Maria Sem Frio Nem Casa

Atletismo - Diário de uma mulher que pensava que amava a corrida

Domingo, 25 de Maio de 2008

Grande Vaca!

Se vem à procura de corridas e resultados do fim-de-semana, pode e deve sair de imediato. Ainda e outra vez, neste fim-de-semana não corri.

Vaca é uma palavra que pode ter vários significados e outras tantas interpretações.

Palavra que pode significar o simples e belo animal, como ter um significado bastante depreciativo e ofensivo. Já boi tem um significado bem diferente, muito para além do sexo do animal.

Bem, mas de veterinária e de semântica tenho conhecimentos nulos, e o que quero transmitir é que eu hoje (assim como em tantas situações na minha vida) tive uma grande vaca! O que neste caso, significa beneficiar de uma sorte tremenda, passo a clarificar para o caso de não conhecerem a expressão.

Pela segunda vez num mês oferecem-me bilhetes para o Teatro (ganhos por um amigo em passatempos de rádio; já isso é uma sorte, ele ganha e não os usa - alguns - e dá-mos). E se desta vez tinha 2 bilhetes oferecidos e nós éramos 3, não é que na bilheteira, à minha demanda da compra de um, questionando o preço ansiosa como se disso dependesse a sua compra, o jovem “fecha os olhos” e um terceiro bilhete-convite me é ofertado ali na bilheteira? Fantástico não é?

Pois fantástico é o La Féria que nos traz O Principezinho numa representação brilhante!
La Féria convida-nos dirigindo-se às crianças:
“Caro Amigo:
Li "O Principezinho" quando tinha a tua idade e nunca mais esqueci. Ele ensinou-me a ver com os olhos do coração. Sempre desejei convidar-te para vires ao meu Teatro, ao meu planeta, para te apresentar o meu Principezinho. Tenho a certeza que nunca o irás esquecer e que ele te irá acompanhar durante toda a viagem maravilhosa da tua vida."
Filipe La Féria

E em cima do palco da vida estão os Homens e os seus mundinhos, e cá fora na bilheteira ainda há um principezinho que viu com os olhos do coração e no meu olhar percebeu a falta que o dinheiro me faria, ou que a sua cobrança muito provavelmente me faria ficar nas escadas da entrada aguardando o final enquanto as crianças assistiam à peça. Agradeci quase comovida.

Obrigada Principezinho de olhos bonitos e de coração atento.


“Deixa-te de lérias! O que tu tiveste foi uma grande vaca!”
Pois... talvez, mas assim é mais bonito. Deixa-me acreditar que ainda há quem veja com os olhos do coração. Porque há. Eu sei que há...

Sábado, 24 de Maio de 2008

Sopa de Feijão

Apetecia-me uma costeleta de vitela ou uma posta de salmão grelhada no carvão. Ou corvina cozida com bróculos, e azeite com fartura para temperar. Ou ainda bacalhau do bom, do que se desfaz em suculentas lascas onde o azeite escorre de forma divinal… Apetecia-me…
O feijão é um alimento relativamente barato e se tivermos em conta o seu valor nutritivo e o seu custo, depressa concluímos que o feijão é daqueles alimentos que com pouco dinheiro conseguimos alimentarmo-nos bem, quer nutricionalmente falando, quer em termos de saciedade. O feijão é uma boa fonte de proteínas, hidratos de carbono, fibras e micronutrientes.

Por isso, uma panela de feijão cozido passado, cebola, couve lombarda e um fio de azeite tem sido o meu cardápio repetido nos últimos dias. Enche, alimenta e sacia de forma eficaz.

O seu consumo de forma regular está mesmo associado a uma diminuição no desenvolvimento de doenças como o diabetes, obesidade e doenças cardiovasculares.
Não me chateio mesmo nada comer sempre o mesmo durante um período. Os únicos inconvenientes mesmo são… as flatulências causadas pelo dito… e o terror de que o mito do homem que comia abundantemente feijão e que vivia num quarto pequeno e pouco arejado morreu intoxicado pela sua própria flatulência, seja verdade…

Quinta-feira, 22 de Maio de 2008

Amor


Faz já muito tempo que não se encontrava com ela. Desde os Trilhos de Mogadouro, no dia 29 de Março precisamente.

E hoje voltaram a encontrar-se. Sentaram-se frente a frente proporcionando intencionalmente um contacto visual, só evitado com um propositado virar de pescoço que não aconteceu. Olharam-se. Tanto para dizer e o silêncio não se quebrava.

Por fim, ela acusou:

- Porque me excluíste da tua vida? Já não me queres? Já não me amas?

