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sexta-feira, 6 de março de 2009

Cinco dias


Domingo, 8 de Março de 2009 - 26ª edição 3 Léguas do Nabão

2ª, 3ª, 4ª, 5ª e 6ª feira

Cinco dias se passaram
Sem treinos nem dores
Apenas se chamaram
Estrelas de outras cores

Deram-lhe eles o pão
Sobre a toalha de mesa
E um livro a mais no chão
- Oh meu Deus, que beleza!

Não preciso de mais! - Diz
Mas sabe se estar a enganar
Pega nas tralhas e feliz
Segue a correr para Tomar

Uma voz ao telefone e decide sozinha
Pôr termo à indecisão
Mesmo sem treinos se adivinha
Que ela lá esteja no Nabão

Três Léguas para correr
Quase duas horas a suar
Talvez vá também sofrer
Mas sem dúvida ganhar!

quinta-feira, 5 de março de 2009

O Vaso e Os Cães

Ao chegar a casa e mesmo ainda antes de pôr a chave na fechadura, algo se insinua discretamente sugerindo-lhe que alguma coisa não está bem. Nem visível ou imediato, mas sente-o nitidamente. Algo se passara com a sua casa durante o dia e alguma coisa não estava bem. Mas o quê? Milésimos de segundo apenas em que mil pensamentos lhe ocorrem e nada se lhe depara aos olhos, apenas o coração o sente. E então percebe. Não há nada para ver porque o que não está bem não é nada que se veja, mas antes precisamente a sua falta ou ausência.

Um vaso de barro que lhe tinha dado a mãe estava à porta dela marcando presença. A dela. Albergando uma flor que fora assassinada por estranhos, há semanas, minuciosamente cortada folha a folha por mão humana de unha afiada, restava a esperança da flor renascer e o vaso continuava guardião da porta. Da dela. E hoje não estava lá.

Ao longo da vida vamos conhecendo os homens, as emoções, os sentimentos, os nossos e os dos outros. Já muito pouca coisa a surpreende. Aliás, para dizer a verdade o que a admira foi o vaso ter durado praticamente um ano, à solta, mas como fiel companheiro, não partira para outra casa e outras mãos que o cuidassem. Estava ali à porta dela. Vendo-a sair, entrar, carregar sacos e malas, ora para dentro ora para fora. Vendo-a limpar a porta, varrer a entrada e sacudir o tapete. Ali permanecera até hoje. Até mãos estranhas e alheias o levarem.

Que importância tem isso, perguntarão. Na verdade, a importância é nenhuma. Salve-se o corpo e alma, e o resto é paisagem como o vaso.

Mas porra! Ela é que não é de barro, ou sendo, roubaram-lhe um bocado dela. E ficou triste hoje. Não tanto por ter ficado sem o vaso, mas por dividir o mundo e a rua onde mora com quem rouba vasos. Simples. De barro. Claro, claro, há coisas piores. Inqualificáveis. Pois há. Mas a ela hoje, roubaram-me um pedaço de barro. Um pedaço de barro que era seu.

Não vai ter pena nenhuma de deixar esta casa e este sítio! Está até ansiosa por isso. Aliás, nesta, assim como em várias casas onde viveu nos últimos anos, os seres que de facto lamenta deixar, são cães. Há sempre cães, de vizinhos ou vadios, que se tornam amigos dela. Intensamente mais que os vizinhos-pessoas.

A começar pelo que foi dela e que teve de abandonar quando se divorciou: o Dipsy. Houve depois o King e o Roby, que foram verdadeiros amigos e companheiros logo a seguir ao divórcio dela no início de 2002. Da última casa, tem saudades do Snoopy, um cão preto que partilhava o prédio num qualquer dos 7 andares e que saía à rua sozinho. Sempre alguém lhe abria a porta do prédio para entrar ou sair. Muitas vezes ela (devia ter horários idênticos). Chegou uma altura que bastava chegar a uns metros ainda, de carro na estrada e já o Snoopy vinha ao seu encontro (talvez já andasse há algum tempo na rua e quisesse ir para casa).

