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domingo, 15 de novembro de 2020

O tempo

 

Mãe

O tempo que voa, corre veloz sem piedade, horas, dias, semanas, meses, anos...a vida a passar a correr, a dar-nos aquela sensação de passagem fugaz por esta experiência que é a vida. E depois um momento, um exacto momento em nos obrigamos a parar e apenas sentir e viver, e de repente, nesse instante, todo o tempo do mundo pertece-nos por inteiro e todos os nossos anseios perdem voz e encontramos por fim tranquilidade.

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Do Covid-19 e do isolamento

Estamos em casa. Podemos estar em casa. Podemos trabalhar a partir de casa. Podemos misturar coisas como picar salsa e inalar o refogado de azeite, cebola e alho, aguçando o apetite, com vozes doces de quem amamos, com medicamentos enfiados boca abaixo de quem resiste mas sabe que é preciso ouvir este ralhete e acatar a ordem como se de enfermeira eu me tratasse, e o sucesso de uma venda de materiais tão frios e duros e gélidos como o aço brilhante e ainda soltar uma gargalhada calorosa com um cliente de topo que conseguimos conquistar muito para além dos cifrões e dos interesses económicos, num telefonema entre casas, com o riso das crianças e o latido dos cães e o chilrear dos pássaros como pano de fundo, numa melodia encantadora. Trabalhar em casa é ouvir a chuva e chorar os que não podem estar em casa. E os que estão em casa e não terão pão na mesa, porque precisamente estão em casa e o vírus roubou-lhes o pão. O pão e as pessoas que não puderam ser choradas condignamente, num enterro a solo. Estamos em casa e olhamos a chuva quando já passada a hora do trabalho, bebericamos um copo de vinho tinto e fazemos amigos sem abraços ou beijos ou palavras sequer. Apenas com pão e amor. E eles são cada vez são mais. Pequenos pardais e melros, que cantam como nunca ouvi e circundam a porta de vidro da minha cozinha que dá para o terraço, mesmo quando chove e eu choro por dentro, e embelezam o mundo com o seu canto e o seu voo e levam as migalhas que lhes ofereço todas as manhãs e noutras horas do dia, até que o Sol se deita. Para as crias, talvez, e garantir a sobrevivência e a continuidade da vida. E nesse instante o mundo fica mais belo. Como há-de voltar a ser um dia. Um mundo onde havemos de poder voltar a voar, sem medo. Um dia. Mas hoje não. Hoje é tempo de ficar em casa.



domingo, 12 de abril de 2020

Do Covid-19 e do isolamento


Domingo de Páscoa

O meu pai chama-se Melro. Tem 83 anos e vive connosco desde Agosto passado. Ele a minha mãe, claro. Uma rasteira da vida, veio mudar o nosso rumo. De dois, passamos a quatro dentro desta casa. Cuido deles com a naturalidade com que sempre cuidaram de mim ao longo de meio século. Agora, é a minha vez. Este é o meu caminho. Mas confesso, depois de todas as necessárias adaptações, de espaço, de tempo, de rotinas, de tarefas, de mudanças dentro e fora de casa, dentro e fora de nós próprios, depois dos incidentes pelo meio que ainda me prometem um novo campo de batalha especialmente montado para mim, onde já sigo por campo minado, ateia rezando para nenhuma mina rebentar, não precisava disto. Desta ameaça invisível. Deste novo desafio dentro de outros. Não precisava. E o Melro, irrequieto como a ave, também não. Ver-se impedido de dar as suas voltinhas diárias, custa-lhe. A ele e a mim. E a todos nós, por certo. Ao contrário de muitos, da sua idade, e da minha e mais novos, tem uma compreensão irrepreensível da situação. E fica em casa! E em casa, ainda podemos tanto!  Hoje, companheiro de “treinos” inventados, como outrora de Corridas. Corridas…que saudades… Mas hoje, por hoje e pelo tempo que for necessário vamos fazer o que temos de fazer: Ficar em casa, é, de acordo com as nossas competências, a singela missão que nos foi atribuída nesta luta silenciosa aqui dentro. Eu, em teletrabalho, guardiã do castelo que sai apenas para o que tem de ser, e eles, “apenas” ficam em casa. E nesta Páscoa, estes coelhinhos ficaram na toca! Para que outras Páscoas diferentes sejam ainda possíveis! E tu? 






