o maior proveito estando, não só, mas contigo mesmo! (e esses momentos rareiam cada vez mais: estar consigo próprio). Mesmo que haja ali uns tagarelas, que até te motivam, incentivam e apoiam, e picam e te façam correr mais e eventualmente evoluir, o benefício maior é (a meu ver) o proveito que tiras a correr só! Não obstante, gosto destes ajuntamentos, destas festas, deste reencontro de amigos, de falar, das risadas, da alegria partilhada e do convívio. E tinha saudades, confesso.

O carro é deixado nos Restauradores, assim como o meu pai, que nos fica a aguardar, e nós, os atletas, seguimos de metro para a zona da Partida. Já era tempo do Metropolitano de Lisboa se aliar a esta Corrida e permitir as deslocações entre a meta e a partida a custo zero. Mas porque raio, perguntarão! E claro, têm razão, estão ali para ganhar dinheiro. Querem correr? Corram! Agora querem andar de Metro, paguem! Claro que lhes é completamente indifente que EUR 1,95 possa fazer diferença na mesa de quem quer perticipar na festa à qual vai apenas porque a inscrição é gratuita. Prioridades, políticas e posturas de uma empresa, que só à própria dizem respeito, tendo o povinho no entanto o direito de opinar, como é agora o caso.


Na Pontinha, há já um aglomerado de gente. Levantar dorsal é fácil e mesmo quem não estava inscrito passa a estar num segundo. Muitas caras conhecidas, amigos também. Bom rever. Mais alguns colegas de equipa e depois, uma ida à casa de banho e nunca mais vejo a minha equipa. Nem foto em frente ao quartel tirámos, onde no 25 de Abril de 1974, há 44 anos atrás portanto, o Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas esteve instalado e  a partir de onde, dirigiu todas as manobras da Revolução dos cravos.

Vejo-me só. Ovelha tresmalhada. Tudo normal portanto. Não deixo de tirar a foto da praxe, apesar de só, em frente ao Quartel do Regimento de Engenharia 1, local absolutamente histórico. E de cravo ao peito, bem junto ao coração que bate, misturo-me na multidão, e depressa se dá a partida. 

Adoro correr por estas ruas. Por esta cidade onde nasci. De cravo ao peito. O ritmo é controlado e o objectivo é simplesmente mantê-lo e chegar ao fim sem ter de caminhar. Algum público e sempre uma ou outra ovação ao 25 de Abril a encher-nos de orgulho e gratidão e a dar-nos mais força para continuar.

Há abastecimento de água sensivelmente a meio da prova. O trânsito está totalmente cortado por onde corremos. em completa segurança.

Chegar ao Campo Grande, descer para Entre-Campos, Campo Pequeno, Saldanha, Marquês de Pombal e entrar na Avenida da Liberdade, ladeada de verde, é absolutamente fantástico. Agora, podemos soltar as pernas e só agora é realmente a descer. Embalo o que posso e busco o meu pai com os olhos. Levanto o braço, de cravo em punho e corto a meta feliz, só depois de o avistar.

Há algum congestionamento na chegada e o escoamento dos atletas faz-se lentamente e com alguma dificuldade. Saimos depois dali, com mais uma garrafa de água e uma t-shirt de algodão. Reuno-me com os amigos, alongo e regressamos a casa. 
Por ali, nos Restauradores, a festa continua. Não se esquece Abril. Não se perde Abril. E não se pode esquecer nem perder Abril!

Para o ano, lá estarei de novo.

Obrigada a todos os que mantêm este evento megalómano de pé e desta forma permitem que milhares possam comemorar Abril a fazer o que tanto gostam: Correr. E é bom acreditar e lembrar que a Corrida, deve ser como o Sol quando nasce: para todos!


Organização da ACCL - Associação das Colectividades do Concelho de Lisboa, FCDL - Federação das Colectividades de Cultura Recreio e Desporto do Distrito de Lisboa e a A25A - Associação 25 de Abril, juntamente com a Camara Municipal de Lisboa e em parceria com a CPCCRD - Confederação Portuguesa das Colectividades de Cultura, Recreio e Desporto, com a CMO – Câmara Municipal de Odivelas e as Juntas de Freguesia de Lisboa e Odivelas.

Corri a distância aproximada de 10,800 Km e demorei 1h02m para o fazer, com esforço, controlado, bem gerido e muito prazer.








