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quinta-feira, 5 de julho de 2012

Fascínio e Tristeza

Há coisas que nos atraem e fascinam tal encantamento que nos chama e leva a caminhar até elas de forma quase involuntária, como sonâmbulo possuído levado por demónios até à beira do abismo.

Talvez o som constante e regular das suas hélices a cortar o ar, zumbido assustador a sobrepor-se a qualquer outro som da Natureza circundante, a sua imponência magnífica, a fragilidade do ser humano perante a sua  magnificência fria, metálica e mecânica, a imaginária iminência do perigo que correríamos se uma delas por qualquer acidente nos apanhasse e o vento que nos faz esvoaçar os cabelos, que normalmente as acompanha, estrategicamente posicionadas, estas que visito a permitir-nos vistas magníficas, especialmente sobre o meu Rio Tejo, são tudo boas razões para me levar até elas, uma e outra vez, em caminhadas vigorosas, em terreno ascendente até as alcançar.

Por isso caminho. São elas razão e motivo inventado para caminhar e me mexer. Especialmente agora que não estou a correr na tentativa de me pôr boa da perna, as razões para me continuar a mexer revestem-se de especial importância. E se elas forem as Eólicas, que sejam! E se forem outras quaisquer, que sejam! Importante mesmo é mexer-me!

E por isso esta semana já conto com umas 3 boas caminhadas, 2 delas às eólicas, cada uma num percurso entre 8 e 10 km.

E esta é a minha serra. Bela e fascinante mas também a deixar-me triste pelos despojos humanos, desde entulho resto de obras, carros velhos, electrodomésticos, a roupas e preservativos usados a denunciar que a bonita serra é usada para muito mais que passeios saudáveis ao ar livre. A deixar-me triste pelos espaços apropriados clandestinamente por sucateiros e famílias de costumes duvidosos, em que meia dúzia de tijolos e outras tantas ripas de madeiras fazem uma "casa" com o respectivo lixo à porta e as fezes de humanos misturadas com as de seus cães presos por correntes a ladrarem-nos à nossa passagem com uma agressividade sanguinária  (e o que eu agradeci que assim fosse: que estivessem presos!).

Há eólicas de acesso livre e fácil e podemos tocá-las, se considerarmos fácil subir 5 ou 6 km de serra (é fácil!) e se considerarmos fácil chegarmos lá ilesos depois de passarmos pelos isolados aglomerados de ferro velho e gente que vive com o cavalo a pastar à porta preso por uma corda atada a um frigorífico velho deitado no chão. E há outras eólicas instaladas em propriedade privada, essa, zona vedada e bem protegida por vedações. Tive pena de não poder continuar aquela estrada das eólicas e ir pela serra fora explorando-a e descobrindo-a mais e mais, mas fui obrigada a voltar para trás.



Por aqui, já abracei a nr. 5 e a nr. 6. Hoje foi a vez da nr. 4




O caminho por onde não fui: propriedade privada e bem vedada

A "casa de família", decorada com originalidade, com um espectacular Ford Anglia no telhado

A serra, o Tejo, a Vasco da Gama e a Margem Sul

E num recanto da serra, a poucos metros da "casa de família" onde à entrada jogavam à bola crianças descalças de ranho no nariz e cabelos sujos, deparei-me com isto. Ossadas de um animal espalhadas pelo terreno. Cão? Raposa? Ovelha ou cabra? Não faço ideia, mas teria curiosidade em saber se alguém me souber dizer. Animal morto abandonado, ao ar livre em decomposição, até ficar assim... Assusta-me e entristece-me. Ou talvez a minha imaginação seja fértil demais e "apenas" tenham matado um borrego, roído a sua carne até aos ossos, lambido as beiças e cuspido os ossos assim para o "quintal"...






Entulho e lixo
Por tudo isto, a Serra e as Eólicas são fascinantes sim, e adorei ter lá ido, mas confesso que fiquei com algum receio não pelos percursos ermos, mas precisamente pelo contrário: pelas companhias que lá habitam e que amiúde por lá se  encontram.

