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terça-feira, 22 de maio de 2012

"A 7ª Meia Maratona Douro Vinhateiro" ou "4 dias no Douro" - Parte II - Palavras

 Visão de um atleta de pelotão

Aquela que se intitula como "A mais bela corrida do mundo" com um pretensiosismo escusado, realizou-se no passado domingo dia 20 de Maio pela 7ª vez, nas margens do Rio Douro, num cenário de efectiva, rara e magnificente beleza, nas terras do Alto Douro Vinhateiro, zona classificada pela UNESCO como Património Mundial da Humanidade. Foi a 7ª Meia Maratona Douro Vinhateiro, que teve perto de 1700 atletas chegados à Meta da Meia, incluindo Atletas em Cadeira de Rodas, e milhares de participantes na Mini/Caminhada.

Depois de problemas graves no passado, nomeadamente com a quase ausência de abastecimentos, plenamente ultrapassados hoje, a prova é já um evento de sucesso, com uma boa organização geral, a merecer perfeitamente a adesão que tem, e a convidar a mais.

A 7ª Meia Maratona Douro Vinhateiro

O levantamento de dorsais nos dias antecedentes à prova mas também no dia da prova, com entrega eficiente e rápida. A concentração dos atletas no dia da prova na Régua, onde foram transportados de comboio para o local da Partida.
A animação na zona da Partida. A Partida excelentemente dividida com os Atletas da Meia à frente e os da Mini atrás. O atraso de meia hora na partida. O percurso bem assinalado, com marcação de quilómetros, totalmente cortado ao trânsito em perfeita segurança. Abastecimentos (água) em quantidade suficiente. Os chuveiros de água ao longo do caminho. Algum público. A beleza do percurso. A animação junto à chegada. A t-shirt "técnica", a medalha e a garrafa de vinho da região como prémios de presença. O Certificado de participação. O controlo por chip. A classificação disponibilizada on-line rapidamente. A Meta digna. O apoio médico. A acrescentar a tudo isto mas não menos importante, a gentileza das gentes a dar vontade aos atletas de voltar (sim, mesmo apesar do atraso de meia hora).

A minha corrida e a triste e muito infeliz frase de um "speaker" excessivamente excitado

O Douro embriaga-me. De serenidade e paz. Acordo nas margens do rio envolta em verde e renasço enquanto o dia nasce. Podia ficar ali horas sem me cansar, com uma chávena de café com leite quente nas mãos (ou copo de vinho tinto da região, dependendo das horas do dia), apenas a contemplar tamanha beleza e magnitude. Mas já é dia da corrida e depressa me vejo na Partida com a minha amiga Ana. Alongamos e vamo-os preparando para partir quando se ouve ao altifalante que pela estranha razão de ainda estarem milhares de pessoas na Régua à espera de comboio, a Partida iria ser dada às 11:00 hrs, portanto meia hora mais tarde que o anunciado e previsto, e para minha surpresa a completar a desagradável notícia quando o Sol já ia aquecendo, o speaker acrescenta efusiva e descaradamente que "...a partida tem um atraso de meia hora, mas não faz mal porque estamos na corrida mais bela do mundo e por isso vale tudo!"
Claro que de imediato na minha cabeça me surgiram as respostas mais ríspidas que transmiti à minha amiga Ana e a quem estava por perto e quis ouvir: "Vale tudo?! Vale tudo?! Se calhar por esse tipo de postura, de quem está no cimo de um pedestal sobre o resto do mundo, é que até valeu há 2 anos atrás colocarem em sério risco de saúde e até de vida, os atletas que não tiveram qualquer abastecimento ao longo dos 21 Km! Não meus senhores, não vale tudo!"

Crescia em mim um frenesim interior, que no entanto não deixei que se alastrasse ou manifestasse em demasia. Mas sentia-me incomodada. Se nunca simpatizei especialmente com a auto denominação da "mais bela corrida do mundo", que sempre achei e acho extremamente presunçosa, agora com aquele remate, sentia um certo desalento, estaria eu enganada quando quis dar e dei e continuo a dar outra hipótese à organização mesmo depois daquele massacre da falta de água há 2 anos atrás? Será que afinal a falha fatal da falta de água não terá vindo afinal ao encontro desta mesma postura que venho encontrar hoje: "Vale tudo porque somos a corrida mais bela do mundo"? Mas afinal o que mudou de há 2 anos para cá? Há água, está certo, é verdade. Mas não sei se a postura é a correcta. Não sei se mudou a essência. No entanto, e ainda, quero acreditar que aquela frase foi apenas uma frase de um "speaker" de cabeça oca, uma frase muito, muito infeliz e que não representa de todo a organização que nos ofereceu este ano, a par do anterior, uma excelente Meia Maratona para correr.