Fotos da 41ª Corrida da Liberdade:


Pelo Zé Gaspar, AMMA - Atletismo Magazine Modalidades Amadoras

Por Luís Duarte Clara, Album 1, para ver aqui 
 e 
Album 2, para ver aqui

Por MB Run&Photo, Album 1 para ver aqui
e
Album2, para ver aqui

domingo, 15 de abril de 2018

12 anos - Parabéns Maria! A "blogar" desde 2006!

Quando vais ao médico, e assim, só por descarga de consciência (mesmo sabendo que vais ignorar a resposta se esta não te agradar) lhe perguntas, se, mediante o quadro clínico que se pretende tratar agora, faz mal correr, e ela, a doutora te responde categoricamente "Corra, corra, corra! Faz mal é não correr!", só te apetece é saltar da cadeira e abraçar aquela mulher! 

E no dia que a Maria Sem Frio Nem Casa completa 12 anos de existência (14 de Abril), ela não correu. Mas não houve chorrilho de lamentações nem flagelações psicológicas, como era habiual encontrar-se por aqui quando tal sucedia.

E doutora, acha que, mediante as circusntâncias actuais, ainda posso pensar que é possível completar o 6º Trilho das Lampas? Acha, doutora? Claro que sim, rapariga! Precisas no entanto é de um tratamento de choque, que te vou passar. Uma injecção de treinos, que te vão por a cortar aquela meta. E começas já hoje!

Então, desta vez, logo a seguir ao dia da comemoração dos doze anos da Maria Sem Frio Nem Casa, ela, até porque se aproxima rapidamente o 6º Trilho das Lampas, prova que ela faz desde a sua 1ª edição e onde quer continuar a marcar presença, ela, pegou na receita da doutora e tomou a 1ª de muitas injecções. Calçou os ténis e foi ali. Subiu a Serra e desceu a Serra. 


O treino pode ser visto ao pormenor, aqui

Claro que foi obrigada a intercalar passos de Corrida com caminhada. Mas o Trilho far-se-á precisamente assim: a Correr e a Caminhar!

Até amanhã querido Diário


terça-feira, 3 de abril de 2018

O carreiro e o treino no Monte

Um dia, quando caminhava no meu jardim relvado, em silêncio, usufruindo de momentos de paz e tranquilidade, pensando precisamente que aquela relva já estava a precisar ser aparada e melhor cuidada pois ervas daninhas começavam já a predominar e ganhavam uma altura que em certas zonas nos chegavam aos joelhos, quando, entre um olhar fugaz ao cão que, livre, serena e alegremente farejava aqui e ali, e um olhar para a planície imaginada a partir de meia de dúzia de metros quadrados de verde, eis que vejo de forma nítida e inequívoca, um carreiro  estreito, ali no meio da relva e também ele relvado, mas onde incrivelmente, a relva se mantém cortada e nem uma erva daninha se atreve a invadir o espaço. Estranho. Este "carreiro", ao contrário de muitos naturalmente criados pela regular passagem das pessoas, parece não vir e não levar a lado nenhum, dir-se-á à pimeira vista e continua a ser claramente verde, em vez de terra despida, provocado pelos passos e peso das pessoas Ali, a relva não está mais pisada que a restante existente ao redor. Como se os seus utilizadosres fossem de uma leveza e delicadeza surreal. Simplesmente, ali a relva não cresce tanto, como se fosse mais cuidada, e as ervas daninhas parecem estar interditas e respeitam o carreiro, não o invadindo. Curioso no mínimo.

Atenta ao "fenómeno", ao longo das semanas, constato que o carreiro se mantém e apresenta-se-me cada vez mais visível e definido, enquando ao seu redor todo o tipo de vegetação já cresce desgovernadamente. Um dia, entrei nele, no carreiro. Dou alguns passos e levanto a cabeça. Sinto-me leve, muito leve e de repente tudo faz sentido. Em frente, mesmo depois de acabar o relvado, e imaginariamente atravessando passeios e bancos de jardim que estão lá, o carreiro leva-nos direitinho para a porta principal da velha capela em ruínas. Exactamente em linha recta! Arrepio-me. E saio do carreiro.

Outros dias se seguem, e ele lá se mantém, até agora que a  relva e as ervas daninhas em redor  foram cortadas pelas máquinas e pelos homens, o carreiro mantém-se com uma tonalidade diferente de verde e perfeitamente identificável.

Por vezes atravesso-o ou dou apenas dois ou três passos dentro dele. Sinto-me demasiado leve nele e sei que me leva para outra dimensão, universo pararelo ou lá o que queiram chamar. Muda a percepção do tempo e do espaço. E depois sinto-as. E sinto medo. Um medo doce e tentador que me leva para o desconhecido. E salto fora do carreiro enquanto é tempo.

