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terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

"Obrigado Senhor"

Continuando a história do meu pai como num livro que se lê, pouco depois da operação e do problema descoberto no coração que o impedia para sempre de correr, escrevi o que se segue:

"Obrigado Senhor!"

Sou um velho a quem, não os anos, mas sim a doença, tirou o prazer de correr.

Mas agradeço Senhor, por nesta minha vida me teres dado o dom de me saber reconhecer e encontrar quando me foi possível correr.

A minha vida foi sempre uma nulidade. Tinha a mulher e os filhos. Ganhava para eles, mas era efectivamente um pai e marido ausente. Abafado pela autoridade feminina da casa, isolei-me no meu trabalho, na Columbofilia, e também um pouco no álcool, confesso.

Os filhos cresceram, e eu estive sempre um pouco aparte.

Reformo-me, e com a minha filha, parece que agora, eu velho, ela mulher, nos encontramos, e dou, agora eu, os meus primeiros passos, na corrida. No pós-reforma, a corrida tornou-se então a minha vida! E fui feliz Senhor, nesses breves anos em que tive a dádiva de poder correr, e ouvir o bater do meu coração e os meus passos no chão, e encharcado em suor alcançar mais uma meta em cada prova em que participava!

E senti-me vivo, Senhor! Ah, Senhor, como fui feliz nessa breve passagem da minha vida (pouco mais de dois anos). Sentir o ar na cara e a minha alma elevar-se como nunca se elevara na vida! Tentar, arriscar, ousar, eram palavras que eu nunca usava e que com a corrida, foram todas postas em prática e superadas! Tanto que a corrida me deu!

Depois de me mostrares essa luz na vida, voltas a apagá-la, Senhor! Com esta doença é-me vedada a corrida e só me é permitido pouco mais do que caminhar lentamente.

Agora, vou ver a minha filha correr, e trémulo, seguro a mão da minha netinha e tomo conta dela para a mãe poder correr! Afinal, ainda sou útil. E alegro-me com as suas conquistas e assim vivo ainda um pouco a corrida, mas dentro de mim há um imensa tristeza apenas compreensível para quem ama a corrida. Todos os outros me chamam de louco, velho tonto!

Mas Senhor, quando por fim descansar no meu caixão, estarei feliz, porque vou olhar para trás e ver que nesta vida me foi dada a alegria de poder correr. Como aquelas coisas em que nem que fosse apenas uma vez na vida, tinha valido a pena! E valeu a pena! Obrigado Senhor."


Ana Pereira, 2003
Hoje... hoje ele é o Melro que conhecem! E está aí para as curvas! Não a correr, mas a fazer aquilo que pode: a caminhar, a tirar fotos, a conversar, a rir, a conviver e a viver momentos felizes. Porque enquanto há vida, há sempre alguma coisa para fazer e alguma felicidade para viver. Alguns desses momentos felizes:

Passeio Avós e Netos, com a neta, Lisboa, Março 2002:
Com a neta, em Março 2004 - véspera dos "30 Km Olivença - Elvas":
Grande Prémio Sálvio Nora, Serra da Freita, Verão 2006:
Corrida do Dia do Pai, Porto, 2007: Meia Maratona de Pombal, Verão 2007:
Manteigas -Penhas Douradas, Março 2008:
Caminhada - Maratona do Porto, Outubro 2008:
Grande Prémio do Atlântico, Costa da Caparica, Fevereiro 2009:


E eu? Eu hoje... não corri... outra vez... mas não pensem nem por sombras que isso signifique que os 20 Km de Cascais estão em risco de não ter a nossa digníssima presença: eu nos 20 Km e o meu pai na Rapidinha!

E haja pois muitos dias, e muitos anos, e muita saúde e muitas corridas e muita vida... para viver!
Até... amanhã... ou depois, querido diário

11 comentários:

Carlos Lopes disse...

encontramos em Cascais

joaquim adelino disse...

Olá amiga Ana. Desculpe se isto ficar longo.
Li sempre com renovado interesse o que escreveu sobre o seu pai e o seu ambiente familiar. Devo dizer-lhe o quanto aprecio a sua paixão por ele e o elo de grande cumplicidade que também vos une. Tenho a certeza que aquilo que escreveu era o sentimento dele, felizmente que ele conseguiu recuperar para a vida, embora não podendo fazer tudo aquilo que gostava. Diga para ele que é muito bom aquilo que ainda anda a fazer, nomeadamente as caminhadas e poder estar sempre junto de si e da neta.
Permita que lhe diga que à precisamente um ano o meu médico do coração implantou-me um Pacemaker porque o meu coração apenas batia 24 vezes por minuto quando estava em repouso. Pensei como o seu pai que as corridas iam acabar e tive também de reagir. Eu felizmente posso continuar a correr e estarei tão feliz por poder correr como o seu pai deverá estar por apenas poder caminhar. Para ele toda a minha solidariedade e amizade.
Envio-lhe um beijinho e por favor não se esqueça dos treinos.