Nos 30 minutos extra, fartei-me de conversar com a Ana, sou abordada por 2 leitores deste blogue, que se apresentam e elogiam este espaço  (que pena não ter visto e cumprimentado o Kim...) e por fim é dado o tiro de partida. A partir daí não tive qualquer queixa ou reclamação. Estava tudo muito bem, ao contrário da minha perna que arrastei até sensivelmente meio da corrida para depois "adormecer" e deixei de a sentir. Corria em modo automático e não havia lugar à dor, que no entanto se mantém cá agora, um pouco pior do que estava antes da Meia, por isso vou continuar a correr.

Uma nova abordagem de alguém que lê esta espécie de diário, desta vez uma jovem que me cumprimentou em plena prova e seguiu para a frente. Lá pelo km 18 vejo-a no horizonte, faço por chegar a ela, e apanhou-a, incentivo-a a ir comigo até à meta mas ela não reage e eu sigo toda lançada rua abaixo. Estava "bem". Infelizmente, quando o percurso dá a volta e nos lança na recta da meta, mas ainda falta quase 1 km em ligeira inclinação (a subir), essa sensação esgota-se e de novo me arrasto, quase em agonia até à meta. Mas sorrio, ah pois claro que sorrio. Tenho lá o meu pai e amigos que merecem o meu sorriso. Reencontro a Ana, que entretanto já tinha acabado a prova, vou recolher os meus prémios contra a entrega do chip, quero ir ter com o meu pai, e voltamos depressa à calmaria das margens do Douro, onde pernoitamos mais uma noite, deliciados e embalados na grandiosidade deste Douro Vinhateiro, onde quero voltar sempre e recomendo a todos. Vens daí comigo para o ano?

Até amanhã querido diário


15 comentários:

anci disse...

I understand that it is not easy to transport everyone to the start on time if all people plan to take the last train - maybe half-marathoners should be separated from the mini-runners already at the train station...

However, I did not mind at all the 30 min postponement of the start because the most beautiful weather the whole day started exactly at 10:30, plus we had such an interesting conversation in this extra time that I could have waited easily another 2 or 3h... But if the temperatures had been still below 15 C like at the time we took the train, or if it had been very hot, or if it had been raining like it was forecasted (there was no drop-off bag option at the start so it is hard to be prepared well for waiting at the start), or if I were claustrophobically squeezed in a crowed - such a delay could destroy my run and my day...
But luckily it didn't. And I trust that organization will improve in this regard as well, just like with offering water they do now a fantastic job - the best one I ever experienced at a street running event!

Although I am not a fan of running on asphalt, I really really liked this half marathon and had a wonderful weekend in Douro Vinhateiro. Ana, thank you for the company and positive mood and making everything so pleasant and easy for people around you!
bjs

horticasa disse...

Óh pá fiquei com vontade de lá ir contigo....
Parabéns mais uma vez, beijinho

Kim disse...

Olá Ana. Sim, este ano conheceu o Kim nas margens do Douro :-). Só que ele apresentou-se como Joaquim :-). (Era eu estava com o Abílio Nunes de Lamego, "um dos dois leitores do blog")
Parabéns por mais uma bela crónica sobre a corrida.

Nainho disse...

Excelente reportagem :)

A ideia da anci é excelente transportar primeiro o pessoal da meia maratona :)

O tempo ajudou.. e todos sabemos q és capaz de no proximo ano correr em menos de 2h .. basta treino e poucas lesoes :)

Venha a proxima ..

elis disse...

convidando assim, com essa xícara de café na mão, rodeada de verde e tranquilidade, senti-me já fazendo as malas pra te acompanhar, na meia e no café:)

parabéns, Ana!
pela sua corrida, sempre intensa e cheia de vida, e de sentimento!

fiquei feliz de saber que você curtiu sua viagem!

bjs

Ganfas disse...