Aqui, terá pena de deixar a Nina, a pequena cadela branca e preta, que vive na casa ao lado e que até entra na casa dela quando está a descarregar ou a carregar o carro, e que ladra aos estranhos que se aproximam da porta dela como se fosse a sua!

Fazer amizade com cães mais do que com as pessoas… ela é assim, uma perfeita anormal e uma desajustada neste mundo cão.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Os Pais

Confesso que tenho vivido como se tivesse todo o tempo do mundo. Como se o que não faço hoje, pudesse ser feito amanhã, depois de amanhã, ou para a semana, ou para a outra ainda, ou até mesmo para o mês que vem, ou ainda e só no próximo ano.

A Morte (a nossa morte), é uma ideia abstracta, que apesar de sabermos que viaja connosco o tempo inteiro mesmo ao nosso lado no banco do pendura e nos acaricia a coxa como os seus dedos delgados e frios enquanto conduzimos pela estrada fora, não temos de facto verdadeira consciência que vamos morrer. Eu pelo menos não tenho. Agora. Porque há-de chegar o dia e o momento (o tal, o que interessa e que temos de viver em pleno) que será o… Agora! No entanto, confesso, vou vivendo como se fosse imortal, apesar de saber que não sou.

Se no que às relações que justificam investimento e entrega diz respeito, exijo de mim própria uma presença viva constante, já em muitos outros aspectos da minha vida, confesso que “deixo andar”.

Por outro lado, questiono-me: se partisse amanhã, que faria hoje, agora e até lá? E que importância terá mesmo, o que, e como deixamos?

De repente, sinto uma necessidade de arrumar tudo, de deixar tudo pronto. De deixar todas as palavras ditas, embora haja muito poucas que me faltem dizer. Também o terreno arado e a semente deitada à terra para quem cá fica e mais sentirá a minha partida. Ideias estranhas estas que me assaltam.

Sou uma privilegiada por chegar aos meus 40 anos com os meus dois pais vivos e de relativa saúde. E ambos, pai e mâe (sim, porque eu também tenho uma mãe) numa idade em que eu toda a vida considerei normal uma pessoa morrer. Assusta-me pensar nisso.

Sou uma privilegiada eu…e por reconhecer isso, de repente sinto algo que se assemelha a medo. Ter amor à vida paga-se com o preço de ter de viver também com medo de a perder? Nunca tinha nem pensado nem sentido isto.

Que esta consciencialização e reconhecimento não sirvam para me amedrontar, mas sim e apenas para me fazer viver mais e melhor em cada segundo que passa da minha vida.

Ámen
Treinos de 2ª, 3ª e hoje 4ª: 0 (Zero)

domingo, 1 de março de 2009

Grande Prémio de Atletismo da Charneca da Caparica




Organizado pelos Amigos do Atletismo da Charneca de Caparica, com o apoio da Junta de Freguesia da Charneca da Caparica, Câmara Municipal de Almada, Bombeiros Voluntários de Cacilhas e comércio local, conforme informava uma placa de cartão que oscilava com o vento pendurada por um arame e uma fita de plástico vermelha e branca num “abrigo” improvisado onde se veio a proceder à entrega de prémios, entre cascalho do chão e pratos de plástico em também improvisadas prateleiras, que mais tarde serviriam febras, realizou-se hoje o Grande Prémio de Atletismo da Charneca da Caparica.

Prova resistente no tempo num concelho onde já houve um troféu de atletismo mas que morreu, e cujo molde se vê repetido nesta prova de forma muito semelhante às provas daquele: Provas por escalões, desde os Passarinhos à prova principal, com distâncias definidas para cada um desses escalões.

De participação reduzida em todos os escalões, não atingindo as oito dezenas de atletas na prova principal, não deixou no entanto esta prova de marcar pontos no incentivo activo da corrida para todos.

Um carro da Junta de Freguesia emitia músicas a lembrar-me isso mesmo, e ali estava guiando os atletas em cada prova. Ambulância sempre presente e em acompanhamento das provas menos curtas.

Um risco branco pintado de fresco na estrada, uma chamada por megafone e um apito soprado vigorosamente e as partidas foram sendo dadas, tendo-se iniciado a primeira prova com pouco atraso em relação à hora prevista, e seguindo-se todas as outras, assim que terminava a anterior.