- Olha, não vejas as coisas assim. Eu continuo a gostar de ti.

- Gostar!? Gostar não é amar! Perguntei-te se ainda me amavas? Ainda me amas? Desejas estar comigo? Dentro de mim? Queres-me contigo para partilhar comigo tantas emoções, alegrias e até dores?

- Olha, eu gosto de ti, mas amar, amar… receio que o amor findou, querida.

Os olhos dela primeiro encheram-se de lágrimas para logo de seguida, rolaram pelo rosto abaixo em grossos fios de água. Sem se dar por vencida, replicou:

- Mas eu já te fiz feliz! Sabes que te poderei ainda dar muita felicidade. Deixa-me ficar contigo! Deixa-me amar-te! Eu posso amar-te e tenho tanto para te dar. Por favor, não me excluas da tua vida. Eu sou a tua vida. Eu era a tua vida, recordas-te? Dos momentos felizes que vivemos em conjunto? Ao sol, à chuva, uma partilha e cumplicidade que dificilmente outro alguém te poderá dar. Uma entrega total e única! Não me abandones! Não me tires da tua vida… por favor – suplicou ela entre soluços e mais lágrimas.

Passou-lhe a mão pelo rosto, limpando-lhe as lágrimas. Custava-lhe ter de dizer o que se seguiu:

- Querida… Parte-se-me o coração dizer-te o que sinto, mas sinto, sabes? E eu vivo com base no que sinto. E hoje, admito que já não és o meu amor, já não te amo, já não és a minha vida, não me preenches nem completas, percebes? Há mais estímulos, outros amores que me chamam, que me dão também alegrias, maiores alegrias e com quem partilho pedaços da minha vida. É errado dedicarmo-nos a um único amor… Tens de compreender.

Ela baixou os olhos, tremeu o queixo e gemeu baixinho, deixando cair mais lágrimas a fio.

Oh dor!

- Pára com isso. Eu não te abandono, mas as coisas já não são como antes. As alegrias que vivemos em conjunto, as dores suportadas, as metas atingidas, já não me trazem o extâse de antes, compreendes ? Os orgasmos atingidos já não são o que eram, nem para mim nem para ti. São vulgares, vazios, não sentes isso? Há um vazio, como se já não me chegasses nem me satisfizesses. Já não te proporciono o que antes te proporcionei também…

- Mas eu amo-te! Pelo menos fica comigo, assim, nem que seja só de vez em quando. Deixa-me fazer parte da tua vida. – os olhos dela tinham já parado de brotar lágrimas mas mostravam uma tristeza sem fim, quase desesperada. – Eu já fui a tua vida, lembras-te? A tua amiga, única, íntima, a única em quem podias confiar… Para quem te despias e tinhas a coragem de ser tu? Que fiz eu?

- Não, não fizeste nada – as palavras estavam a custar a sair-lhe mas teriam de ser ditas. Nada pior que uma mentira, uma mentira doce. É sempre preferível uma verdade que doa que uma doce mentira que engana. – Olha, tu hoje já não és a minha vida! O amor acabou, percebes? Continuo a gostar de ti, mas já não há amor… Olha o título deste blog aí em cima, mudou! Tudo muda!

Ela volta a chorar baixinho de olhos baixos fixando o tampo da mesa. E volta a suplicar desesperada:

- Deixa-me ser tua amante. Nada te exijo. Deixa-me só estar contigo nem que seja apenas uns momentos da tua vida. Prometo que nada te exijo, não te roubarei tempo junto dos que amas. Já não exijo ser a tua vida, mas não me excluas dela completamente. Eu sei e tu também sabes que ainda te posso fazer feliz, por momentos que seja, tu precisas de mim, eu amo-te, estou aqui para ti, sempre, aguardando-te … Por favor amor… - novos soluços.

Pegou-lhe no rosto molhado com ambas as mãos e levantou-o o suficiente para lhe fixar os olhos de novo:

- Escuta: Não te abandonarei por completo, mas já não sei se preciso de ti, sabes? O mundo é tão vasto, e eu tenho estado fechada no teu mundinho. E há um mundo para descobrir! Tu já não és a minha vida, estás apenas numa parcela dela, compreendes? Chega assim?

- Sim, obrigada! E vais ver que ainda te vou fazer voltar a amares-me, como dantes, lembras-te? Obrigada por mais esta oportunidade que me dás. – Os olhos dela voltam a sorrir, cheios de esperança.