Tempo. Espaço.  Universos paralelos e dimensões desconhecidas e misteriosas. Um tema interessante sem dúvida.

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O treino no Monte

Todos os que correm, conhecem perfeitamente as boas sensações provocadas pela Corrida. Entre elas, as sensações de transcendência, imaginária ou real. Quem nunca sentiu, que enquanto corremos parece que somos levados para lá do conhecido? Para um universo distinto daquele que conhecemos? Viagem interior em cada um de nós, em cada Corrida ao encontro de nós próprios talvez. Sensações que afinal são tão facilmente explicáveis a nível científico, pela produção de substâncias, como por exemplo as endorfinas, no nosso corpo e cérebro quando o tempo de Corrida se alonga. E lá se vai a magia da transcendência...

E hoje, eu fui correr sozinha para o Monte. Só eu e o Monte. Vacas, cavalos, ovelhas, cabras, o cão pastor, o céu, a vegetação, as pedras, a árvore, o moinho em ruínas, eu e o Monte. Absolutamente maravilhoso. Sem grandes transcendências ou experiências extra-sensoriais. Afinal não corri mais que hora e meia.

Munida de telemóvel, para qualquer eventualidade, com  ele, de forma prática, também usufro do prazer da fotografia. Recolho imagens que trago comigo em forma de fotografia, para além da retenção na retina e na alma que só a memória pode guardar. Além disso, o meu único controlo de treino, tempo e ritmo, neste momento, é o telemóvel e o Strava, que utilizo, para além dos caminhos que já conheço, da experiência e da maneira como me sinto a correr, o que sabemos pode ser muito enganadora a nível de ritmos e distâncias.

Corri devagar e andei muito. Praticamente sempre que subia, andava. E subi ao ponto mais alto do concelho de Vila Franca de Xira: o nosso Monte Serves, a uns míseros 350 m de altitude mas é o que temos e é muito bom!

Estou a treinar para o 6º Trilho das Lampas, a realizar-se a 12 de Maio, e tenho muito trabalho e prazer pela frente! Para depois, usufruir mais e melhor da prova! E o treino de hoje foi o adequado e possível.

Treino maravilhoso. Comigo mesma, ao meu ritmo. Surpreendentemente, quando termino e desligo o Strava, ela marca 1h31m (1h23m em movimento) - bate certo, mas marca também 13 Km! 13 Km! Impossível. Pelos meus cálculos, fiz entre 10,5km a 11 km no máximo! Logo o ritmo médio é falseado! Primeira reação é ficar chateada! Uma pessoa gosta de saber o que fez, avaliar o estado em que está, etc., etc. Mas isso é tudo secundário! Absolutamente secundário! Afinal corri, subi ao Monte Serves, sigo a minha preparação para as Lampas e vivi bons momentos pelo Monte acima e Monte abaixo!

E depois, concluo que afinal o Strava deve também ter contado com alguns passos fantasmas que dei. Numa outra dimensão qualquer, numa realidade paralela qualquer por onde andei nesta manhã. E afinal, sim, acredito que o Strava está certo! Percorri e vivi muito mais que os estimados 10,5 km a 11 km que penso ter feito nesta realidade que conhecemos!

treino de hoje, registado pelo Strava, para ver aqui









quarta-feira, 28 de março de 2018

Até sempre Rui Pacheco

Nesta noite de 28 de Março de 2018, olho o céu infinito, meio nublado, algumas estrelas e uma lua envergonhada, resplandecente ainda assim, numa beleza repetida, quase banal, tal a aparente falta de originalidade, tantas vistas avistada nestes quase cinquenta anos de vida que levo, mas ainda assim, bela, tão bela como poucos cenários vistos, e pintando no céu este belo cenário, a lua a condizer com as estrelas cintilantes a pulsar com diferentes intensidades mas a mesma magnitude e magia. Manto magnífico a cobrir a vida. A cobrir-nos a nós. Universo sublime e de misterioso encanto sobre nós. 

Caio no fundo. Este foi o dia que desapareceste fisicamente deste mundo. A matéria do teu corpo desaparecida, como a conhecíamos, e transformada em outras formas de vida por certo, muito dentro em breve.

Choco-me. Ainda me choco. Como se morrer não fosse vulgar. Inevitável e natural. Como se fossemos grandes amigos, que não éramos. Eras "apenas" amigo de meus amigos e no teu caso faço jus ao provérbio "Amigo de meu amigo, meu amigo é". 