Um funil de fita vermelha e branca leva os atletas à meta, onde lhe é entregue uma peça de fruta, uma garrafa de água e uns biscoitos. Troféus e flores para os primeiros de cada escalão, e mais troféus e porta-chaves com alusões à prova para classificados seguintes. Taças para as equipas. Entrega de prémios e classificações disponibilizadas no local com alguma rapidez.

Independentemente de todo o mérito que a gente que tornou possível a realização desta prova merece, saliento um factor que considero bastante grave e que só não originou fatídicos acontecimentos por mera sorte, que foi o facto do trânsito se manter aberto e em plena circulação, ou se havia condicionamento… não se dava por ele, o que na prática vai dar ao mesmo. Apesar de ter avistado algures a GNR, em vários pontos da(s) prova(s) os atletas correram sem qualquer segurança em relação ao trânsito e por sua inteira conta e risco e responsabilidade, como claramente realçava o regulamento declinando qualquer responsabilidade.

De qualquer forma não hesito em afirmar que está a organização de parabéns por ter levado a cabo mais um Grande Prémio onde a Corrida foi levada à rua e onde chegou às pessoas. E isso é preciso. Na Charneca da Caparica ou em outro lugar qualquer. Sem pódios ou ostentações, mas com o essencial: o amor à Corrida.

.....

Agora a minha prova:

Encontro no clube. Reencontros, beijos e abraços. Chega-se ao local da prova. Conversa, café (indispensável), aqueci, e parti. Só me lembro do meu pensamento oscilar entre “…não nasci para isto…” e “…já não tenho idade para isto…” – isto enquanto o coração me ameaçava saltar pela boca e todo o peso do meu corpo se sentir nitidamente em cada perna cada vez que a tentava levantar do chão para mais um passo. Mas dei. Mais um, e mais um, e mais uns quantos ainda. Também não foram muitos que a prova foi curta.

Dou por mim a pouquíssimos metros da meta sem conseguir sorrir, o que só consegui fazer quando parei, eu e o cronómetro que marcava 13m56s (o que não quer dizer rigorosamente nada), altura em que também consegui por fim fundir os dois pensamentos anteriores nesta perfeita e verdadeira conclusão: “… não tinhas a minha condição para fazer esta prova, isso é que é! Ainda assim vieste, correste, ficaste em 2ª posição num escalão com 4 atletas (na primeira metade portanto! Deste 9 pontos à equipa que alcança a 3ª posição, e … agora não é tão depressa que me apanham nestas rapidinhas… gosto de provas mais lentas e bem mais demoradas… aprecia-se melhor”

Até amanhã querido diário

O aquecimento:
A nossa partida, dada pelo vigoroso som do apito vermelho:


Quase a chegar à meta, "à rasca" pois claro:
Já recuperadas as mulheres do meu clube (e o Pacheco) a exibir um dos prémios à chegada, um pero verde:Outras mulheres na corrida: Eu, a Ana Paula Pinto, o Óscar e os nossos prémios de 2ª e 3ª classificada respectivamente, cada uma no seu escalão, mas a Paula, claro... ficou à minha frente:
A nossa equipa - Clube do Sargento da Armada, que alcançou um honroso 3º lugar, para o qual todos contribuíram:
Bastantes mais fotos no site da AMMA, e no meu album do Picasa

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Chamam-lhe Parque da Paz

E hoje havia. Paz.

Quando se vai treinar depois das duas horas da tarde, quando os que escolheram a manhã para se exercitar já se foram, e ainda não chegaram os da tarde, pois estarão provavelmente à mesa a almoçar como pessoas normais, o Parque da Paz é de facto um lugar que nos transmite paz, apesar de um constante e incomodativo zumbido do tráfego ao longe, mas ainda assim demasiado perto para o meu gosto.

Pois com prova amanhã, talvez não fosse propriamente recomendável ou aconselhável um treino a meio do dia de hoje. Mas como não me mexia desde domingo (20 Km Cascais) achei por bem hoje fazer alguma coisa, já que não fiz antes. E isto do recomendável e aconselhável no que a provas e treinos diz respeito depende a 100% do objectivo e da perspectiva sob a qual se mira o assunto. E em cada português há um treinador, como todos sabemos.