terça-feira, 7 de abril de 2020

Do Covid-19

Por aqui, por casa, há quem trabalhe para fora a partir de casa, como se estivesse fora, mas está dentro a fazer mexer lá fora, e a tentar garantir o pão cá dentro,  há quem trabalhe o resto do tempo na própria casa na tentativa de a manter operacional e perfeitamente funcional para os habitantes, há quem estude, há quem resista, quem aprenda, quem cuide, quem segure as paredes do castelo com a força dos braços, reforce a Fortaleza e a abasteça de mantimentos com a regularidade necessária para alimentar os guerreiros, use as armas que tem, com responsabilidade e a necessária seriedade, quem ria quando quer chorar, quem chore sem absolutamente razões nenhumas para chorar, quem fervilhe de emoções e nada transpareça, quem dê graças à Vida e à sorte que com que esta o tem bafejado, há quem brinque, quem leia e quem jogue, quem durma tranquilo e quem não durma, há quem acumule cargos e quem viva indiferente aos noticiários, mas todos, todos sem excepção, lutam no conforto do lar pela sobrevivência. No lado mais fácil desta batalha que o Mundo enfrenta. Em casa. Lutam para sobreviver a esta nova ameaça a juntar às que já não são novas, e lutam para daqui a um tempo sorrirem só porque são sobreviventes! E esta gente aqui por casa, com a sua humildade e respeito pelo conhecido e pelo desconhecido também, continua a acreditar que “Vai ficar tudo bem”, mesmo quando correntes próprias de adolescentes no auge da sua rebeldia os chamam de hipócritas e contrariam a frase, desdenhando-a e desvalorizando-a. A frase. Como se a frase fosse só uma frase…Sem entender a importância e necessidade de manter a aparente inocência e infantilidade de continuar a acreditar e repetir até ao fim dos nossos dias que “Vai ficar tudo bem.” 

E depois, há aqui dentro também, quem apenas olhe a rua, paciente, também à espera de melhores dias, especialmente que o elevador fique de novo a funcionar para poder ir à rua sem isso significar um tormento para as articulações e ainda assim, continuar a acreditar que “Vai ficar tudo bem”. 

Fica em casa, se puderes. Se a tua profissão e missão nesta vida não implicar impreterivelmente que saias…fica em casa. Nós ficamos. É a nossa missão. 




domingo, 29 de março de 2020

Covid-19…Portugal somos nós! - Fica em Casa





Covid-19…Portugal somos nós!

Uma semana em casa. Tenho a possibilidade de trabalhar em casa. Foi-me dada e permitida essa opção, como possível que era e como tinha de ser, se é que há alguma responsabilidade, sensatez e humanidade no espírito de quem manda. E há. E eu faço-o. Com empenho e entrega, com tanta ou mais do que se estivesse no escritório, supostamente observada, vigiada e controlada. Agradeço a confiança. E respondo. Respondo como sou. Simplesmente como sou.

Desde Agosto, com provações sucessivas que a vida me colocou no caminho. Caminho ladeado de flores, árvores, sol e sombra, pedras e terra batida. Caminho. Caminho que sigo, com medos e dúvidas, lágrimas e risos, mas sem dúvida o único a seguir. O meu. De repente (em Agosto), sem aviso ou preparação, a família passou de dois para quatro. Mais dependentes, mais trabalho, mais responsabilidade e inúmeras alterações de rotinas, ajustes materiais, físicos e emocionais. E ainda sem tudo “arrumado”, móveis ou cabeça, agora isto!

Um inimigo que não se vê, que está lá fora e que nos pode apanhar cada vez que pomos um pé na rua. Ir à rua apenas para o estritamente necessário! Daqui, deste castelo, muralhas altas construídas com sangue e lama, fechamo-nos sem nos fecharmos. Protegemo-nos. Por quem tem de ser protegido, mais que ninguém!

Só esta mulher sai desta casa. Ela e a cadela. Para fazer as necessidades esta e depois aquela para abastecer a despensa e comprar medicamentos, bens imprescindíveis para manter a matilha. Com todos os cuidados, com a humildade de saber que todos os cuidados são poucos e que um azar qualquer e já fomos apanhados e não podemos, pois estaremos a trazer a Morte para casa.

É só disso que se trata. Não querer trazer a Morte para casa a quem me deu a Vida.

