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sábado, 12 de setembro de 2026

50a Festa do Avante e a 37a Corrida da Festa

Pela  quinquagésima vez, realizou-se a Festa do Avante. Acontece assim, todos os anos, sensivelmente desde a mesma altura em que eu comecei a Correr. Há coisa de cinquenta anos, portanto. Não é por acaso. E o 25 de Abril de 1974 ali tão perto. Integrada na Festa, que decorreu nos dias 4, 5 e 6 de Setembro de 2026, realizou-se também este ano a 37a edição da Corrida da Festa. Corrida organizada pela Comissão de Deporto da Festa do Avante e onde tenho marcado presença nos anos mais recentes.

De inscrição a um custo de EUR 6,00, oferecem-te um percurso belíssimo de 10 Km, em que corres ao longo da Baía do Seixal depois de uma curta incursão no recinto da Festa, agora adormecida àquela hora da manhã de domingo. Percurso bem marcado e seguro, entrega de dorsais, partida e chegada, água pelo caminho, tudo bem organizado, prova cronometrada e oferta de Entrada na Festa gratuita para todos os chegados à Meta. Em simultâneo com a Corrida decorre também uma Caminhada.

Por mim, não é preciso mais. Está bem assim, assim continuem e eu para o ano volto.

A Corrida e a Festa

Da Corrida

Km 7

Há umas cortinas brancas de renda a cobrir as vidraças da janela, em crochet minuciosamente elaborado por mãos hoje já sem vida, a imagem de dois pavões, de frente um para o outro, emerge de entre o entrançado e entrelaçado das linhas brancas, e remete-me à minha infância. Chamas o meu nome. Não há quaisquer dúvidas ou equívocos. És tu. Chamas-me quando o meu ritmo e esforço em cada passo de Corrida no asfalto se torna difícil de manter. A tua voz clara e límpida "Ana!". E aí vejo-te! Claramente, vejo-te e mais claramente ainda, sinto-te! Estás tão bem, Mãe! Sorris, como poucas vezes te vi sorrir. Uma serenidade que eu gostaria de ter nos dias que correm. Uma serenidade que gostaria de ter agora, neste preciso momento em que um nó na garganta me ameaça asfixiar. Então, de sorriso nos lábios e brilho no olhar, tu emprestas-ma, a Serenidade, e eu sigo, agora também de sorriso na alma, um passo a seguir ao outro, serena.

Km 0

Os habituais encontros e reencontros com velhos e novos amigos. Um sabor especial emprestado às Corridas. Sempre tão bom rever companheiros de Corrida e outros de muitas mais vivências e histórias partilhadas, próprias de quem vive e respira a Corrida há décadas. Procuro o meu amigo Fernando, enquanto ainda faço o aquecimento. Tínhamos combinado fazer a prova juntos. A seis o quilómetro! Imagine-se! É ver os resultados destes dois no final! Depois do café, nunca mais nos vimos e parto do fim de pelotão e dele nem rasto durante a Corrida toda. 

Km 5 a 6

À medida que avanço na Corrida, vou avistando alguns amigos, reconhecidos primeiramente pela forma de Correr, depois apanho-os e trocámos duas palavras. Estão piores que eu e eu sigo. 

Km 8 

Sei que vou aguentar! Mantenho! Já contornei a Baía e levo comigo o Amor, o próprio que alimento a custo todos os dias, e o das minhas pessoas, poderoso, forte e sólido, levo comigo também a Amizade e o bem-querer de tantos amigos. E são muitos. Presentes e ausentes. E tenho força, força para manter o ritmo e chegar até à meta sem quebras.

Km 10

Corto a meta,  levanto os braços e sou feliz nesse instante. Instante feliz, talvez registado, talvez não. Cá dentro, está gravado. Recebo água e uma Entrada para a Festa que já tem destinatário! Mais encontros com amigos e despedidas, que eu quero é ir para a Festa.

Vende-se cerveja e água e café e eu quero é ir para a Festa.