Por isso, aqui a treinadora ditou: Vai correr! E ela foi!

Para além das aves (patos reais, cisnes, gansos, gaivotas, melros, pombos, pardais e outras aves que desconheço o nome), encontrei apenas uma moça a caminhar. Mais nova que eu, mais baixa e completamente obesa. Caminhava a um ritmo que se poderia chamar de rápido, comparado com o meu passo de corrida lento. Lancei-lhe um olhar e sorri em jeito de cumprimento, “boa tarde”. Respondeu-me ofegante com um brilhante sorriso no meio do rosto redondo.

Admirei-a! Como eu, ali num dia cinzento, ameaçando chuva, enquanto quase todos estão a almoçar, ela e eu a lutar talvez por um objectivo vulgar e comum: sentir-se melhor, quer física quer mentalmente. Que fantasmas e sonhos guarda um corpo?

Corri durante 45 minutos apenas, mas de forma alguma uns insignificantes ou míseros 45 minutos.

Amanhã, espera-me prova na Charneca da Caparica. 2800 metros, ou coisa parecida, pois é medição não oficial, como seria de esperar em provas onde por vezes os postes eléctricos ou as tampas de esgoto no asfalto marcam a partida ou a chegada.

Até amanhã querido diário

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

A dieta e a facadinha

Há vários dias que seguia uma dieta rigorosamente vigiada e equilibrada tendo em vista uma perca de peso, que era já de facto excessivo e dava mostras de aumentar até ao infinito, caso ela não fizesse caso.

Naquele dia chegou a casa esfomeada, sedenta, não propriamente com fome, mas com uma vontade louca e incontrolável de se preencher, encher, tapar e esconder, até transbordar e afogar uma angústia inexplicável.

Nada teria feito prever aquilo. O dia correra-lhe bem, dentro dos parâmetros a que se habituara a medi-lo. Quer profissionalmente, quer nas relações com colegas e superiores, quer com a família. Nem tivera nenhuma má notícia, nem fora defrontada com algum novo problema, por insignificante que fosse. No entanto aquela vontade de calar, matar, sufocar e esquecer-se, dominou-a.

Como cega, retirou um bolo da caixa. Engoli-o sem o saborear. Depois outro. Talvez ainda fosse a tempo de parar…mas não, estava perdida e fora de controlo. Aquilo dominava-a. Era preciso matar aquilo. Tapar, esconder. Com comida. Comeu outro e ainda mais outro, até o pacote ficar vazio.

Depois abriu o armário. Percorreu o seu interior como visão raio x em busca de alimentos o mais calóricos possível. Um chocolate esquecido. Engoliu-o. Uma barra de cereais com chocolate, um resto de bolachas recheadas. Tudo foi engolido em segundos.

Enjoada, parou e dirigiu-se à casa de banho. Viu o reflexo do seu rosto branco no espelho. Não planeara aquilo. Tudo acontecera de repente. Tão de repente...

Quando saiu do escritório jamais pensara que os minutos seguintes se desenrolassem daquela forma. Como se ela não fosse interveniente mas apenas espectadora, impotente perante o desenvolvimento dos acontecimentos. Ela não previra aquilo… Estava tudo tão dentro do seu controlo…

E agora isto. Aquilo tinha-a vencido de novo. Olheiras sobre os olhos enegrecem-lhe o rosto envelhecido. Ela não planeara isto… Pegou numa lâmina nova e roçou-lhe o dedo no sentido contrário ao do corte como que apenas a confirmar como estava afiada. Arregaçou a manga da camisola de lã e viu as veias espessas e bem delineadas sob a pele branca. Tocou ao de leve com a lâmina sobre a pele e exerceu uma leve pressão enquanto a fazia deslizar. Um ardor e um vermelho vivo tingiu-lhe a pele. Gota de sangue minúscula. O ardor deu-lhe prazer. Levantou a lâmina e pousou-a mais abaixo, mais perto do pulso sobre outras veias e exercendo agora maior pressão, fê-la deslizar com mais força. O ardor sufocou-a e o sangue já não em gotas, jorrou-lhe em golfadas, sobre o lavatório, as suas roupas e acabando a salpicar o chão. Talvez tivesse cortado a veia certa. Ou talvez a errada.

