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quarta-feira, 27 de junho de 2012

"A Corrida Volkswagen, pela Maria", "Conversa da Treta" ou "Prenúncio"

Assim que teve conhecimento da Corrida da Volkswagen, de imediato sentiu o apelo, pela originalidade, oportunidade de conhecer e correr num cenário bem distinto dos usuais e este "conhecia" ela bem mas apenas por relações profissionais e nunca no terreno, e por tudo isso, numa questão de horas estava inscrita. O dorsal 64 pertencia-lhe e as expectativas foram sempre aumentando assim como o seu entusiasmo, até ao dia da Corrida. Inversamente mas na  mesma proporção, esteve a sua preparação, pois a perna continua a doer-lhe de forma contínua e progressiva, e na tentativa de a poupar, os treinos têm-se resumido a correr nas provas aos domingos (errado!)

E neste estado, chegou a sábado, véspera da prova e cumpriu uma lista de tarefas que se dispôs a fazer, das quais se destaca pela sua importância, ter ido dar sangue de manhã e levantar o dorsal da prova à tarde na Soauto, concessionário Volkswagen à beira Tejo plantado.

Domingo. Dia da prova. Um nervoso miudinho sem razão aparente ou visível. Excitação, entusiasmo e medo dissimulado. Sim, medo. Não sabe se consegue correr sem coxear, e se aguentará as cerca de 5.000 passadas que a sua perna esquerda terá de dar e igual número de impactos no solo duro de asfalto a provocar invariavelmente a difusão da dor desde meio da canela até ao joelho, como feixe de luz ou cor a percorrer-lhe a tíbia, por vezes a ameaçar uma falta de força na perna que a fará cair, que até hoje ela conseguiu evitar, precipitando a passada da perna direita e avançando mais um passo.

O ambiente é muito festivo. Depressa encontra os seus amigos. Um, outro, ali outro, e mais outro. E sempre a Corrida à sua espera para a abraçar. Está em casa, portanto.

Bebe um bom café das máquinas disponíveis, vai à casa de banho e depois atreve-se a aquecer tentando acompanhar a coreografia dos animadores ginastas, mas depressa percebe que não pode saltar pois é o pior que pode fazer para acordar a dor aguda. Faz outros movimentos deixando-se contagiar pela música e completamente indiferente à figura que deve estar a fazer tal é a sua falta de coordenação e flexibilidade. Vai depois correr um pouco, já quente, e é hora de alinhar na Partida.

Parte no 1º terço do pelotão. Está animada e sente-se enérgica (só pode ser o efeito do café), e avança relativamente bem talvez nos primeiros 3 kms. Depois, sente já o efeito da falta de treinos, sente-se cansada e a perna doí cada vez mais. Modera o passo, e tenta correr sempre a proteger a perna esquerda.

Começa a ser ultrapassada por todo o cão e gato, e é por esta altura que lhe assalta o pensamento uma expressão bem conhecida e que se aplica irónica e literalmente nesta situação "Fiquem lá com a bicicleta!". É que o prémio para os primeiros era uma bicicleta... e se porventura ela se considerasse uma candidata (como nos tempos em que fazia os 10 km em 40 minutos), a partir de determinada altura, desiste de lutar, abranda drasticamente e só quer é acabar! "Levem lá a bicicleta", e ri-se para si mesma, conformada e satisfeita só pelo simples e magnífico facto de estar ali a correr. Claro que jamais se considerou candidata à bicicleta e este pensamento foi uma resposta humorística e sarcástica do seu subconsciente, para o facto de se estar a sentir mal. De se estar a sentir derreada, derrotada, não tanto pelo parte respiratória e muscular (mas também) mas principalmente derrotada pela danada da dor na perna.

Sente vontade de chorar por instantes (menina mimada e mal agradecida pela benção que é a sua vida!!!), mas sorri. Sorri aos amigos que a passam e  a cumprimentam. Aos já conhecidos e a desconhecidos que a cumprimentam, que a "conhecem" precisamente deste espaço onde escreve o que lhe vai na alma.