Do 0 ao 10 Km - Os fotógrafos (voluntários e outros)

A prova teve uma boa cobertura fotográfica. Seres mais ou menos altruístas na sua maioria, completos estranhos atrás de uma câmera, fazem-nos sorrir como se sorrir fosse uma constante da nossa vida e o instante registado não fosse mais que a prova viva do nosso sorriso permanente. Retiram prazer do que fazem, apesar do cansaço e do esforço, e registam instantes, que ficarão perpetuados em imagens, para além da memória de cada um. Tornam especial o momento, os fotógrafos, tornam o objecto fotografado também ele especial, e ali no meio de quase um milhar de participantes de uma Corrida, todos esses seres fotografados são únicos e verdadeiramente especiais nesse preciso instante em que a máquina dispara. Por esses instantes vividos, por essa emoção registada e bem consciente deste falso e fantasioso mas ainda assim delicioso sentimento de excepcionalidade a roçar o misticismo, registado numa imagem captada por um estranho num milésimo de segundo, agradeço de coração. 

A minha prova registada pelo Strava, pode ser vista aqui

Classificações da 37a Corrida do Avente, podem ser vistas aqui

Fotos da Prova (há-de haver mais com certeza, mas ainda não os descobri)

Por Luís Duarte Clara, aqui

Pelo Homem da Maratona, embora um pouco dispersas, encontra-se aqui

Por Stella Clikartephtos, aqui


Da Festa do Avante, 50a edição

Este ano, pela 1ª vez, a usufriur da Festa por 3 dias que souberam a pouco. 

Destaques:

6ª feira: Ex-Votos 

Sábado: Ney Matogrosso

Domingo: Catarina Deslandes

3 concertos de excelência, cada um à sua maneira a tocarem a alma da gente

Muito mais vivido, mas muito mais ainda ficou por viver, ver, aprender e usufruir.

Com a melhor companhia do mundo, as minhas pessoas, vivi a Festa com a intensidade ao rubro. Encantada, também admirada e praticamente deslumbrada com todo o ambiente que se respira. Vários Concertos, Música e Cultura, Desporto, Palestras, Gastronomia, uma convivência pacífica entre várias gerações e regiões, não só de Portugal como do Mundo. Tantos lugares distantes, tantas diferenças e depois o que prevalece é o que nos une, por 3 dias que seja: a camaradagem, a partilha e troca de experiências, alguns pontos ideológicos também ...Tanto para ver, tanto para aprender, tanto para usufruir...

Haja saúde e para o ano há mais!












Fotos da Festa, na página de Facebook da Festa, aqui


terça-feira, 5 de maio de 2026

12ª Corrida Rota do Queijo

  "De Carrossel" - UHF



"Ai, eu quero andar no carrocel
No carrocel da multidão,
Ai, eu quero voltar, ai, eu quero voltar"
UHF, in "De Carrossel"

Mas o que isto tem a ver com a Corrida Rota do Queijo, que decorreu pela 12ª vez em Lousa a 3 de Maio de 2026, prova integrada no 41º Troféu "Corrida das Colectividades do Concelho de Loures" e onde eu vou sempre que posso?  E o que o Carrossel tem a ver com a prova? E a prova com a vida? E o carrossel com a Vida? Tem nada e tem tudo. Tem a ver como tu sentes. Tu que corres, tu que sentes! E nada é certo ou errado. É apenas sentido. Sentido e Corrido. Uma Corrida sobe e desce. Um carrossel de asfalto e terra, uma passagem pela fábrica "Montiqueijo" para depois desceres para a meta e receberes o queijo e o pão, como prémio simbólico por teres ido "buscá-lo" à fábrica, com os músculos a arder, a respiração ofegante e o grilo falante a discutir com a tua alma. Carrossel da vida a fazer-nos subir e descer vezes sem conta. Rodopiando...Tão depressa lá em cima, como outra vez lá em baixo. Tal qual a vida.

Às vezes olho o céu azul ou cinzento e tenho vontade de chorar. Ali, no meio da multidão que é onde melhor nos escondemos e ninguém dá por nada. Depois, reparo num raio de Sol que teima em trespassar as nuvens e chega até mim e dou por mim a sorrir, como se a felicidade me transbordasse do peito, em jorros de luz, também ali, no meio da multidão que é onde melhor nos escondemos e ninguém dá por nada.