Olhou uma outra vez ainda o seu rosto no espelho, a admirar a dor, a punir-se e a cultivá-la como um louco e deixou as costas deslizarem pela parede fria de azulejos brancos, descendo lentamente o corpo até ao chão onde se acocorou. Novo corte ardente e mais sangue vivo a escapar-se-lhe do corpo gordo e infame, manchando o chão, de agora maculada brancura suja. Dela.

Fechou os olhos e não acordou.

Quando a encontraram dias depois, rodeada de pacotes de bolacha e de chocolate vazios no chão, de cabeça tombada inerte sobre o peito e o braço e a mão a descansarem numa poça de sangue coagulado, espesso e escuro agora, da sua feliz ignorância, sussurraram de forma fatidicamente irónica:

“Só por teres dado uma facadinha na dieta… não era preciso isto, minha querida…”

De nada lhes valeria dizer, pois jamais compreenderiam, que a dieta e a facadinha não tinham tido rigorosamente nada a ver com o que acabara de acontecer.

FIM

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Às vezes...

"Às vezes, penso que as pessoas percebem que me falta qualquer coisa, que sou vazia. Por detrás do emprego, das roupas e da maquilhagem, nada há a conhecer. Às vezes , penso que sou uma concha e não consigo compreender porque é que as pessoas gostam de mim. E, quando estou com desconhecidos, lembro-me disso. De que sou insubstancial."

escrito por uma personagem do livro(*) que estou a ler de momento, mas às vezes, retirando a parte da maquilhagem que normalmente não uso, às vezes... poderia ser eu a escrever isto… às vezes… e hoje é uma das vezes, e o desconhecido... és tu aí sentado que me lês, mesmo que penses que me conheces...

Dia: Sem treino

"A Filha da minha melhor amiga" de Dorothy Koomson

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

"A próxima" ou "Prova de Versatilidade ou outra coisa qualquer"

Porque o meu clube (Clube do Sargento da Armada) vai, eu irei. É já no próximo domingo dia 1 de Março.

O quê?! Uma prova de 2800 metros para o meu escalão?!

Mas tu estás louca mulher ?! Isso é de rebentar o coração! Dele te saltar pela boca!

Estas organizações devem entender que uma prova mais curta significará necessariamente menos esforço, por isso para as mulheres e concretamente para o meu escalão (Pré-Veterana Feminina) definem 2800 metros, quando é precisamente o oposto: prova mais curta, ritmo mais rápido, logo maior esforço.

É para dar o litro ou então nem vale a pena lá ir. Isto é a minha opinião. Que vou eu lá fazer? Fazer uma "série" de 2800 metros? Sim, é mais ou menos isso... Bem, vou pela equipa e o resto, logo se verá...

Exercício hoje: como é dia de Carnaval, mascarei-me de dona de casa e limpei, lavei, engomei, arrumei... e deixei a casa substancialmente mais habitável, que bem precisava coitada...

domingo, 22 de fevereiro de 2009

XXVI edição 20 Km de Cascais


Ele há provas em que de imediato não nos ocorre nada para contar. Porque nada temos a reclamar, a denunciar, a exigir e reivindicar. Esta é a posição típica de muitos de nós. E é à primeira vista a minha postura sobre a prova que acabei de realizar.

Mas e o que se faz bem? Calamos? Ignoramos? Nem pensar!

Realizou-se hoje a XXVI edição dos 20 Km de Cascais. Prova organizada pelo Centro de Cultura e Desporto do Município de Cascais com o apoio de Câmara Municipal de Cascais e Águas de Cascais, e organização técnica da Xistarca, entidade que depois de vários anos a “organizar” provas atingiu um patamar onde a engrenagem está montada e oleada, de onde resultam de uma forma geral provas regulares, de qualidade satisfatória.

A 26ª edição dos 20 km de Cascais foi hoje mais um exemplo disso.