Tenho medo, admito e confesso. Mas luto! Luto! Fico em casa e essa é a minha luta, a possível, a que está ao meu alcance e que abraço de coração! É fundamental não parar. Trabalho. Uma gota de água a alimentar a Economia deste país. Eu. Os meus colegas, e tantos outros. Actividades que aparentemente não estão directamente relacionadas com a batalha que todos travamos, mas ainda assim necessárias, uma luta nos bastidores, na sombra mas essencial para que tudo funcione, para que a Economia não colapse.

Tenho medo. O medo…essa emoção que nos apura os sentidos e nos faz recuar ou tomar medidas necessárias à nossa sobrevivência. Escolho a segunda opção. E é disso que se trata, de sobrevivência!

Uma semana em casa, um dia no escritório, quatro de teletrabalho, a lutar com unhas e dentes, nesta aparente inércia e passividade aos olhos desatentos, a descascar batatas, a preparar lanches, almoços e jantares, a manter o essencial, a dar banho a quem não pode, a lavar tachos e roupa e a apresentar propostas para vender material para o país não colapsar. Sou eu. És tu, somos todos nós, a lutar em silêncio, sem holofotes nem palmas. Somos Portugal! Portugal somos nós!

E depois, em casa, fechados, enclausurados a dar um valor inimaginável à liberdade antes garantida e por isso desvalorizada, de sair e apanhar Sol e mar e sal no rosto sem medo, medo de ser apanhado pelo vírus e trazer a morte para casa. Sem medo.

Dias que hão-de voltar. Por ora, é tempo de ficar em casa, tu que a tua profissão e missão te obriga a estar no terreno, a lutar cara a cara, por todos nós, injustamente a dar a cara e o corpo e alma ao diabo, a enfrentar o inimigo de frente e a olhá-lo nos olhos. Cuidem-se todos vós.

E vós, que a vossa profissão não vos exige esse grau de entrega, …por favor, apenas fiquem em casa. Não desvalorizem o inimigo. Não dificultem a luta. Não contribuam para a morte, por favor. Respeitem. A Vida, a vós próprios e respeitem os outros. Os vossos, e os meus, a todos! Quando pensam que sair não faz mal porque não estão com quase ninguém, estão! Garanto-vos que estão! Quando tocam na porta de entrada do prédio, quando respiram o ar que alguém expirou há minutos atrás, quando cumprimentas o vizinho, quando tens um azar e precisas de ajuda médica, garanto-te que está a empatar, a estragar a luta que deveria de ser de todos! Com as armas que cada um tem. E tu…só tens de ficar em casa! E dá valor, que ainda assim, com a depressão a assombrar-te (como se soubesses o que isso é e a maioria de nós não sabe felizmente), garanto-te que é o lado mais fácil desta batalha, que venceremos, mas para isso precisamos que cada um faça a sua parte! Fica em casa!

“Não te vás abaixo
Se o medo rondar.
É só um mau bocado
Que vai passar”

UHF, in “Portugal somos nós”

domingo, 22 de março de 2020

Covid-19



Fiquem em casa

Não me assusta nem encontro nenhum drama em ficar em casa.

Não me assusta viver com os meus dentro de quatro paredes 24 horas por dia, a tropeçarmos uns nos outros, a embirrarmos uns com os outros, mas também a cuidarmos uns dos outros, e ainda assim a tentar descontrair para não sermos vencidos pelo medo, pela ansiedade e pelo pânico. 

É importante a consciencialização, a responsabilidade e a atitude. Compreender o que já se sabe, ou se pensa saber, sobre o vírus, e agir em conformidade para evitarmos que ele nos apanhe e evitar propagá-lo. Quem nos garante que já não nos apanhou e quando “vamos só ali e não faz mal porque vamos sozinhos e não vemos ninguém”, não estamos a contribuir para a sua propagação? O tempo de vida do vírus nas diversas superfícies é assustador, isso sim, assusta-me! Nas paredes, no solo, nas portas, nos corrimãos, nas tampas do lixo, na porta da escada, no ar! Isso sim assusta-me! Assusta-me sim ter de sair e poder trazer o vírus para dentro de casa. Assusta-me a ligeireza com que alguns ainda lidam com o assunto. Assusta-me como agem. Assusta-me porque não compreendem que o seu argumento de “não faz mal porque vamos só ali e não vemos ninguém” é porque muitos “alguéns” ficam em casa! E também precisavam de arejar e fazer alguma outra coisa para manter alguma sanidade mental, acreditem!

