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segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Branco


Acordou com a claridade do amanhecer. Paredes brancas, quadros em tons de azul a mostrar o mar e a sua vida, e a cortina branca a dançar com a leve brisa marítima e fresca que entrava pela fresta da janela.

Um balbuciar de bebé fê-la virar o rosto para o lado, abandonando o branco dos lençóis do lugar vazio ao seu lado na cama e pousou o olhar sobre o rosto que mais a ilumina. A sua filha que completou agora um ano, brinca no berço, com os seus próprios pezinhos descalços e ensaia sons, imitando palavras. Quando os seus olhos castanhos redondos tocam os da sua mamã, rasga o rosto com o sorriso mais lindo do mundo, mostrando os seus únicos dois dentes e um queixo a luzir de babinha.

- Olá...bebé... - Levanta-se a trá-la para a sua cama enchendo-a de beijos no pescoço fazendo-a soltar doces gargalhadas. Genuínas. Depois, vai preparar o biberão, passa pelo outro quarto onde dormem ainda a sua filha mais velha e a sua enteada, filha do seu namorado. Satisfá-la poder oferecer esta casa e estas férias aos seus.

Alimenta a pequena, muda-lhe a fralda, fá-la arrotar, e fica-se a vê-la adormecer de novo, nos seus braços, de boca entreaberta, deixando-lhe ver os dois dentinhos de baixo, os únicos que ela tinha, e de bochecha esmagada contra o seu seio nu, sob a fina película da sua camisa de dormir transparente, deixando adivinhar o mamilo castanho.

Podia ficar ali para sempre, assim, a olhar o seu bebé com amor, sabendo que o seu outro amor dormia também descansado no quarto ao lado. Não lhe fossem doer os braços, e poderia ficar ali para sempre, sim. Assim. Voltou a colocar a bebé no berço e recostou-se na sua cama, contra as almofadas grandes e brancas que lhe amparavam as costas, e as lágrimas em noites de dor, e os desejos em noites quentes, em que sozinha usa os seus próprios dedos para se satisfazer, percorrendo com eles o seu corpo sem temor ou segredos, e pensando nele, ausente, afogava nelas os seus suspiros quando sozinha se amava.

Era cedo e a casa dormia de novo, como elas. Estavam de férias e ainda era muito cedo para irem para a praia. Deixou-se ficar ali a gozar a casa de férias que agora conseguia pagar com alguma facilidade, ouvindo as gaivotas lá fora a dizerem que já era dia, e esticou-se na cama, só sua. Encheu-a de si, com o seu odor, puxou para si uma almofada que abraçou com força, desejando que fosse ele, pensando nele. Apertou-a contra si e abraçou-a como se fosse gente, ausente.

Mas inexplicavelmente os braços continuavam a doer-lhe, como se o cansaço a tivesse vencido, e à sua volta estão de novo as paredes brancas mas sem quadros azuis. E o branco dos lençóis engole-a e quando os levanta como se a certificar-se que as suas pernas bambaleantes agora mesmo antes de se deitar, ainda ali estivessem e lhe pertencessem obedientes, descobre que a humidade que sente entre as pernas não é fruto de desejo ou sonhos eróticos, mas do sangue que jorra em catadupas e mancha o imaculado branco dos lençóis, das paredes, dos quadros que não existem, da sua camisa de dormir de tecido grosso e áspero, e ela sabe nesse momento que o seu bebé está morto.

Um dia, ela vai levantar-se. Dessa cama branca nesse quarto de paredes brancas apenas manchadas de sangue pelas suas próprias mãos sujas que não souberam salvar o seu bebé, ainda quente o seu corpo quando o soltou para a Morte. Um dia ela vai levantar-se. E talvez correr ainda, se ela for uma dessas mulheres. Mas não hoje. Não hoje, porque hoje o seu bebé está morto, e o branco ocupou o seu lugar, invadindo outros espaços, sobrepondo-se às outras cores.

10 comentários:

Antonio Gasparinho disse...

Boas,

desejo-lhe força para continuar independentemente de tudo...

o desporto cura tudo e mais alguma coisa...

tudo de bom...

http://adurezasaudavel.blogspot.com/

Mité disse...

Muito bonito....

horticasa disse...

Nem sei que te diga, fico sempre sem palavras quando leio estes teus textos tão fantasticos.
bjs nossos eugenia

José Capela disse...

Não percebo nada do que se passa!
Alguém me explica?

Anónimo disse...

Não a conheço, mas já me cruzei consigo por essas provas fora e, depois ler este texto, quero-lhe deixar o desejo de muita força e esperança de que se volte a levantar e a sorrir e a correr porque, apesar de tudo, a vida não pára...

Tudo de bom e espero vê-la em mais provas a sorrir, ou pelo menos a tentar esquecer o que menos bom se passa nas nossas vidas!

Força!

Fernando Andrade. disse...

Oh Ana
Estava cheio de saudades da sua escrita, mas não destas histórias com saaangue!!!! em código, que já li 3 vezes e apenas tiro uma ou outra conclusão que pode não corresponder à sua intenção. Está bem escrita? Está sim, mas entendível só por alguns. Também sei que é esse o objectivo, se não nós ficávamos a saber tanto como a Ana,eheheh.
Mas tenho reparado que depois de uma ausência prolongada, humm...lá vem estória com mortos.

Oh Ana, sacuda a cabeça, beba um copo de água, calce uns tenis e vá dar uma corridinha, vá...vá.
Beijinho.
FA

Sergio disse...

Te desejo força para seguir seu caminho no meio das adversidades da vida.
Post de difícil compreensão, o que deve ter sido sua intenção, de acordo com o momento em que está passando.
Quando puder, calce o tênis sem relógio nem rumo e dê uma corrida, que é um santo remédio!
abraço,
Sergio
corredorfeliz.blogspot.com

elis disse...

oi, ana!

em respeito a seu sentimento, meu silêncio...
porque nenhuma palavra neste momento traria cor a esse branco...

Lénia disse...

OI Ana,

Vi agora a tua msg. Estou para vir aqui comentar desde ontem qdo li este último post.

Espero que esteja tudo bem ctg e adorava poder estar ctg em Cascais ou V.F Xira.

Mtos beijinhos e muita força, seja lá qual for o desafio que tens em mãos!

Lénia

Lénia disse...

Ah, espero que um dia qdo vieres cá a esta terra, possamos as duas ir treinar à Falésia.

Mais uma vez, um grande abraço!