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segunda-feira, 29 de janeiro de 2007

A zona da partida

28 Janeiro 2007 - Grande Prémio Fim da Europa: de Sintra ao Cabo da Roca, ponto mais ocidental da Europa

Pela primeira vez participei nesta prova. Esta é daquelas: toda a gente nos mete muito medo, e depois eu, ou sou maluca ou qualquer coisa muito parecida, pois acabo a prova e já a coloquei na lista das minhas preferidas e a não faltar sempre que possível!

Cheguei cedo a Sintra. Levantar dorsal, beber café, reencontrar amigos e conhecidos e desconhecidos e a partida é dada. Por fim só!

Correr é um acto solitário! Estou só no meio do pelotão. Estou comigo sob um céu que me abençoa com flocos de neve (Sim! Neve! Em Sintra!) no meio de um verde esplendoroso. A serra de Sintra! Cai neve e chuva sobre nós. Rosto levantado ao céu (que isto de correr devagar dá-nos o privilégio de tanta coisa…) e na falta de originais palavras só me vêm à cabeça estas de José Luís Peixoto:

“…
quando ia treinar passava pelas ruas a correr e ninguém podia imaginar o mundo de palavras que levava comigo. Correr é estar absolutamente sozinho. Sei desde o início: na solidão é-me impossível fugir de mim próprio. Logo após as primeiras passadas, levantam-se muros negros à minha volta. Inofensivo o mundo afasta-se. Enquanto corro, fico parado dentro de mim e espero. Fico finalmente à minha mercê. No início, tinha treze anos e corria porque encontrava o silêncio de uma paz que julgava não me pertencer. Não sabia ainda que era apenas o reflexo da minha própria paz. Depois, quando a vida se complicou, era tarde demais para conseguir parar. Correr fazia parte de mim como o meu nome…”

Foi assim a minha corrida. Sozinha. Apenas comigo. Verde, verde, verde, neve, chuva, vento gélido e cortante. Subir, subir, subir ao céu! Descer e subir, subir e descer vezes sem conta, e sempre o verde a envolver-me. Por fim, meu Deus, por fim avisto o Cabo da Roca! O mar, o farol, oh meu Deus, que aparição divina! Corro para lá, cheia de força, cheia de vida, cheia de alegria, cheia de… simplesmente cheia, já não há vazio dentro de mim!

Termino os 17 Km com 1h28m. Absolutamente extasiada, arrebatada e comovida. Acabei de passar por uma experiência maravilhosa neste mundo que é também de corrida! E depois ainda senti que basta treinar um pouquinho só para me sentir melhor e ver resultados. E resultados não são a marca que fiz ou a classificação obtida, mas sim, o facto simples de como tão bem me senti!

À chegada uma tenda com uma farta mesa onde nos serviam de quase tudo com amabilidade e simpatia, mas acho que o simples chá quente foi o mais apreciado.

Depois, depois foi o pior: entreguei a roupa a um grupo de conhecidos (em vez de entregar à Organização) e houve um pequeno desencontro no final, o que me obrigou a vir procurar o carro cá fora onde fui literalmente varrida e trespassada por um vento cortante sobre a roupa molhada agarrada ao corpo. Oh, meus Deus, ia morrendo! Depois, longos e dolorosos minutos mais tarde, já vestida, entro no autocarro da Camâra que de imediato se pôs em marcha para Sintra onde me aguardava o meu fiel carro, e somente aí consegui deixar de tremer. Mas o mal já estava feito. Os minutos de espera à mercê do vento gelado, até me vestir foram suficientes para hoje ter passado o dia a limpar o nariz e os olhos. É só um resfriado, eu sei, isto passa.

A Organização? Cinco estrelas! Para o ano lá estarei! Acho que não preciso dizer mais nada.

Perdida?

Encontrada!

Fotos de Carlos Viana Rodrigues e Zé Gaspar - mais fotos desta prova em http://www.ammamagazine.com/

8 comentários:

Anónimo disse...

AAAAAAAAAAAAH! Depois dizem que se constipam AAAAAAAAAAAAAAAAAAAH
ATCHIMMMMMMMMMMMMMMM!

Bons treinos
O Careca

Zen disse...

Ana

É dos "posts" mais fortes que já li.

Beijinhos.

tornadocontrolado disse...

Folgo muito que esta primeira experiência tenha sido tão agradável... e tão positiva.
Esta prova, para mim, é realmente mística, depois de vencermos a sua dureza ficamos com uma satisfação que não tem explicação fácil.
Acho que o facto de ter que vir para o exterior da tenda se deveu a alguém querer mostrar-lhe o espírito ancestral e dar-lhe assim a provar um sabor mais fiel à imagem da origem...
Lembro-me bem das primeiras vezes que a corri em que o termo do chá estava nas mãos de alguém logo a seguir à meta e em que levávamos o nosso copo até à zona de miradouro sobre o mar porque...não havia tenda nem tanta gente à nossa espera. Ou por outra, havia motards em concentração que è uma atracção que não conseguimos desfrutar desta vez.

João Lopes

TOTO disse...

Olà Ana ;
parabens para a corrida que féz.
parabens para o commentario da sua currida;nunca houvi falar na nébe en Sintra mas o tempo muda.
esta un boucadinho duente du frio que apanhou ,
bon rétabiciment.
(antoine)

Dominique Diricq disse...

Olà Ana,

Qual bonito resumo de corrida. Aquilo dá desejo de participar, mas pensava que fazia sempre beleza no vosso bonito país!
Bom restabelecimento.

Lénia disse...

Vi as fotos da prova da AMMA, e pareceu-me q aquilo era frio a valer. Foram todos mto corajosos! Parabéns a ti e aos colegas que participaram. Excelente tempo para aquele percurso!
Vamos lá ver se nos pomos a 100% outra vez !!
Espero encontrar-me contigo daqui a uns dias, se este corpinho o permitir.
Até lá, beijinhos!

tsicas disse...

Nuska
Adorei... e principalmente a alegria a beleza o brilho que transmites nesto texto...
Quase.. que ... (como alguém aqui escreve) me deu vontade de participar...para o ano???!!!!!!
Continua...
Jocas
TD

Carlos Lopes disse...

Parabens pela Corrida