Com uma prova de 5 Km a realizar-se em simultâneo (Rapidinha) desde há uns anos, este ano a prova reuniu mais de 3000 pessoas a praticar desporto numa manhã soalheira e amena, com cerca de 1400 participantes na prova principal e cerca de 700 na Rapidinha, salientando o facto da inscrição ser gratuita para indivíduos com mais de 65 anos, quer para a prova principal quer para a Rapidinha, considerando pessoalmente o valor da inscrição para os restantes (EUR 6,00) aceitável para o que é oferecido.

Saliento também o medalhão específico para cada uma das provas, assim como a t-shirt, sendo a dos 20 Km com a inscrição do nome de todos os classificados na edição anterior. Negativamente destaco a ausência de bebidas isotónicas, quer nos abastecimentos quer no final, apesar de não ter faltado água, mas para uma prova de 20 km onde o tempo limite é de 2h30m, em minha opinião a bebida isotónica não devia falhar.

A prova decorre num ambiente bastante festivo, onde se promove a participação de mascarados, aproveitando o facto de se realizar no fim-de-semana do Carnaval.

O levantamento de dorsais é feito de forma expedita e eficiente, a partida é dada a horas. Os quilómetros estão marcados, embora não primam pela exactidão. O percurso está muito bem definido, assinalado e o trânsito está completamente cortado. Há abastecimentos em quantidade suficiente. A prova mais curta sai com 5 min de atraso em relação à principal, não havendo qualquer atropelo entre os atletas da frente e os outros, mesmo com a primeira volta por dentro de Cascais. Controlo por chip electrónico. Classificações disponibilizadas rapidamente para os primeiros 1000 atletas chegados.

A beleza do percurso não é item a descurar. Os 20 Km de Cascais proporcionam-nos correr ao lado do mar, o que é de uma beleza singular.

A chegada é também animada, onde se corta a meta dignamente, com fotógrafo e aplausos, e onde há espaço para alongar e retirar o chip.

A entrega de prémios no local é feita também de forma regular.

Recebemos o saco (medalhão e t-shirt) e ficamos satisfeitos com que os 20 km de Cascais nos proporciona mais uma vez. Vontade de voltar, fica sim senhora! Sempre que se possa.

Parabéns a todos os envolvidos que tornaram esta edição em mais uma edição de sucesso.

Ana Pereira

Classificações e informação no site da Xistarca, encarregada da organização técnica da prova
Reportagem fotográfica com milhares de fotos, na AMMA
Algumas fotos de autoria de meu pai, no meu Album do Picasa


Eu e o meu pai:


A minha equipa: Clube do Sargento da Armada:



Com o meu amigo Fernando Oliveira, que se há uns anos me explusou do clube, por razões pessoais e alheias à minha pessoa, consequência de actos e atitudes de terceiros, hoje definitavemente tem uma boa parte da responsabilidade de eu estar aqui, a correr. Por isso... obrigada Fernando:

Já em prova:
A subir:
Os quatro A's: António Almeida, António Bento, António Pinho e... Ana Pereira:






Já a caminho da meta, depois de ter sido rebocada o caminho todo pelos Antónios: o Bento e o Pinho, grandes camaradas e companheiros do princípio ao fim nesta prova:




Que saudades que tinha disto, Pinho!




Os medalhões: dos 20 km e da Rapidinha


F otos de António Melro (meu pai), Orlando e Leonor Duarte, Isabel Almeida e naturalmente da entidade que fim-de-semana após fim-de-semana, sábados e domingos, eterniza momentos, em desportos e modalidades amadoras pouco divulgadas, os quais na maior parte dos casos vingam com escassos apoios e meios, o que os remete para um desconhecimento geral do público e uma quase marginalização, impedindo e dificultando o seu eventual desenvolvimento.



Em eventos vulgares para muitos, mas de certeza muito especiais para muitos outros, que se dispõem quer a organizar, quer a participar nas provas, a lutar vencendo em cada meta cortada, em cada conquista pessoal, está a equipa da AMMA, atenta, de máquina na mão, discretos e sem alarido, com a serenidade e a modéstia de quem sabe perfeitamente o que está a fazer e chega onde está hoje.