Numa corrida com cerca de 1250 participantes, parece-lhe que nunca tanta gente a tinha abordado como nesta prova. Amigos amigos, que lhe conhecem o nome e muito mais, e depois imensos conhecidos e desconhecidos, que a tratam por Ana, por Maria,  por qualquer coisa como "é aquela rapariga que tem um blogue...uma vez apareci lá numa fotografia...até deixei um comentário".

As conversas distraem-na e as caras e as vozes que variam (pois está a ser ultrapassada por "n" atletas), dão-lhe alento mas também não deixa de sentir tudo aquilo como um prenúncio. Um prenúncio do fim. E é aí que lhe apetece chorar outra vez. Como se todos se despedissem dela... Até a própria Corrida parece levá-la em braços, com suavidade e doçura, muito devagarinho, para a depositar em lugar seguro daqui a nada e a abandonar.

O mundo de cada um a cada um pertence, a não ser que deixemos alguém entrar, e ela não deixou. Não naquela hora que duraram os seus 10 Km. Hoje, está aqui, como livro desenvergonhadamente aberto nas páginas centrais, mas hoje, já o seu mundo é outro e o livro já tem escritas mais páginas.

Desperta-a de novo o Pedro Carvalho que acompanha o Hugo, um amigo estreante e que também a apanham vindos de trás do pelotão. Não os acompanha mais de alguns passos. Algumas (poucas) palavras trocadas e está de novo no seu mundo. Km 7 e entra-se na fábrica. A Corrida já a leva ao colo. Alguém a avisa que está ali o seu pai, e anima-se a sério. Corre. Parece que tem força de novo nas pernas. Entra mesmo nos pavilhões da fábrica. Uma sombra refrescante e um cenário deslumbrante. Uma fábrica de produção automóvel. Não percebe nada, apenas o suficiente para perceber a magnitude da indústria automóvel, as linhas de produção, de controle, qualidade e automação. Anima-se. Transcende-se para um patamar qualquer da existência e corre com mais energia. Recupera alguns lugares e apanha o Pedro Carvalho e o seu amigo Hugo, o estreante. Fala, está contente, animada de novo e vai com eles. A dor lembra-a que não se deve esticar tanto, mas disfarça, embora no seu íntimo tema seriamente que "quebre" e vá parar ao chão numa queda aparatosa ou não. Os empregados da fábrica, a Cruz Vermelha, os bombeiros, os seguranças, os diversos elementos da organização, dão-lhe uma força especial. Ajudam-na a avançar sem o saberem. Ou talvez o saibam e por isso ali estão.

Já há muito que agradeceu a boleia nos braços da Corrida e pediu-lhe que a colocasse de novo no chão. Agora corre pelos seus próprios pés, e alcança a meta triunfante e vitoriosa. Pateta, pensarão alguns, mas ela já se dá por feliz por o prenúncio, apesar de continuar a pairar sobre ela, ficou ainda por se cumprir, e foi-lhe possível terminar mais esta prova, sorrir, abraçar e ser abraçada. Agradece a todos que contribuíram para que ela tivesse uma manhã melhor e despede-se sem saber até quando, sendo quase certo no entanto que não vai pôr os pês nas Fogueiras... mas com ela... nunca se sabe!

16 comentários:

Joana disse...

Olá!

Lamento imenso que a corrida não tenha corrido tão bem, mas sinceramente vou puxar-te um bocadinho as orelhas: então vais dar sangue na véspera de uma corrida? Isso não é nada responsável!

Os próprios médicos aconselham a não fazer exercício físico intenso a seguir. Ainda demoras algum tempo a repor o sangue que te é retirado Maria, e correr nessas condições é quase desumano... Não brinques com a tua saúde, porque nós gostamos de te ler e precisamos que estejas boa e a sentir-te bem ;)

Beijinhos e boa recuperação :)

Henriqueta Solipa disse...

Ai Ana!

Que pena essa tua dor te atrapalhar... mas quando ficaste assim?

Mesmo assim terminas-te sem cair e a desfrutar a prova, essa recordação é tua... para o ano é melhor!

Tenho pena se não te vir nas Fogueiras, para mim vai ser a 1ª vez que vou e estou muito animada com o que me contam :-)

Quanto a ti se tens essa dor deves mesmo descansar...

beijinho e as tuas melhoras....