Assim, conheci-te e cheguei a treinar contigo, "à boleia" de amigos, lá nos juntamos no mesmo grupo, duas ou três vezes apenas. O suficiente para perceber o ser humano simples, humilde e solidário que eras. Apesar das tuas qualidades físicas e atléticas, do exemplo de luta e superação que dás, eras um rapaz simples, educado e sem pretensiosismos.

E a vida foi-te ceifada aos 41 anos. Num segundo. Ainda não acredito verdadeiramente. Não pode ser verdade. A tua companheira, luta ainda numa cama de hospital e sem a conhecer desejo-lhe do fundo do coração uma completa recuperação física, para depois enfrentar e superar a perda irremediável. São partidas da vida que não compreendemos e dificilmente aceitamos.

Seremos nós apenas joguetes nas mãos dos misteriosos caprichos e desígnios do Universo, vulneráveis e frágeis, tão frágeis e vulneráveis, à mercê de meros acasos, de circunstâncias e condições casuais que reunidas ditam o nosso destino na porra desta vida? Quando por aqui andamos, ilusoriamente a acreditar que nós fazemos o nosso próprio caminho? 

A ti, Rui Miguel Pacheco, um até sempre rapaz!

A ti, Vanessa, os meus sinceros votos para saires dessa cama e ainda voltares a ser feliz um dia e nos brindares com o teu bonito sorriso.

À família e amigos chegados, as minhas sentidas condolências.

E entretanto, que a vida seja verdadeira e genuinamente vivida, bem vivida e espremida, ao segundo. Que se vivam as emoções, que se vivam as pessoas, que se semei o amor, a amizade, a alegria e o carinho. Que se viva e se valorize o que realmente importa, o essencial, sim, aquilo que é invisível aos olhos, e que nada fique por viver, como gostaríamos caso já seja demasiado tarde depois. Que se viva hoje cada segundo!  Porque no próximo segundo, podemos ser, nós ou os que nos rodeiam, abruptamente retirados de cena. 






domingo, 18 de março de 2018

Estórias que as casas nos contam


A fábrica e o tempo


O tempo passa de forma assustadoramente rápida. É tudo tão rápido. Rápido. Não deixa de ser irónica a palavra. Quando marca afinal uma paragem no tempo, neste caso. O tempo...Não sei mesmo se não foi ainda ontem que ouvi a sirene da fábrica a assinalar o fim do turno, pelas dezasseis horas naquela tarde cinzenta de Inverno e depois de desmontar a velha pasteleira na qual percorria a fábrica para controlar a salinidade dos tanques que me estavam atribuídos, ouvi quase em simultâneo o uivo do comboio rápido, desta vez demasiado insistente e assustadoramente perto, como se estivesse a competir com a sirene da fábrica, desafiando-a, a querer fazer-se ouvir mais alto, a avisar do perigo e a adivinhar a desgraça. Foi a última vez que aquela mãe e aquele filho o ouviram. O comboio e a sirene da fábrica. Naquela tarde triste e cinzenta de Inverno onde depois os bombeiros tiveram de recolher os pedaços dos corpos, da mulher e do menino, espalhados ao longo da linha por muitos e muitos metros. Até ao dia seguinte.
Assistímos a tudo. Eu e a fábrica. E ainda hoje, em certas tardes cinzentas de Inverno, em que a chuva miúda nos molha o rosto, exactamente pelas dezasseis horas, ainda ouço a sirene da fábrica e o apito do comboio, a urrar em uníssono e a lembrar a tragédia.








quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Parabéns Egas Branco!

Nasceu a 8 de Fevereiro de 1938. Passou pela História e faz História. Hoje também, a comemorar 80 anos!

Sempre ligado ao Desporto, praticante de várias modalidades, Maratonista, e como tal, persistente, lutador e resistente, características que transporta na vida nas suas várias vertentes. 

Não privo propriamente com ele, nem posso ser chamada de amiga do coração, nem de perto nem de longe, sou "só uma amiga virtual", no entanto, foi-me dado a conhecer pelo seu sobrinho e meu amigo Jorge Branco, e pelo que o Egas transmite pela postura que tem e que me tem sido dada a conhecer aos poucos, é suficiente para ser merecedor de toda a minha consideração, respeito, admiração, carinho e amizade também!