Com duas pessoas dentro de portas, que reunem condições que as torna de risco para o Covid-19,  tanto pela idade como pelas patologias, fáceis de “controlar” ao contrário de muitos de quem os filhos se queixam por não compreenderem a importância do “Fica em casa”, as minhas preocupações e cuidados redobram, triplicam, quadruplicam e ainda assim tenho noção que podem ser insuficientes. Só eu saio à rua. Para o que tem de ser. Comida e bens de primeira necessidade (sem esquecer a cerveja, claro, que isto de manter a sanidade mental, aqui é levado muito a sério), medicamentos, levar a cadela a fazer necessidades, levar o lixo. Com mil e um cuidados, mas sei que um pequeno descuido, um gesto automático como levar a mão ao rosto, um vizinho que nos diz bom dia com demasiado entusiasmo e demasiado perto do nosso rosto, um “esquecimento” e um azar, e podemos ser infectados. E de igual modo infectar outros.

Não me assusta “ter tempo”, nem compreendo a dificuldade de muitos em ocupá-lo dentro de casa. 

E a Economia, dirão? E as contas por pagar, dirão…e sei muito bem do que falam, que eu até também as tenho! Mas mortos…de que vale termos as contas pagas? É preciso parar para parar o vírus, manter apenas o estritamente essencial para a sobrevivência das pessoas. Mas e o país?! O país são as pessoas! Sem elas, não há país...

O país...são as pessoas!

Depois…depois…Há-de ficar tudo bem! Mas por agora é preciso atitude, adoptar comportamentos que contribuam para isto parar! 

Por nós, pelos nossos, por vós, pelos vossos, fiquem em casa por favor!
Não é assim tão difícil.


sexta-feira, 20 de março de 2020

A noiva

Estórias de encantar, mas sem encanto

Da saga “Férias 2019”

Capítulo fora de ordem, racional ou outra

A Noiva

Algumas vezes, ao fim do dia, já noite dentro, depois de jantar e da loiça metida na máquina, reuníamo-nos à volta da mesa. Dessa mesma mesa de madeira onde tomávamos as refeições.

A fraca iluminação e as teias de aranha pelos cantos do tecto davam à habitação um toque fantasmagórico, misterioso e caprichoso, ao melhor sabor do fantástico e de filmes de terror.

Os jogos de tabuleiro, descobertos na casa, de entre uma pilha empoeirada de brinquedos e livros velhos, com décadas de uso, mil e uma histórias vividas, ocupavam o centro da mesa e depois de analisados era escolhido um. O papel amarelado, envelhecido pelo tempo e pelo uso, e o cartão amachucado, com vincos de memórias antigas, rugas desenhadas pela vida, incorrigíveis, eram características comuns a todos eles, mil e uma vez manuseados, testemunhas silenciosas de serões passados por ali. Também de noites dolorosas e de dias sombrios. De sangue derramado e de almas trespassadas por lanças de ferro enferrujado e frio. Mas eles não sabiam disso nem poderiam saber.

Naquela noite foi escolhido o Loto e a jovialidade dos jogadores deu vida ao jogo e o jogo deu vida aos jogadores.

Escolhidos os cartões, sobrou um, porque tu, Mãe, jogavas agora outro jogo. Precisamente à mesma hora, a centenas de quilómetros dali, jogavas com a morte e a vida e sorrias num corredor de hospital entre dezenas de outros que como tu, aguardavam uma decisão, uma sala disponível, uma operação, um parecer médico, uma evolução de estado, ou simplesmente a morte se os familiares ali os abandonaram. Porque há muitas formas de morrer, e ali, há já gente morta.

O cartão do Loto que assim sobrara, foi colocado no centro da mesa e prontamente decidido pela nossa menina mais nova, que dormia no quarto da noiva, e que com ela partilhava não só o espaço que era o seu quarto, não o tempo, mas também o nome: Carolina.

Deram início ao jogo e foram saindo os números. A sorte e o azar a brincar connosco. As risadas dos ganhadores, que tinham a sorte por eles e os rostos contrariados, quase amuados, meio a brincar meio a sério de quando os jogadores se viam a perder. A noiva, invisível, mas claramente presente ia ganhando pontos, à medida que os números iam saindo, preenchendo o seu cartão de forma anormal e assustadoramente rápida. E quando só lhe faltava sair um número, uma única peça, deu finalmente a vez aos outros, enganadores e enganados, rijos e sorridentes como petizes apesar da idade avançada de alguns deles.