Ainda com o rosto dela entre as mãos fortes, deu-lhe um intenso, longo e doce beijo na boca, e amou-a uma vez mais. Depois, já de pé, por trás dela, acariciou-lhe sem malícia, o ventre, os peitos e o rosto que rodou suavemente para lhe beijar mais uma vez os lábios carnudos. Depois, soltou-a devagar, sem certezas do que lhe tinha acabado de dizer. Amor… quem o sabe definir? Quem tem sempre certezas?

- Agora tenho de ir, querida. Ainda não é hoje que vou contigo…

Afastou-se e olhando para trás, viu-a triste, ansiosa, aguardando no entanto, à sua espera, e enquanto se ia afastanto, desaparecendo com o vento, fez a promessa para si mesma que não a ia abandonar por completo. Já tinha esboçado uns planos para fazerem em conjunto, como dantes. Seriam suficientes para fazer renascer o Amor ? O Amor, esse, que opera milagres todos os dias…

Domingo, 18 de Maio de 2008

Relações

Chovia torrencialmente em Almada. No Hospital Garcia de Orta, dormem as mães e os recém-nascidos, e de uma ou outra sala mais longe chega o choro de um bebé que acusa desconforto.

Por trás das vidraças, olho Almada e depois o meu bebé adormecido na caminha ao lado da minha. Há um sossego imenso e uma paz de um conforto raro. Não sei ainda que o hospital vai ser a nossa casa por cinco longos dias, e estou feliz, como o estive os exactos oito meses que durou a gravidez. Volto para a cama dorida, cansada e ferida e olho-a. Linda, como o são certamente todos os bebés para as suas mães. Choraminga. Pego nela e chego-lhe o peito que açambarca sofregamente. Tinha acabado de nascer a relação mais duradoura, gratificante, intensa e genuína da minha vida. Como só as relações mãe-filho podem ser.

Faz hoje precisamente onze anos.

......./.......


Passa-me ao lado. Disfarçada e distante. Fria. Como se eu a tivesse magoado e ela se sentisse agora orgulhosa demais para me voltar a dar a mão. Perto ou longe de casa, de inscrição cara ou gratuita, de distância curta ou longa, na estrada ou na montanha, ela passa por mim sem me dizer nada. Há uma mágoa. De parte a parte. Altiva, ignora-me e passa. Como passam os dias, e com eles nós e a vida. Sem me dizer nada...

Para onde vais Corrida? Assim apressada sem tempo para um cumprimento?

Terça-feira, 13 de Maio de 2008

Por onde andas Maria ?


Em resposta a um simples mail, sou presenteada com estas palavras:


"Olá Ana


Continuas com uma escrita como se estivéssemos os dois sentados numa esplanada qualquer à beira do Tejo a falar das nossas vidas como dois bons amigos, ou desconhecidos que a causalidade e a urgência da palavra uniu por instantes.


Oiço-te como se estivesses a poucos metros de distância e adivinho-te as expressões e gestos nos quais quase denuncias as emoções que sempre receias revelar por pavor da ruína das convicções que te protegem. É com esta introdução quase “literária” que enalteço a tua alma de escritora que julgo devias continuar a estimular e a desenvolver. Sugiro-te que não desistas daquilo que melhor te faz entender aquilo que és: a escrita!"


do meu amigo ZEN



Levo à boca o último trago de café, repouso a chávena na mesa e recosto-me na cadeira olhando o rio e a outra margem. Apreciei especialmente este café. Quente, negro e forte. Reconforta-me. Fazia já bastante tempo que não passava assim, minutos que fossem, parecendo horas, olhando o rio, as gaivotas, as pessoas e o outro lado. Lisboa ou Almada, que importa? A minha casa é uma jangada e o rio o meu quintal que entra pelo mar e me leva até onde eu quiser.

Amigos que se chegam e querem saber dela, se está de boa saúde, se já faleceu e não avisou, se tem corrido, se vai correr, se quer correr. Um sem número de questões provocadas pela ausência dela, ou por simples circunstâncias. Mas ela tem estado sempre ali, a olhar o Tejo a correr.

Pois, desiludam-se os que a acham maçuda, de estilo nauseabundo, se pensaram que este blog se ficaria naquela meta volante e mais obscenidades não teriam oportunidade de ser lidas, que cada vez que por engano carregarem no link (só poderá ser por engano) ali ela continuará! A correr. A deixar sair palavras dela, escorregando-lhe pelas mãos e na ponta dos dedos formando frases. Repetidamente. Até ao infinito. Reinventando cada passo como se fosse novo, pois de facto é. Com as pernas, com os olhos ou tão só com o coração, ela continuará a correr. Aqui... e ali.

Até muito breve

nota: obrigada ZEN por enriqueceres este espaço