Mas que o fascínio se mantém, lá isso mantém-se e cresceu até, e com as costas bem guardadas, acho que gostaria muito de lá voltar e explorar muito mais, esta serra que é minha, também.

10 comentários:

Joana disse...

É incrível aquilo que não fazemos ideia que existe não é? Ainda um destes dias uma amiga minha ficava muito horrorizada quando lhe dizia que já tinha visto imensas pessoas com sarna ou com tuberculose, doenças que reflectem as más condições de higiene em que muitas pessoas (ainda) vivem. É muito triste.

Beijinhos e boas caminhadas :)

Maria Sem Frio Nem Casa disse...

é isso mesmo Joana, a poucos metros da "Civilização" aqui neste país da Europa, há pessoas, adultos e crianças a viverem em condições que nem imaginamos: casas sem água nem esgotos... toda a espécie de lixo à volta... nem imaginamos o resto...

Pizza disse...

O Ruben já foi visitar essas eólicas e ficou mesmo surpreendido com o tamanho... e não se calou com isso na altura.
agora percebo porque. Isso é assustador!
E o resto (em parte) tb, mas no bom sentido :)

Algures no Oeste disse...

Este teu post está muito bom, pelo relato e pelas fotos :-)
Quem diria que tão próximo de Lisboa existiria de tudo um pouco.
Que belas caminhadas.
Um beijinho.

S* disse...

Há uns anos, com a escola, fomos limpar a floresta e encontramos mais d3 30 cabeças de gado. :/

Jose Xavier disse...

Olá Ana;

Neste teu texto deixas aqui algumas coisas, que eu considero como, Portugal no seu melhor e no seu pior.

Bom fim de semana.

Abraços

dos Xavier's

Jorge Branco disse...

Bem que me faz falta por aqui um serra dessas mas tenho pena que não se encontre nas melhores condições.
Por aqui também já se depara com algum entulho e electrodomésticos abandonados mas felizmente ainda as coisas não estão assim tão mal.
Bem sei que aqui é um zona rural pura e essa serra é vitima dos problemas suburbanos.
Também começo a ter vários caminhos vedados mas até compreendo devido ao vandalismo: por exemplo aqui roubam-se batatas (entre outro polutos agrícolas) em grande escala.
E não se julgue que é para matar a fome...
De qualquer forma o conhecimento que levo do terreno e os anos que tenho de percorrer estes caminhos ainda me permitem saltar um outro portão/cerca sem que os proprietários vejam mal nisso. Já sou muito conhecido por aqui e sinto-me perfeitamente em casa!
Beijinho e bom fim de semana

horticasa disse...

Não achei nada de estranho haver ossadas de animais, lembro por exemplo que quando a burra que a minha mãe tinha para trabalhos de carga, ficou doente, o veterinário disse-lhe para leva-la para um sitio onde de seguida pudesse enterra-la.
Como podes calcular não conseguimos fazer uma cova muito profunda e como estávamos num campo que apesar de ser nosso era isolado, praticamente só a cobrimos com terra, ora é fácil imaginar que com o tempo as ossadas ficassem a descoberto, é assim. Nada se perde tudo se transforma mas, só quem vive e cresce no campo não se impreciona com estas coisas.
Quanto às pessoas, cada vês vão haver mais nessas condições, já estão a crescer de novo os chamados bairros da lata, onde pensas que vão viver os milhares de pessoas que estão a não conseguir pagar os prestimoso e que os bancos não perdoam? Nesse caso são ciganos?
Oxalá eu me engane....
beijinho
Qual a camioneta que eu apanho e vou ter contigo amanhã para uma grande caminhada??

Vanessa Leão disse...

Boa tarde,

Será que me podia enviar um e-mail para: geral@correromundo.com de forma a ficar com o seu endereço de e-mail?
É que tenho um projecto na área da corrida e gostaria de poder contar com o seu contributo.
Obrigada e parabéns pelo blogue.
Vanessa Leão

Lilith disse...

nunca fiz nada do género mas deixaste-me curiosa :D acho que um dia destes vou explorar as serras que têm eólicas aqui na zona!

beijos, linda :)