Fernando Andrade. disse...

Olá, Ana.
Lembro-me de já ter lido esta história, aliás, foi uma das primeiras em que tive o privilégio de conhecer o seu talento para a escrita.
Tocante e exemplar, esta relação com o seu pai. Felicito a ambos pela partilha do que há de bom na vida.
Lembrei-me de:

"O Melro, eu conheci-o..."
do Guerra Junqueiro

é um bocadinho longo, mas vale a pena:

http://filipe.pedrosodelima.googlepages.com/OMELRO.pdf

Beijinho
FA

Anónimo disse...

Anuska

Sabes que nutro pela Pipas um grande carinho, pelo seu ar sereno, tranquilo, pelo sorriso sempre presente...

É bom saber como voçês estão unidos, o carinho que sentes por ele é tocante...

Faço votos que ele te acompanhe por muitos anos com o mesmo sorriso
e a mesma forma de estar

Para ele (principalmente ) mas também para ti um grande beijinho e parabéns por esse sentimento

Teresa

Anónimo disse...

O Pipas tem uma carinha que me enternece. Sempre, desde que o conheci. Já não tenho pai e por isso estas caras lindas me deixam a chorar (por dentro). Tenho saudades dele. Enfim......

Foi só uma achega da IP. ehehehhe

Beijokas ao Pipas da IP.

BritoRunner disse...

Olá Ana
Acompanhei a crónica sobre o "Melro" e senti uma tristeza por o seu pai não poder fazer uma das coisas que gosta, neste caso correr.
Eu durante 23 anos fiz atletismo de competição, aos 37 anos foi-me fechada a porta da corrida por ordem médica, foi uma das piores notícias que me poderiam dar. Iniciei um tratamento algo agressivo que me debilitou bastante, mas a vontade de voltar a correr essa continua.

Embora a vida não acabe e seja necessário criar novos objectivos a angustia de não poder correr como antigamente essa bate no peito.

Um abraço grande a ambos Ana e "Melro" (comoeu o compreendo)

JCBrito

Anónimo disse...

Apesar de vir aqui fazer imensas visitas, porque aprecio sobremaneira os temas sobre que escreves e, principalmente, a forma como o escreves, tenho deixado muito poucos comentários.

Não queria contudo, desta vez, deixar passar esta oportunidade para te dizer o quanto apreciei todas os posts publicados sobre o teu pai e que denotam uma ligação afectiva e sentimental que muito me sensibilizou.

FORÇA para os treinos, corridas, caminhadas ou seja lá o que for... enquanto conseguirmos fazê-lo com prazer - a vida é para ser VIVIDA...

Um abraço.

Manuel Proença

Paulo Sérgio de Araújo disse...

parabéns pelos seus tempos em provas divulgados no seu blog!!! Bons treinos e boas provas...Visite meu blog http://maratona160min.blogspot.com/

abraços

Ana disse...

Ana, emocionante relato. Muito bonito mesmo. Como voce mesma disse, essas coisas tem que ser feitas ainda em vida, quando temos a pessoa a nosso lado e podemos abraça-la, sentir-la, beijá-la e homenagea-la como voce está fazendo.
Eu não tenho mais meu papai aqui comigo, mas sempre terei na memoria e no coração momentos impares. Sempre me lembrarei da época que competia no ciclismo e quando chegava em casa ele me pedia, orgulhoso, para ver a medalha/trofeu ganho.
Agora, que me encanto com a corrida, sei que ele está sempre se orgulhando de cada km que venço, mesmo sem vê-lo, sei que estás comigo.

bjos e boa sorte nos 20km.

Anónimo disse...

Maria
hoje as palavras são dirigidas à Ana e ao Melro, formam uma das "duplas" mais bonitas que vamos encontando nas corridas.
Domingo conto ver-vos,até lá,
António (e meninas)

PS)Beijinhos para a Mafalda

Maria Sem Frio Nem Casa disse...

Agradeço a todos os que aqui se manifestaram.

Fiquei feliz por esta minha verdadeira homenagem ao meu pai, ter feito algumas pessoas partilharem um pouco do seu íntimo, dos seus problemas e das suas perdas. Alguns surpreenderam-me verdadeiramente. É que de facto, todos temos os nossos problemas, e quando nos vemos e sorrimos e saudamos os outros, ninguém sabe o que vai por trás desse olhar bonito, desse sorriso aparentemente feliz. Porque a vida é mesmo assim, não é cor-de-rosa para ninguém. Há é que tentar viver o melhor possível, ou pelo menos, o menos mal possível.

A todos vós, que tenham muitos anos de vida e de saúde para me continuarem a ver, a mim e ao meu pai, por aí, a correr, andar e sorrir! Sorrir sempre!Felizes nós, felizes vós!

Beijinhos e abraços

Ana Pereira