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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Correr e escrever

Saiu do escritório e foi para casa a correr, e a correr apanhou a roupa e estendeu outra que não coubera no estendal quando estendera a primeira. Despiu-se, vestiu-se, calçou os ténis e preparou uma mochila com uma toalha usada, uma garrafa de água com sumo de limão que acabara de espremer e os documentos que lhe permitem conduzir legalmente.


Passam das 20:00Hrs e fazem 10ºC. Correu exactamente 51 minutos num ritmo calmo mas teve a sensação de se sentir um pouco de nada menos pesada do que nas últimas vezes que correu.


Passou pelo restaurante onde já fora feliz em tempos. Pensou nele. E sentiu saudades. Muitas saudades... E queria acabar o treino, tomar um duche, vestir uma roupa feminina que a tornaria elegante, perfumar-se e maquilhar-se levemente e sentar-se com ele de novo naquele restaurante a comer um bom arroz de tamboril e um melhor vinho branco fresco. E queria falar e rir e conversar. Corridas, planos, treinos, histórias engraçadas e outras sérias. O passado, o presente, o futuro, a misturarem-se à mesa atirando emoções de um para outro, como um feixe de luz que os faz sorrir, rir, e transbordar de alegria. A corrida, sempre a corrida a conduzir-lhes a vida, a acompanhá-los nas suas vidas. A ligá-los inicialmente para depois descobrirem que tinham muito mais coisas a partilhar. Com carinho, amizade, respeito, admiração, prazer também. Queria soltar gargalhadas e ver o brilho dos olhos dele. Queria despedir-se dele numa doce embriaguez de amizade e ternura, com um beijo demorado e carinhoso, ainda com os lábios frios do vinho a aquecerem-se na face dele macia, a roçarem os lábios dele involuntária, inocente e inconsequentemente, quando os seus rostos se afastam, e mandar outro para a esposa dele que só estava ausente pela circunstância da distância, e a quem ela muito admira e respeita, mais que ele próprio, mas isso é outra história.


Queria…

Mas acabou o treino, alongou a correr, e a correr foi buscar a filha ao clube. São perto de dez da noite quando mete a chave à porta. Manda a miúda para o banho, atira uns feijões verdes, umas batatas, dois ovos e uma posta de bacalhau para dentro de um tacho onde a água já ferve, e vai secar o cabelo à miúda que entretanto acabara o banho.


Tira a comida e comem juntas. Hora de lavar os dentes, e preparar as mochilas para o dia seguinte, já de rotina retomada, felizmente a miúda está bem melhor hoje.


É a vez dela tomar banho. Arruma a cozinha. E caminham os ponteiros para a meia noite quando se senta em frente ao computador a fazer uma coisa de que ela gosta verdadeiramente: alimentar o seu diário, com letras e palavras e estórias, atirando-as ao acaso, juntando-as depois, ordenando-as em tentativas tantas vezes inglórias, de as fazer fazer sentido, para que este se mantenha vivo, e através dele, viva ela também. Correr e escrever é também viver. E ela já não vive sem nenhum dos dois.

Até amanhã querido diário

Tua
Ana

6 comentários:

Anónimo disse...

Olá Ana
Talvez existam poucas formas de viver de forma tão plena como a correr e a escrever.
Bonito post.
Beijinho Ana,
AB - Tartatuga

Anónimo disse...

Olá Ana
Bonitas palavras.
Continuação de boas corridas e venham mais palavras.
Bom fim de semana.
Com admiração,
António

joaquim adelino disse...

A corrida serve para isso mesmo, limpar, só que há coisas que saem e há outras que não queremos nunca que saiam e são essas coisas ainda fervelhantes, boas ou más, que por vezes nos fazem companhia e nos ajudam, sem nos aperceber-mos, no cumprimento do nosso ritual diário, noemeadamente os treinos, e quando nos apercebemos o que estamos a fazer, já está. Daí pensar também que o treino até custou menos, pois é ...
Um abraço.

joaquim adelino disse...

Obrigado pelo bonito comentário que deixou no meu blog, foi muita simpatia sua.
Um abraço.

JP disse...

Se escrever assim depois de 51 minutos de treino, deveria treinar 3 horas por dia, pelo menos...

Fernando P disse...

Como diz o outro "gostava de ter escrito isso".
Parabéns pelas corridas e sobretudo pela escrita. Voltarei para ler os outros posts com mais cuidado.
Um abraço,
Fernando