Por isso hoje, Muitos Parabéns Camarada e Amigo Egas, pelas 80 Primaveras, 80 Verões, 80 Outonos e 80 Invernos, porque a Vida é todos os dias! Porque a Vida é hoje! E para hoje em especial desejo um dia muito feliz, a repetir-se pela vida fora, em cada degrau da vida, em cada passo, em cada gesto, cheio de saúde e envolto no mais belo sorriso sempre! 

Um grande beijinho Egas e Feliz Aniversário! 


Egas Branco

O meu Amigo Jorge Branco e o seu tio e Amigo Egas Branco
E para conhecer um pouquinho mais do Egas, ele pode ser encontado nos blogues, onde é colaborador e que eu recomendo:

Na Cidade Branca   (sobre Filmes e Peças de Teatro)
e
Último Km (sobre a Corrida Para Todos e o Desporto)

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Faço anos

24 de Janeiro de 1977

A menina sente uma alegria gigante dentro dela. Crescente. Quase euforia. Afinal ela hoje faz anos. Oito. Foi à escola como todos os dias, enfrentando medos e desafios, e como todos os dias passou despercebida, o que se lhe tornara não só suportável, mas até agradável e muito confortável. E hoje, aquele sentimento de alegria era um segredo só dela. Uma raridadade, uma preciosidade, um segredo que a tornava verdadeiramente especial. Ela hoje fazia anos e mais ninguém sabia e apesar da alegria que sentia, a timidez não deixava que nada nela transparecesse, o que mais valorizava o "segredo".

Chegou da escola e largou a pasta vermelho escuro, já gasta e herdada do irmão. Agora com uma nova pega de couro, cozida à mão pelo avó Quico, sapateiro de profissão, o que muito a embaraçava junto dos colegas de escola, com pastas novas, brilhantes e com o inconfundível cheiro a novo a inebriar-lhe os sentidos. Ainda hoje o sente e ouve com nitidez o baralho do fecho metálico das malas deles, novinhos em folha. A dela, de fechos gastos, já não fazia aquele som e na verdade só um deles funcionava.

Mas nada disso interessava hoje. Hoje ela fazia anos. Pensou que poderia ter um prenda em casa a aguardar por ela. Como no ano passado, aquele livro de colorir, gigante, com tantas páginas e tantos desenhos bonitos. Durava até hoje, ainda com algumas figuras por colorir.

A excitação crescente cessou bruscamente, quando a mãe, cansada e já feliz por a custo ter conseguido pôr comida na mesa para os filhos hoje também, que o mês já ia longo e até o pai, sempre ausente devido aos turnos na fábrica, receber de novo, ainda faltam muitas refeições para os quatro, lhe anuncia asperamente que este ano ela não tem prenda! 

Passado o choque inicial, a menina, magoada pelo tom agressivo, conforma-se e vai-se sentar à mesa para comer, em silêncio. Nem um soluço, nem uma palavra. Apenas reflecte. Sim, afinal até faz sentido. No ano anterior teve o livro para colorir, no ano anterior a esse, não teve nada, este ano, nada teve. Fazia sentido. O livro recebido no 7º aniversário, valia bem como prenda dos 6 e agora também dos 8. Sim, fazia todo o sentido. Agora, restava-lhe esperar pelo 9º aniversário e sonhar e acreditar que certamente aí, voltaria a receber uma prenda de anos.




 24 de Janeiro de 2018: 49 anos de Vida. Venham mais!





"Quantos anos eu tenho? Não preciso de números para marcar, pois meus anseios alcançados, as lágrimas que derramei pelo caminho, ao ver meus sonhos destruídos…
Valem muito mais que isso.
Não importa se faço vinte, quarenta ou sessenta!
O que importa é a idade que eu sinto.
Tenho os anos de que preciso para viver livre e sem medos.
Para seguir sem medo pelo caminho, pois levo comigo a experiência adquirida e a força de meus anseios.
Quantos anos tenho? Isso não importa a ninguém!
Tenho os anos necessários para perder o medo e fazer o que quero e sinto."


José Saramago

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

S. Silvestre Cidade do Porto Liberty Seguros 2017 em 30 minutos

30 de Dezembro de 2017 - 24ª S. Silvestre Cidade do Porto


30 minutos para ver, recordar, e ter já vontade de voltar!


30 de Dezembro de 2018 estamos lá para as bodas de prata ?



domingo, 14 de janeiro de 2018

Correr é preciso

Pelos últimos dia que passo com 48 anos, a vida tem passado assim, a Correr como sempre, com um foco, um único foco! 

