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domingo, 1 de julho de 2007

II Ultra Trail Serra da Freita – Memorial Sálvio Nora - 1 de Julho de 2007

Sálvio Nora, falecido em 9 de Maio de 2006:



Antes da partida dos heróis para os 50 Km:

Célia Azenha e Mayer Raposo:



A partida do Ultra Trail (50 Km):

O Caminho a seguir:

Partida! Aí vão eles:

O aquecimento dos 15 Km:
A nossa partida (para 15 Km apenas):

A minha chegada:


Acabei de acabar:

Já depois do banho, no pódio (Ah????? no pódio????):

II Ultra Trail Serra da Freita – Memorial Sálvio Nora - 1 de Julho de 2007

Desajustada e desalinhada é como me sinto aqui sentada ao centro desta tenda que mais parece uma pele de batata cozida pelada e encharcada em água que não pára de cair dos céus. Branda mas firme.

São quatro da manhã e sem sono velo pelos que dormem comigo. Tapo os pés ao pai e certifico-me que estes ainda não estão molhados. Passo a mão pelo corpito da pequena e alivio-lhe a roupa, pois transpira. Afasto-lhe o cabelo molhado do rosto e ela suspira alheia à água que invade o espaço. A minha almofada está encharcada e não volto a repousar nela o rosto.

Serra da Freita. Quatro da manhã. Interrogo-me que faço aqui. E não encontro resposta. Por mim. Por ele. Por ela. Por eles. Não sei. Pouca coisa faz sentido, e esta não é uma delas. Ou eu não o encontro com clareza. No entanto, estou cá. Com a única certeza do nada. Só que tinha de cá estar.

Sinto fome e conforta-me a merenda arranjada pelas mãos doridas de minha mãe, que também existe. Mastigo lentamente o pão com queijo enquanto eles dormem. E espero.

Cinco e quarenta e cinco e saio da tenda. Está escuro ainda mas já muitos se movimentam. Não chove agora. Quero vê-los partir. Para essa Serra que nos abraça e assusta também. Talvez um dia vá com eles. Admiro-os. Desejo força e coragem aos que encontro e trocam olhares comigo. Um misto de admiração e emulação invade-me. Deixo-os ir. Pela ainda noite dentro. Pela serra dentro. Que… qualquer coisa os proteja. Que cheguem todos em bem. Desejo-o como sempre desejo tudo: com o coração.

Fico e aguardo a minha vez. Fingir dormir e acordar. Levantar. Chamar a malta. A minha malta. Pequeno-almoço para eles que eu já não preciso. Agora sim, já há sol. Vejo amigos. Alegria. Já percebi porque vim. Por isto. Partem os caminheiros e depois nós. Vamos só fazer quinze quilómetros.

Serra dentro. Sou feliz quando corro. Ali. Sozinha ou acompanhada estive sempre acompanhada. Corro. Caminho. Paro e vejo bem onde estou. Que sou eu? Um ínfimo do universo.

As pedras, a vegetação, os caminhos criados e os acabados de inventar. Os muros saltados e os arranhões nas pernas e nos braços. A água que corre. O Sálvio em mente.

As graçolas ditas e ouvidas e os cheiros a verde. As aldeias e as vacas. O estrume fresco a tornar escorregadios os caminhos. As narinas invadidas. As gentes a ceifar erva e a foice que salto em pleno voo enquanto mãos enrugadas apanham a erva que os animais hão-de comer.

Os braços abertos com a desculpa de me equilibrar fazem-me voar. E eu gosto. Sobre os vales depois de subir os montes. E depois parar com a desculpa de descansar e olhar. Absorver e deixar-me ser absorvida também. Inalo o mundo. E o meu companheiro desta viagem acorda-me da letargia momentânea com um assobio, já no cimo do monte ele, com uma inequívoca pronúncia alentejana: “Atão? Que fazes aí?”

Sorrio. Cheia de mundo agora volto-me de novo para a subida e continuo a caminhar até ao cimo com a respiração ofegante.

E assim, com mais companheiros agora, chegamos de novo ao parque, onde está a meta, o meu amor e o meu pai. Ambos de máquina fotográfica em punho. O que eles não sabem é que a melhor foto tirei eu. A imagem deles à minha espera gravei-a na retina e está já em lugar de destaque no álbum da minha vida, aquele que nada destrói. Nem o fogo nem a água. Só a morte. Mas essa, quando vier, já será tarde, pois este feliz momento já ninguém nos tira.

O cronómetro marca 2h15m. Mas que importância tem isso? Sinto-me tão feliz.

5 comentários:

Anónimo disse...

Olá Ana

Que grande fim de semana! Que noite de Verão que vocês apanharam né? O tempo parece que vos pregou uma partida mas sei que tu és uma "mulher de armas" e nada te faz nunca desistir dos teus objectivos. Julgo que até tiveste uma certa pena de não teres alinhado na prova maior e já deves estar a pensar que para o ano a vais fazer aconteça o que acontecer, estejas bem ou mal preparada, tenhas 70 ou 50kg.

Eu não gosto lá muito das provas de montanha pois em metade das provas que já efectuei e pertencentes ao Troféu de Montanha acabei sempre por me enganar no caminho e quanto a acampar também não é lá muito do meu agrado.

Resta-me dar-te os parabéns pela prova que efectuaste e quanto ao tempo gasto, o mais importante é que chegaste ao fim e satisfeita.
Aproveito para também dar os parabéns a todos os outros "aventureiros da Freita" e julgo que o nosso inesquecível Sálvio também ficou satisfeito com este evento efectuado pelo nosso "padre das corridas".

Um beijinho
Fernando Sousa

Lénia disse...

Bonita aventura, Ana.

Quem me dera ter estado aí. Adoro acampar, adoro a Natureza, adoro o Norte de Portugal, por isso tenho a certeza de que teria sido engraçado para mim. Mas como sabes também, essas viagens pagam-se. Viver aqui nesta pontinha às vezes torna difícil o acesso a esses eventos, que parecem acontecer mais no centro e centro-norte.
Certamente, ficará para uma próxima.
Espero que te tenhas divertido, parece que sim. 15 kms em corta-mato não terá sido pêra-doce, não?

Muitos parabéns, de certo que o Sálvio assistiu a tudo com um enorme sorriso nos lábios, graças a vocês.

Beijinhos Ana e até ao Alentejo, no final do mês.

Anónimo disse...

Olá, Ana.
Estes textos, escritos com a alma, são das coisas mais tocantes que encontrei. Com este não só nos faz estar lá na Freita a ver as paisagens e as cores, a sentir os cheiros, a imaginarmo-nos a "escorregar na bosta"... como também nos faz sentir a emoção vivida.
Como sempre, imperdível.
Beijinho
Fernando Andrade

André Vila Alves disse...

Olá Ana.

Que belos momentos deve ter passado. Pelo que sei a prova é espantosa. Espero que venha a participar nos 50 Km, eu também espero um dia ter pernas e coragem para tal. Beijinhos.

José Capela disse...

Olá, Ana

A tua crónica é uma bela homenagem ao Sálvio Nora, pessoa que não conheci, mas sei que foi uma pessoa admirável, apaixonado pela escrita e pela corrida.
Ele merecia que estivesses feliz no fim da corrida. E tu estavas!!!

Parabéns
Beijinho

José Capela