Ganhou o avô. Foi o primeiro a preencher o cartão. Riu-se como um miúdo. Serão feliz à volta de uma mesa de madeira e de um gasto jogo de Loto. A noiva, só não ganhou porque, verificou-se depois, que a única peça que lhe faltava, era uma peça que simplesmente não estava na caixa. Teria desaparecido no passado e na história da casa e das pessoas que por ali passaram. Distribuídas todas as peças, faltava a única necessária para a noiva preencher o seu cartão: a peça número 77.

Risadas joviais, arrumado o jogo e siga o serão. Sigo para a cozinha. É preciso acabar de lavar as chávenas do café que bebericámos a acompanhar o jogo e bolinhos.

Remeto-me à cozinha e começo a lavar as chávenas. A água a correr, os salpicos e o emaranhado de fios, tomadas duplas e tripas e extensões eléctricas diversas ali tão perto… Num momento em que rodo a torneira, parece-me sentir um ligeiro formigueiro no braço direito. “Ui…não…isto deve ser impressão…isto não pode dar choque!” De seguida vou buscar as restantes chávenas à sala e quando pouso as mãos na pia do lava-loiça, agora cheio de água, entupido pela canalização e escoamento deficiente e nítida e claramente agora, apanho o maior choque eléctrico da minha vida. Grito e afasto-me do lava-loiça. Não é possível, isto não é possível…mas eu senti! Juro que senti!
- Mãe! Gristaste?!
- Sim! Apanhei um choque, saiam daqui, ninguém toque na bancada, afastem-se!
Afastaram-se, tão ou mais assustados que eu.

Pego na esfregona e começo a limpar os pingos de água no chão. A esfregona, farfalhuda, numa dança no chão, em círculos enérgicos que lhe imponho, involuntariamente levanta a cortina que tapa a bilha do gás debaixo do lava-loiças e para meu espanto traz com ela um pequeno objecto que arrasta no chão, preso às suas franjas. É azul e pequeno. E perante a surpresa de todos, é uma peça do loto! Mais especificamente, a peça com o número 77…




sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Até já Abelha Maia



Querida Abelhinha

Faz mais de uma semana que nos deixaste. Faz mais de uma semana que te visito diariamente. Não. Minto. Visito-te mais de uma vez por dia. Para ver se estás "bem". Como se estar morto pudesse de alguma forma significar "estar bem". 

Aguentaste a noite e de manhã, voltei a aconchegar-te, pela última vez, sei-o agora,  no meu colo e ajustei a mantinha ao teu corpo encostado ao meu. Soube sem saber, que não durarias muito mais, acariciei-te e dei-te um beijo na cabecinha, autorizando-te a partir, meu amor. "Podes ir, querida, podes ir...", disse-te. Saí para comprar pão e quando voltei cinco minutos depois, já cá não estavas. A Morte tinha entrado em casa e tinha-te levado minha querida. Encontrei o teu corpo quando voltei, quente, sem vida, flácido e inerte. Toquei-te e percebi que já tinhas partido. Peguei-te e por instantes quis o meu coração ver-te viva, a ilusão de um ténue movimento do tórax, a dizer-me mentindo que estarias ainda a respirar, mas não, era ilusão e os teus olhos abertos agora sem vida e a cabeça pendida, diziam-me o contrário. 

Querida Abelhinha, nunca pensei que perder um ser assim, como tu, tão pequeno e "insignificante" pudesse tocar-me tanto. A Morte, cobarde, entrou em casa quando eu não estava e levou-te. O ser mais frágil. Aquele que tratei como um bebé, que alimentei a seringa, que lutei para resistir noutra ocasião. E conseguimos nessa altura, meu amor! A alimentação especial, a medicação e sem dúvida o amor agarraram-te à vida no passado. Mas agora, assim de repente, nada disso foi possível ou suficiente.

No espaço de 24 horas, disseste-me que estava a chegar a tua hora e partiste. 

Não consegui fechar-te os olhinhos. Deixei-te embrulhada num lençol branco dentro de uma caixa de cartão. Agora não havia tempo para tratar de ti, e tinha de ter a certeza de estares morta, minha querida, antes de decidir o que fazer ao teu corpo. À noite, com a alma do avesso, desembrulhei-te e olhaste-me sem vida, com a tua carinha fofa, serena, sem dúvida em paz e sem sofrimento agora. Não consegui fechar-te os olhinhos, minha querida. Fechei o lençol e vi-me rua acima de pá às costas  e um cadáver debaixo do braço.