Luz orientadora, como um farol avistado do mar em noite de violenta tempestade e a tua embarcação ameaça render-se e sucumbir. Um foco. Uma luz. Uma orientação. E uma missão! Todos temos de a ter para não navegarmos à deriva nem naufragarmos. Por mais apetecível, fácil e tentador que fosse deixarmo-nos abraçar e levar, rendidos e vencidos por alguma vaga mais forte, e nos deixarmos por fim levar ao fundo do mar onde finalmente repousaríamos nossos corpos cansados de lutar, junto dos náufragos e dos tesouros sempre inúteis, mas há que lutar. Porque é preciso.E porque vale sempre a pena!

Há uma missão, que esforço-me por cumprir. A cria e os dependentes. Criá-la, alimentá-la, dar-lhe todas as condições para se tornar num ser independente, autónomo, forte e feliz. E no entretanto dar-lhe as melhores experiências, transmitindo valores e disfarçar algumas dificuldades, fraquezas, limitações, medos. Como se fosse possível. Felizmente ela sabe que sou humana. Mas preciso também fortalecer-me para conseguir continuar a levar o barco a bom porto. Mantê-lo à superfície e direitinho na rota, entre vagas gigantes, chuva e vento forte e trovoadas mais ou menos medonhas. Para ser e também fazer os outros felizes nesta viagem que é a Vida.

Por isso, Correr é preciso! É preciso! Como respirar ou beber água. Correr, é simplemente, preciso! Preciso! De outra forma, definho e naufrago. E a Corrida fortale-me! 

Gosto de pisar a terra molhada, cheirá-la, inebriar-me nos odores de Inverno, enquanto ilusoriamente vagueio em passos de Corrida, sem destino e sem tempo. A lama, a terra, de onde vim e para onde vou, o verde, as plantas, os insectos e as aves, a chuva, o Sol e o arco-irís a envolver-me. A Vida. Corro. Enquanto corro, fortaleço-me. Para toda a restante Vida que há em mim e suas inúmeras vertentes.  

A dose do fim de semana:

Sábado: 5,8 Km - Corrida lenta intercalada com Caminhada, na melhor das companhias (com a cria) - para ver aqui

Domingo: 7 Km em passo de Corrida que não parecia tão lenta, mas foi. Muito lenta até, afinal! Ah...não venham de seguida as justificações, as desculpas nem os lamentos, foi isto e ponto! - a ver aqui







segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Caminhada entre Fortes


Foto de Américo Guerreiro

Caminhada entre Fortes - 7 de Janeiro de 2018
Podia ser outra forma qualquer, a de preencher grande parte deste dia. Mas não. Foi esta!

Caminhar entre Fortes e amigos. Com partida às 9 da manhã junto ao Forte do Alqueidão, passagem pelo Forte da Carvalha e pelo Moinho do Céu, a 320 m de altitude e regresso ao ponto de partida, em circuito circular.

Deu coisa para 21,850 Km, com 750 m de altimetria, e o percurso pode ser visto aqui 
Organização de Rotas e Trilhos, guiada pelo Helder Carvalho, a custo zero para os cerca de 30 participantes que se atreveram, caminharam e venceram. 

Muito vento, alguma lama, aldeias e casas e cães. E cavalos, e javalis (era só um mas pronto), e perdizes e vacas.

Podia ser outra forma qualquer pois podia. Mas esta foi inequivocamente a melhor que podia escolher para passar este dia até às 3 da tarde.

Um agradecimento especial ao nosso guia Hélder Carvalho e também à Rota e Trilhos.


Javali, por Américo Guerreiro

Foto pelo nosso guia Helder Carvalho
Foto pelo nosso guia Helder Carvalho

Pedizes, por Américo Guerreiro
Foto de Helder Carvalho

Cavalo, por Américo Guerreiro

Lama e gente, por Américo Guerreiro
O meu pequeno album de registo fotográfico, pode ser visto aqui

Mais fotos, por Helder Carvalho, ver aqui

E por Amércio Guerreiro, ver aqui

Um cheirinho do que foram estas quase 6 horas de Caminhada, contemplação, reflexão, deslumbre e convívio:
Foto de Halder Carvalho


Foto pelo nosso guia Helder Carvalho


Foto pelo nosso guia Helder Carvalho
 
Foto pelo nosso guia Helder Carvalho




Foto pelo nosso guia Helder Carvalho

Foto pelo nosso guia Helder Carvalho

Foto de Américo Guerreiro

Foto de Américo Guerreiro