12ª Corrida Rota do Queijo 

Lousa, 3 de Maio de 2026

Saímos de casa bem cedo. O estacionamento em Lousa não é muito fácil e ainda vou ter de levantar o meu dorsal.
A rua está vazia e há uma serenidade que só encontro nas madrugadas, em cada amanhecer, cada despertar de dia, acompanhado do chilrear das aves a lembrar-me que cada dia que começa é um privilégio cheio de oportunidades e de inúmeras possibilidades com que a vida nos presenteia.
Rosas brancas na vitrine da florista. Balões brancos em pontos estratégicos da rua para não deixar esquecer que hoje é o dia da mãe e a florista precisa de vender.
Branco. Branco por toda a parte. A não deixar esquecer que as mães estão quase todas mortas. Mortas e frias e brancas, antes da putrefacção, evidentemente. Naturalmente uma pessoa da minha idade há-de conhecer muitas mães mortas. Diria mesmo que a maioria está morta. Mães de amigos e de conhecidos, pela ordem natural da vida, já morreram. Talvez não seja bem assim, diz-me o grilo falante, não sei. Não quero saber. A minha, está morta!
E esta prova, por ser normalmente no 1º domingo de Maio, calha sempre no dia dela. Da Mãe. 

Estou bem. 
Antecedeu a prova uma noite sem insónias, sem dores, sem visitas ao hospital, sem gritos, sem medos, sem agonia, sem filmes, sem sexo tórrido, sem dúvidas, sem inquitações, sem mutilações, sem fantasias ou ilusões, sem fantasmas à solta. Só podia acordar bem. E bem cheguei a Lousa e muito bem Corri e muitíssimo bem me senti no decorrer da prova. Solta, leve, fresca, forte, ânimo raro e uma felicidade da qual já só me restavam longínquas lembranças. Correr é maravilhoso! Correr "assim" é magnífico!

Fiz a prova (8,160 Km) em 44m54s, a valer-me um 4º lugar no escalão (F55). 
Uma prova de inscrição gratuita, bem montada, e que eu adoro! Percurso com boas subidas e claro, boas descidas. A passagem pela fábrica do queijo é como um ritual para mim. Chegar à meta e ter um saquinho de papel com 2 queijinhos Montiqueijo, um pão saloio, uma garrafa de água e uma pequena maçã, é um mimo muito especial.

Por todas as razões e mais algumas, foi uma manhã muito bem passada e a Corrida Rota do Queijo é daquelas onde eu vou querer sempre voltar!

"Ai, eu quero andar no carrocel
No carrocel da multidão,
Ai, eu quero voltar, ai, eu quero voltar"
UHF, in "De Carrossel"

FOTOS da prova podem ser vistas aqui, por Luís Duarte Clara










terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Agora e na hora da nossa morte

 Quando nascemos, já trazemos uma senha. Para a Partida! Nr 19!!! Gritará o homem do talho! O Carniceiro ou o Espírito que nos conduz ao Além. Será escusado tentarmos escapar, dar a vez a outro ou implorar por mais um sopro...de Vida! É a nossa vez e temos de seguir! Nessa hora, partir impõe-se e nada que possamos fazer mudará isso. Da mesma forma, podemos querer antecipar a Partida  ( não será antes antecipar o Fim?!) mas se ainda não estiver na nossa vez (vulgo "nossa hora") façamos o que fizermos (cortar os pulsos ou esquartejar partes aleatórias do corpo, atirar-nos da ponte, ou deliberadamente chocarmos de frente com um camião indiferentes à vida que segura aquele outro volante, completamente alheio às nossas estúpidas crises existenciais, se não tiver ainda chegado a "nossa hora" , a nossa vez, dramaticamente continuaremos por cá, vivos... dolorosa e impediosamente  vivos...e só haverá uma coisa a fazer: Continuarmos o Nosso Caminho. Vivos! Tão vivos quanto conseguirmos.

Maria Angela, 08/01/1939 - 24/12/2025