A registar o momento, "o nosso" momento. Quantas vezes as palavras não conseguem transmitir o que uma imagem captada "naquele"momento consegue dizer? Obrigada AMMA!
José Gaspar e Carlos Viana Rodrigues, de quem tenho o privilégio de ser Amiga e de ter a sua Amizade



Agora… agora… a minha prova, a corrida por dentro de mim, a correr-me nas veias, nas artérias, a ser bombeada pelo coração, a percorrer os músculos, os órgãos, e entrar e sair deles, a saltar-me pelos poros, pelos olhos, no sorriso, na felicidade e na dor, deixando-me pensar que a dor dá prazer e se foi precisa e propositadamente por isso que não treinei toda a semana que antecedeu a prova.

Reflexões profundas levando-me para lá, para o fundo, onde não há sol, e todas as reflexões são escuras e frias como o mar que nos acompanha ali ao lado, bravo e duro. Implacável. Reflexões aligeiradas pelo apoio incondicional dos Antónios: Pinho e Bento, que me traziam para cima, de novo para a luz, que me acompanharam do início ao fim da prova, durante o longo período em que a minha prova hoje durou: 2h07m46s.

Partimos juntos com o António Almeida, mas o ritmo era de facto muito lento, e sensivelmente ao Km 5, ele foi para a frente, fazer a sua prova, o que apreciei e incentivei.

Pessoalmente não gosto muito que me acompanhem. Faz-me sempre sentir que tenho de andar mais, que estou a empatar, a atrasar os outros. Mas tanto o Bento como o Pinho foram persistentes. Tornaram a prova, uma prova de teimosia, por mais que eu abrandasse, eles não me largaram. Foi um prazer correr com eles, agradeço-lhes a paciência e a força, a força que não se vê mas se dá e se recebe.

Tinha planeado fazer uma prova a 6 min o quilómetro, o que consegui na primeira metade, mas já se está a ver o que aconteceu na segunda. 20 Km são 20 Km. Não se fazem… assim… sem treinos… Tive o que mereci. Sofri. É verdade! Ganhei! É verdade também! Jamais me arrependeria de ter ido.

Encontrar a Vitória e os pais, os amigos, os amigos… um beijo, uma palavra, um olhar, um aceno, o meu pai… a corrida, a vida. Ali, para ser vivida e absorvida. E eu assim fiz. Vivi e absorvi. Cada gota de emoção e de sentimento entranhou-se-me no corpo e pelo olhar foi directo à alma, onde nem sempre é fácil chegar, e onde guardo tesouros.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Extremos

Não fossem estes extremos onde vivo, oscilando entre uma e outra ponta da corda em cada segundo que passa, habitando mundos distintos como a noite e o dia, e talvez tivesse feito um ou dois treinos de corrida esta semana, cada um de trinta ou quarenta minutos de duração apenas, mas ainda assim teriam sido feitos. E teria nadado um pouco, talvez outros quarenta minutos apenas, mas ainda assim, teriam existido esses minutos de exercício físico.

Não fosse este querer constante de tudo ou nada, esta mania de me entregar e amar por inteiro ou por inteiro abandonar e me abandonar, de dar tudo ou nada, e de achar que de outra forma não valerá a pena, e esta semana teria sido diferente.

Mas não foi. Factores externos facilitam o abate, a preguiça, a desistência, a inércia, a opção do fazer nada, prevalece facilmente sobre a opção de fazer alguma coisa por pouco que fosse. Aprendizagem constante da fácil lição mas difícil de colocar em prática nalgumas áreas da vida, pelo menos mais difícil numas que noutras.

Matérias simples como a diferença de comer uma bolacha de chocolate ou um pacote inteiro. A diferença de fazer 2 ou 3 treinos semanais de corrida de 20 ou 30 minutos apenas, ou fazer rigorosamente nada, parece matéria difícil para exame oral onde se privilegia a prática em detrimento da teoria. E esta semana ainda, eu não fiquei aprovada. Chumbei na totalidade das perguntas, e fui reprovada.

E falta apenas um dia para os 20 Km de Cascais. Mais uma vez, alinharei sem uma mínima preparação que considere suficiente.

