Só pelo facto de se conseguir manter uma prova durante 28 anos, é meritório de admiração e de parabéns. Fazê-la chegar ao nível com que ela hoje se apresenta, torna-a digna dos maiores aplausos, tantos ou mais quanto o público que enche as ruas de Peniche presenteia os atletas.
Conheço-a há cerca de 12 anos apenas. Mas desde logo me apercebi que é das provas que devem fazer parte do currículo de todos os atletas que se prezem.
É lá que tenho a minha melhor marca aos 15 km (1h04m). Num percurso certificado. O que tem importância. Até para atletas como eu.
A nível de inscrições, considero o valor justo para o que nos é oferecido. São feitas de forma que considero acessível e é fácil e expedito o contacto com a organização – Câmara Municipal de Peniche - para eventuais dúvidas ou esclarecimentos.
Já a entrega de dorsais, esteve um pouco aquém do nível da prova em geral, que considero muito bom. Problemas a nível de sistema informático registavam como dorsais levantados na totalidade, os de uma equipa desde que, e mesmo que apenas 1 elemento tivesse levantado apenas 1 dorsal pertencente à equipa. E quando solicitado o contacto do elemento que efectuou o levantamento, constata-se a falha de que esse registo não é feito. Perante a minha insatisfação e insistência que não tinha combinado com ninguém para levantar o meu dorsal, lá resolveram verificar melhor e de facto o meu dorsal não tinha sido levantado e estava lá. A mesma sorte já não tiveram outros colegas de equipa. Um lapso. Grave, sob meu ponto de vista.
A partida foi dada a horas e juntou perto de 2000 atletas para a prova principal (15 Km) e cerca de 2500 para a Mini/Caminhada, de 6 Km, num ambiente festivo, onde senti falta dos animadores a que já nos habituamos noutras provas e que nos incentivam de forma enérgica a um aquecimento na base da ginástica aeróbica ao som de música, acabando sempre com muito bons e correctos alongamentos, preparando-nos de facto para o início da corrida.
Partidas dadas em separado, com tiro e foguetes e muito público a dar-nos a maior força em palavras, gestos, olhares e sorrisos.
A uma dada altura corremos ao lado dos caminheiros e isso não é bom. Essa parte deveria ser numa faixa mais larga. Por muito que se vá apenas para usufruir da corrida, os caminheiros em situação alguma deveriam impedir o andamento dos corredores, seja lá que andamento for, e isso aconteceu ao longo de talvez uns 2 kms (no meu caso, no meu andamento).
A passagem pelo local da meta, onde “deixamos” os caminheiros, dá-nos um alento invulgar. De novo, um mar de gente iluminada contagiou-nos com a sua força, que tenho a certeza nos foi transmitida para prosseguirmos caminho. Junto à Fortaleza, chegam-me ao ouvido as palavras de Sérgio Godinho, claras como um dia soalheiro “Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida”. Nada que se adequasse mais. À situação, a mim. Dá-me vontade de chorar, mas sorrio. E sigo.
Sigo para penetramos na já noite agora. Estrada junto ao mar, num negrume total, uma fogueira lá à frente para nos guiar. Os salpicos do mar, o cheiro, os nossos passos, e os compassos dos corações. A chama chama-me e sigo-a cega com a luz ao fundo. Várias subidas e descidas. Várias fogueiras. Fantástico. Por estes momentos, perdoa-se todos e quaisquer pontos em que a prova estivesse menos bem. Animação junto às fogueiras. Voluntários, membros da organização, e gente. E vozes, e palmas e cantos. Sou impelida para a frente. Não sinto as pernas. Apenas o coração. Água suficiente ao longo do caminho.
A chegada a Peniche enche-nos de novo ânimo, corremos agora para a meta de novo num corredor de gente que nos aplaude. Somos queridos ali.
A meta aguarda-nos onde a cortamos com prazer. Prazer como em mais nenhuma corrida se tem. A Corrida das Fogueiras, pelas características acima descritas, é de facto única. De um carisma invulgar e único no nosso país. Criado há 28 anos e que se deseja que se mantenha.
Os prémios de presença são entregues aquando da entrega dos dorsais. Uma t-shirt original e bonita, um troféu que muito pessoalmente opino que As Fogueiras mereciam muito mais: um banal troféu de plástico transparente, muito “foleiro”, mas isto não passa apenas da minha mera opinião pessoal. Uma lata de sardinhas terminava o saco de plástico que apesar de ter inscrito o logótipo da prova, a esta hora já deve estar a fazer de saco para o lixo em maior parte das casas. As Fogueiras mereciam também um saquito melhorzinho. Uma prova destas merecia um medalhão. Sem dúvida alguma.
Talvez o orçamento não tenha chegado para mais, e assim já está muito bom, mas podia estar bastante melhor.
Atletas controlados através de chip electrónico e classificações enviadas pouco mais de 1 hora após o final da prova, individualmente para o número de telemóvel deixado por cada atleta, com marca, e classificação na geral e no escalão. Apesar de enganos, é um serviço bom, mas seria melhor sem enganos: recebi a classificação de outro atleta e só hoje a minha: Dorsal 1984 ANA PEREIRA 01h29m41s (este é o meu tempo real); Geral: 95ª, Escalão: 35; SAUDAÇÔES DESPORTIVAS. Um serviço original, mas que não dispensa as classificações na Internet, o que me parece que até esta hora (a 48 horas da prova) ainda não esteja disponibilizado.
Com esta marca (fraca sem dúvida) tirei 4 minutos à Corrida das Festas Cidade do Porto, na semana passada em que na mesma distância e num percurso praticamente plano gastei 1h33m. E agora em Peniche, levada sabe-se lá por quê, num percurso desnivelado, fiz menos 4 minutos. Só se explica pela frescura em oposição ao calor que fez no Porto.
No final da prova, um convívio onde se ofereciam sardinhas, mas que eu dispensei pelas muito más experiências de anos anteriores. Admito que uma sardinhada para milhares de pessoas não seja das coisas mais fáceis de organizar e controlar, e o português, como os outros, mata-se por uma sardinha. Também agora com a crise que o país (algumas pessoas do país) atravessa, até poderia facilmente compreender (mas não compreendo!) que se encham geleiras de sardinhas para levar para casa enquanto outros ainda das sardinhas só sentiram o cheiro, mas ainda assim, preferi eu ir para casa digerir a prova, com a barriga cheia do cheiro do mar e envolta no brilho e no calor das fogueiras, contrastando com a brisa fresca que vinha do mar.
Pensei no Paulo, um amigo de quem fui forçada a despedir-me esta semana. Pensei que um dia acabarei, como ele. Como todos nós. E um dia nada disto será possível. Mas só tenho na cabeça as suas palavras: Viver! Viver sempre! Enquanto cá estamos! E enquanto cá estiver, e mesmo depois, que venham mais Fogueiras. Conto desde já estar presente na 30ª edição!
Ana Pereira
28 de Junho de 2008