Anónimo disse...

Já está na hora de enfrentar decisivamente essa lesão. Um dia destes, nem a alegria afasta as muletas. Trate-se pfv...

afca disse...

ânimo Ana,
desejo-lhe as melhoras repidamente!

Pedro Carvalho disse...

Bela crónica Ana, seria perfeita não fossem tantas palavras sobre essa arreliadora lesão. Mas como falámos, tenta aproveitar o verão para a curar.
Gostei da tua companhia, obrigado.

Já ponderaste as Fogueirinhas?

Um beijinho grande e as tuas melhoras.

Jose Xavier disse...

Olá Ana;


Isso de dor em dor, não é aconselhável, continuar em provas. Os excessos podem ter reprucursões irremediáveis.

Ter alegria na corrida com uma mistura de dor é que não é nada compatível.

E que tal, parar umas semanas, procurar um fisioterapeuta, e depois fazer um periodo de treinos de recuperação.?!

Olha a Amélia esteve 4 meses parada, ontem foi experimentar uma corrida de 30 minutos só em relvado, e tem feito Pilates últimamanete.

Força....!! e boa recuperação.

Um abraço
dos Xavier's

Jorge Goes disse...

Olá Ana, como seria de esperar mais um excelente relato na 1ª pessoa de uma corrida que certamente ficará no calendário futuro das provas que realizarei. Pois o que dizer...Foi com alegria ( e alguma sorte) que a vi chegar num esforço derradeiro mas sem perder o sorriso, lamento não a ter podido cumprimentar de forma diferente mas fica para uma próxima oportunidade. Agora é tempo de abrandar, recuperar e ganhar balanço para outros desafios.

Jorge Góis

inês disse...

Olá Maria.

Como sempre é uma emoção ler-te. Estou aos pouquinhos a ler o teu blog desde o início e estou fascinada com tanta vitalidade e imaginação =)

Gosto que corras sempre com o melhor de ti, e acima de tudo com muita descontração. Afinal correr é para ser divertido.

Espero que nos voltemos a juntar um dia destes

beijinho
A Inês da corrida de Sto António

Sergio disse...

Ana
parabéns pela força de ter terminado a corrida!
Concordo, entretanto, com os amigos em que tens de se tratar para que a contusão não se torne crônica.
Estimo melhoras!
beijos do Brasil,
Sergio
corredorfeliz.blogspot.com

horticasa disse...

Bem!
Nem digo nada, só pergunto, já foste ao médico? não?
beijinho

Bluewater68 disse...

Ana, quem sou eu para sugerir fazer assim ou assado, quando eu próprio me faço de surdo perante os conselhos que me vão dando com as melhores intenções possíveis. Eu quero é correr, treinar sem limitações e, sobretudo, entrar em provas. Pior no meu caso em que as provas de triatlo são poucas. Umas 4 a 5 por ano onde é viável participar. Já falhei uma e vou falhar a próxima. Tudo porque ontem fui fazer a ecografia, onde identificaram uma rotura dos gémeos, além de outra rotura num tendão do joelho (estou a falar por alto pois só na 2ª Feira é que terei o relatório nas mãos). Isto quer dizer que vou ter mesmo de parar com a corrida. Tenho corrido, tenho tentado treinar, mas é sempre com desconforto. E assim não dá. Por muito que me custe, vou ter de parar. Vou ter de curar isto e ter a certeza que posso voltar a correr em condições.
Eu venho sempre aqui ver as novidades e ler com emoção os textos que contam o desenrolar das provas. E nos últimos, custa ver que a participação nas provas é feita com enorme sacrifício e dor. Por isso, se me é permitido, a minha sugestão, a mesma que eu não quero ouvir, é que se vá a um especialista avaliar isso, fazer um exame se necessário e, parar até que tudo volte ao lugar.
Força, ânimo e coragem!

Sandra disse...