Uma prova, um passeio em passo de corrida muito lenta, é o que se espera. Valerá a pena esta tentativa de percorrer a corda, de novo em sentido oposto ao que me encontro, pé ante pé, balançando sobre o infinito, mantendo-me segura ao invisível, num equilíbrio esforçado, na esperança de, de novo chegar ao outro lado sem a corda se partir?

Até amanhã querido diário

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

"Obrigado Senhor"

Continuando a história do meu pai como num livro que se lê, pouco depois da operação e do problema descoberto no coração que o impedia para sempre de correr, escrevi o que se segue:

"Obrigado Senhor!"

Sou um velho a quem, não os anos, mas sim a doença, tirou o prazer de correr.

Mas agradeço Senhor, por nesta minha vida me teres dado o dom de me saber reconhecer e encontrar quando me foi possível correr.

A minha vida foi sempre uma nulidade. Tinha a mulher e os filhos. Ganhava para eles, mas era efectivamente um pai e marido ausente. Abafado pela autoridade feminina da casa, isolei-me no meu trabalho, na Columbofilia, e também um pouco no álcool, confesso.

Os filhos cresceram, e eu estive sempre um pouco aparte.

Reformo-me, e com a minha filha, parece que agora, eu velho, ela mulher, nos encontramos, e dou, agora eu, os meus primeiros passos, na corrida. No pós-reforma, a corrida tornou-se então a minha vida! E fui feliz Senhor, nesses breves anos em que tive a dádiva de poder correr, e ouvir o bater do meu coração e os meus passos no chão, e encharcado em suor alcançar mais uma meta em cada prova em que participava!

E senti-me vivo, Senhor! Ah, Senhor, como fui feliz nessa breve passagem da minha vida (pouco mais de dois anos). Sentir o ar na cara e a minha alma elevar-se como nunca se elevara na vida! Tentar, arriscar, ousar, eram palavras que eu nunca usava e que com a corrida, foram todas postas em prática e superadas! Tanto que a corrida me deu!

Depois de me mostrares essa luz na vida, voltas a apagá-la, Senhor! Com esta doença é-me vedada a corrida e só me é permitido pouco mais do que caminhar lentamente.

Agora, vou ver a minha filha correr, e trémulo, seguro a mão da minha netinha e tomo conta dela para a mãe poder correr! Afinal, ainda sou útil. E alegro-me com as suas conquistas e assim vivo ainda um pouco a corrida, mas dentro de mim há um imensa tristeza apenas compreensível para quem ama a corrida. Todos os outros me chamam de louco, velho tonto!

Mas Senhor, quando por fim descansar no meu caixão, estarei feliz, porque vou olhar para trás e ver que nesta vida me foi dada a alegria de poder correr. Como aquelas coisas em que nem que fosse apenas uma vez na vida, tinha valido a pena! E valeu a pena! Obrigado Senhor."


Ana Pereira, 2003
Hoje... hoje ele é o Melro que conhecem! E está aí para as curvas! Não a correr, mas a fazer aquilo que pode: a caminhar, a tirar fotos, a conversar, a rir, a conviver e a viver momentos felizes. Porque enquanto há vida, há sempre alguma coisa para fazer e alguma felicidade para viver. Alguns desses momentos felizes:

Passeio Avós e Netos, com a neta, Lisboa, Março 2002:
Com a neta, em Março 2004 - véspera dos "30 Km Olivença - Elvas":
Grande Prémio Sálvio Nora, Serra da Freita, Verão 2006:
Corrida do Dia do Pai, Porto, 2007: Meia Maratona de Pombal, Verão 2007:
Manteigas -Penhas Douradas, Março 2008:
Caminhada - Maratona do Porto, Outubro 2008:
Grande Prémio do Atlântico, Costa da Caparica, Fevereiro 2009:


E eu? Eu hoje... não corri... outra vez... mas não pensem nem por sombras que isso signifique que os 20 Km de Cascais estão em risco de não ter a nossa digníssima presença: eu nos 20 Km e o meu pai na Rapidinha!

E haja pois muitos dias, e muitos anos, e muita saúde e muitas corridas e muita vida... para viver!
Até... amanhã... ou depois, querido diário