A terra está dura apesar da chuva dos últimos dias. Há raízes e pedras. A pá parte-se. Acabo a escavar com as próprias mãos. Não há medo. Bem...só um pouco de repulsa quando toco numa minhoca. Instinto primitivo. E dor. Resignação. Aceitação. Reflexão. A Morte. Tu e eu. A tua carne igual à minha, a decompor-se a tua nos próximos dias. A luz que se apaga. A Vida. O último sopro. Que fazemos cá nós? Cuidamos uns dos outros, respondo sem hesitar. Por instantes, mais do que os desejáveis ou aceitáveis, desejo ficar ali contigo, à beira do riacho, sob a protecção das árvores, a ouvir a água correr, debaixo de um palmo de terra, que eu não consegui escavar mais fundo, a apodrecer em paz, até a Mãe Natureza me transformar em flores e ervinhas e quem sabe em borboleta ou até talvez em pássaro. Ou talvez ainda em ratazana ou morcego. Em vida de novo. Só isso importa. Vida de novo. E a minha e a tua, e a de todas as formas de vida, qual vale mais? Não sou mais que tu minha querida Escherichia (o teu nome oficial, mas para mim serás sempre a minha Abelha Maia, a minha Abelhinha). Deixaste-nos minha querida, e eu continuo cá por enquanto, nesta forma de gente.

Deixaste-nos..E a mana? O olhar da mana, que apesar das normais picardias entre irmãs, nas tuas últimas horas, esteve sempre contigo, colada a ti, sem se mexer? Só de manhã se afastou, farejando a Morte por perto, como eu, e o seu olhar, meu Deus, esse olhar de medo, sem compreender o que se passava, apavorada. Ou compreenderia e queria dizer-me mais, mais ainda do que eu via? Oh Dottie, minha pequenina, desculpa não conseguir tranquilizar-te, explicar-te o que eu própria não compreendo, confortar-te... O teu olhar nessa manhã em que a Abelhinha nos deixou, marcar-me-á para sempre. Sentiste a Morte, minha querida, mesmo antes dela levar a tua mana, e disseste-me muito mais do que eu poderia entender ou entendendo, explicar por palavras.

Sem palavras, calei. Calei a dor. Calei os pensamentos, calei as palavras. Anormalidade este consciente absurdo de emoções, esta necessidade mórbida de te visitar a toda a hora. De certificar-me que nenhum animal (de quatro ou duas patas) poderia profanar a tua última morada e o teu pequeno corpo. A necessidade de certificar-me de que estás "bem". A culpa de não te ter conseguido salvar. A culpa de não ter conseguido escavar mais fundo e deixar o teu corpo em segurança. A culpa...sem fundamento racional. A culpa de sentir mais do que o expectável e o socialmente aceitável. A culpa de querer estar contigo mas ainda não poder. A solidão. A paz que anseio ao lado do riacho que corre, onde os pássaros chilreiam e as árvores sussurram segredos imperceptíveis entre si...Onde uma parte de mim ficou...Abelhinha, até já minha pequenina. 


domingo, 19 de janeiro de 2020

A Música e as palavras na Vida da gente II...Tem de ser


"A Música e as palavras na Vida da gente II...Tem de ser"

"Escreve. Escreve sempre que precisares." Disse-lhe ele sem saber. Sem saber a importância das palavras. Das palavras escritas. Por ela. Para ela. E das dele próprio.

E como ela precisava escrever... Esse acto banal e simples e tão necessário como a sede e a fome têm de ser saciadas. E ela, acrescentou uns minutos à vida, sentou-se e...escreveu por fim.

Quando o palco é a Vida...

A Música, eterna e fiel amiga, presença constante na vida dela. A Música e as palavras a afagarem-lhe o rosto de pedra, sem lágrimas jorradas e sem sentimento visível. Emoção escondida porque assim tem de ser. A Música, a acariciar-lhe o rosto e a abraçá-la por inteiro. E a melodia e a voz do artista, e as palavras, soltas no ar a caírem sobre ela como um manto. Manto fiel às formas dela, exacto e perfeito, a dar voz à alma silenciada à força, amordaçada e ferida. A Música e as palavras, a lamberem feridas e a ajudá-la a levantar, porque assim tem de ser, porque o palco é a vida e assim tem de ser. Porque o palco é a vida e tem mesmo de ser...