Ai, Aninha! Essas dores da perna, que se tornam em dores da alma, que não matam mas moem...! Não achas melhor ir a um fisioterapeuta ver bem o que é isso? Podes precisar simplesmente de usar palmilhas anatómicas, por exemplo... mesmo assim, admiro a tua coragem, e partilho o teu espirito de sacrificio. Sei bem o que é andar a correr menos bem, com dores na perna, ou no joelho, que o melhor era parar por uma ou duas semanas, mas a gente NÃO PODE! Simplesmente não podemos parar de correr, né?... Também a mim me correu muito nal, por exemplo, a Corrida das Lezirias, há uns meses atrás... senti precisamente o que descreveste aqui: a meio da prova, senti um cansaço, desgaste imenso, desmotivação, sentir toda a gente a ultrapassar-me, enfim, "desisti" de fazer algum tempo de jeito (da prova, não, era só o que faltava! De uma prova, nunca desisiti) e só pensei "vamos embora, acabar isto, apenas, apenas chegar á Meta, pronto!..." mas é triste, quando tentamos sempre melhorar o nosso tempo, e treinamos tanto...
Trata dessa perninha, e continua a correr e a escrever tão bem como tu sabes, como ninguém, que espero voltar a encontrar-te nalgum destes dias, numa prova. Eu vou ás "Fogueiras" tentar não baixar o meu tempo nesta corrida, mas como te digo, o meu joelhinho esquerdo também me anda a sabotar, o malandrinho. Mas estou a controlá-lo!...
Beijinhos, querida Ana
e bons treinos, de preferência "mais" treinos, não só as corridas ao Domingo!...

Sandra Silva

Fernando disse...

Olá Ana
Finalmente tive oportunidade de estar frente a frente com a lenda dos relatos das corridas. Sempre sorridente e bem disposta, contagia tudo e todos com o seu exemplo em enfrentar os desafios (quilómetros) desconhecidos. Obrigado por mais este relato.
Quanto ao sentimento de "talvez não conseguir acabar a prova", tive um episódio semelhante. O calor era tanto e as rectas tão compridas, o ritmo tão elevado, a quantidade de corredores a ultrapassarem eram tantos, ... , que cheguei a perguntar-me a mim mesmo o que estaria ali a fazer. Sei que não procuro lugares de pódio, não anseio competir com ninguém em especial, apenas comigo mesmo, mas a intensidade do esforço era tanta que cheguei a pensar em desistir de participar em corridas de todo. A única lesão que tenho não me impede de correr mas inspira cuidados que observo com rigor (tendão de Aquiles). Nem sei o que sugerir, apenas manifesto aqui os meus votos de rápidas melhoras e boa recuperação. Às vezes é preciso dar tempo ao tempo. Beijinhos

Jorge Branco disse...

“Pikena” não vou falar do que já sabe: que tem de curar essa perna, que a andar assim a situação ainda se agrava mais.
Também não vou falar da triste realidade do atleta de pelotão em Portugal que tem enormes dificuldades no acesso a cuidados de saúde na área da medicina desportiva (quantos e quantos Portugueses não estão privados mesmos dos mais básicos cuidados de saúde?!).
Não hoje não quero falar de nada disto.
Quero apenas curvar-me, humilde e respeitosamente, perante a excelente qualidade literária do texto que aqui escreveu.
Anda por muito boa gente a escrever livros (e o mais triste é que até são muito vendidos) que não chegam, nem de perto nem de longe, a sua qualidade enquanto escritora.
Sim escritora! Escritor não é aquele que escreve e pública um livro mas sim aquele que sabe passar os sentires da alma para uma folha de papel. E a Ana faz isso como ninguém!
Rápidas melhores! Cuide de si! A gente precisa da Maria Sem Frio Nem Casa!
Um beijinho.

Luciana disse...

Olá Maria!
Eu gosto mesmo de ler os teus relatos das provas. Transmites as emoções como se nós estivéssemos a viver a mesma experiência.
Tu própria tens consciência de que tens de resolver o que não está bem e o teu pai ainda vai querer assistir a muitas provas tuas, por isso, tens mesmo de pensar em ti e no teu corpo!
Para o ano também há Fogueiras :)
Beijos grandes e fica bem!

S* disse...

Ai ai ai... estou com a Joana... dar sangue é que não.