Fico contente por teres conseguido cumprir o objectivo que tenho vindo a acompanhar desde à 12 semanas.

Parabéns :)

Corre como uma menina disse...

É uma zona de facto muito bonita, e fica-se com vontade de correr por lá.
Se estivesse muito calor, o atraso de meia hora poderia tornar-se pior, realmente foi um comentário despropositado...

Parabéns pela prova e pelo óptimo relato!

Beijinhos

afca disse...

antes de mais, parabéns.
estou totalmente de acordo consigo:
tanto pretensionismo em nada beneficia "a mais bela corrida do mundo".
no ano passado cruzei-me consigo e, se nesse ano, a partida foi dada mais cedo...estava um calor, para mim e para todos, é certo, horrível...nao justifica, a meu ver, tanto espalhafato.

Anónimo disse...

Olá Ana:
Quando conhecemos pessoalmente alguém que nos habituamos a admirar ficamos fascinados.
Que a corrida decorre num dos lugares mais belos do mundo é verdade mas a organização tem ainda muita margem de evolução; e não vale tudo - concordo.
Seu fã, Abílio Nunes

Luciana disse...

Gostei tanto da tua visão da corrida e dos pensamentos que te assolaram.
Ainda bem que houve um maior "investimento" em pormenores que não são apenas detalhes.
O Douro parece-me realmente uma região linda e que transmite uma sensação de calma impressionante.
Beijos

Lénia disse...

Belo texto, Ana. Fiquei com vontade de correr contigo para o ano. Mas é tãoooooo looooonge daqui dos Algarves...

Parabéns por mais um objectivo cumprido! E tinha muitas subidas?

Beijinhos!

Pedro Carvalho disse...

Lendo a crónica até parece fácil. Mas, será que não é?
Parafraseando o infeliz "speaker", quando estamos bem preparados, de facto vale tudo, até fazer uma Meia e acabar a subir e a rir. ;)
Uma vez mais, Parabéns!!!
E, quem sabe, não estaremos lá todos os teus seguidores, na próxima edição.
Beijos.

Jorge Goes disse...

Olá Ana,
Poderíamos dividir esta prova em 2 fases, a primeira seria efectivamente a viagem de 12 semanas de dedicação e partilha, a segunda o esplendor das paisagens e a magnifica prestação na prova.

- Relativamente á primeira já me alonguei em post anterior em que referi as qualidades pessoais da Ana, o seu compromisso com a dedicação e disciplina, a família e a obrigação de nos relatar as evoluções e expectativas.
- A segunda fase da prova é a que importa agora detalhar. Percorrendo esta prova as magnificas paisagens das margens do douro seria de esperar que a organização enfatizasse esse facto e o enaltecesse efusivamente. Se reparar o speaker da prova não disse que era “ a melhor corrida do mundo” mas sim “ a mais bela corrida do Mundo”.
Por isso retiramos-lhe alguma culpa pelo falso pretensiosismo e que naturalmente lhe fica mal., porque o nosso País é bonito de Norte a Sul e as falhas das organizações não se desculpam desta forma pouco ética. ;))
Em relação á sua prestação foi muito interessante sabendo de antemão as dificuldades e apreensões que viveu durante a fase de preparação.
Tenho 2 Perguntas a fazer-lhe:
- Sapatilhas, levou as suas inestimáveis e inseparáveis Nike? Ou ganhou coragem para cortar o cordão nesta prova?
- Qd baliza o termo “ técnico” das t-shirt que habitualmente são oferecidas nas provas, deve-se a algum aspecto que conheça ou tal como o nome da prova, acha ousadia face á qualidade da mesma..:))

Obg pela reportagem e pelas fotos. Registo mais uma vez a sua capacidade inata de relatar com um rigor extraordinário todo o ambiente da prova,
Para o ano e por seu convite lá estarei.

Goes

Pizza disse...

ainda não tinha lido o relato oficial!
adorei aninha
Senti cada palavra!
Obrigada:)

Algures no Oeste disse...

Ana, mais uma vez parabéns pela prova e por tudo o que alcançaste :)
Deve ser realmente um sítio maravilhoso, não conheço e até fiquei com vontade de lá ir...
Beijinhos.