Hoje, com Lena D'Água,  "Minutos", Album "Desalmadamente"





"Faltam dois minutos para entrar
A cortina vai levantar
Se há gente ali não sei
Sei que nunca esperei ninguém
Sei que nunca esperei ninguém
E o espelho já não sorri
Oiço a voz que há dentro de mim
Tem de ser, tem de ser, tem de ser
Tem mesmo de ser
Falta um minuto para entrar
A banda pronta p'ra tocar
E eu só no meu camarim
Não sei o que esperam de mim
Não sei o que esperam de mim
Se é quem sou ou quem nunca fui
Se é a voz que não me possui
Tem de ser, tem de ser, tem de ser
Tem mesmo de ser
Já passou a hora para entrar
Ao longe oiço alguém chamar
A banda já desespera
Eu não sei bem o que me espera
Eu não sei bem o que me espera
Só a lua é que dá por mim
E na rua canto por fim
Tem de ser, tem de ser, tem de ser
Tem mesmo de ser"

Lena D'Água,  "Minutos", Album "Desalmadamente"

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

Alma UHF

Alma, UHF. Lê-se, como se quer. Como se quer e como se é capaz. Como a alma nos permite, com as portas abertas que tem e que se quer abertas. Lê-se com os olhos da cara, com a frieza da razão ou com o coração.Ou por inteiro, com o âmago do nosso ser. Com Alma UHF. 

Academia Almadense, 7 de Dezembro de 2019, 41 anos de UHF

Em 50 anos de Vida, a minha, 41 de UHF, o tempo de carreira UHF, a mesma admiração e o mesmo encantamento, agora multiplicado pela maturidade que a vida dá, pela passagem dos anos. Dos anos e dos danos que a vida nos faz. É uma vida, é uma constante na vida, namoro eterno, não sem arrufos e afastamentos, mas também e sempre com novas aproximações, relação fortalecida em cada novo reencontro, na certeza de uma relação eterna, de notas soltas intrínsecas ao meu ser, a moldá-lo ao ponto de se fundir nele, fazer parte dele. Melodias várias a embalar a minha vida. Um toque de amor, de pureza, admiração e deslumbramento próprio de uma miúda de 14 anos, a replicar nos anos que se seguiram, até hoje, com outra maturidade, outra visão, mas sem dúvida o mesmo encanto e prazer, acrescido de uma admiração adulta, séria e solidificada.

Portas que mantenho abertas, à Vida, ao Amor, à Amizade, ao Prazer e à Música em que me deixo embalar, que me faz pensar, agir e libertar!

Foi assim a 7 de Dezembro em Almada. Um jantar de amigos, mais de 50, a encherem o restaurante, pouco em comum a não ser esta paixão, e com ela arrastadas tantas outras coisas, muitas delas por descobrir.

E o concerto foi bestial. Onde não foi possível ficar sentada na cadeira. Onde tivemos de saltar e pular e cantar, e libertar-nos de dores (das mais variadas que se possam imaginar) e dos medos e dos fardos, a acompanhar cada tema com a força de uma nação inteira. Saí de lá rouca de tanto cantar a plenos plumões, mas feliz, tão feliz como nunca. Claro que ter a companhia da minha miúda foi peça chave no jogo. No jogo desta noite, a escrever páginas felizes na enciclopédia da Vida. A única preocupação era aguentar de pé e garantir que a perna se aguentasse sem ir abaixo. E aguentou. A aguardar o bisturi e novos medos e batalhas da vida, a "perna de pau" aguentou-se como devia, a permitir-me viver o momento como único que é! De joelhos no chão à beira do palco, "olhos fixos à procura do profeta da rebeldia", hipnose perfeita a tentar guardar imagens para além da memória. E o baterista é sempre tão difícil de guardar na foto do ctelemóvel barato... Desculpa lá Ivan...
A noite foi bestial, soube-me pela vida, e é disto que a vida também é feita, energia e alegria, a carregar baterias para o resto dos dias...

Obrigada UHF!



António Manuel Ribeiro, a mostrar-se como é, no jantar dos fãs, por Elisabete Wahnon, para ver aqui:

https://www.facebook.com/elisabetewahnon/videos/2743625435688427/




O jantar:




Os próximo concertos:


Até já