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sábado, 29 de março de 2008

6º Trilhos de Mogadouro - 29 de Março de 2008

Confesso que temi não “chegar” aqui. Mogadouro. 500 km separam-nos e no entanto, “cheguei” outra vez. A extensa lista de argumentos, onde (principalmente) por inércia acrescentei nas duas últimas semanas a falta de preparação, que sustentava o cancelamento da minha participação, foi rasgada com o apoio da minha mãe, do meu pai e da minha filha. Também com a ajuda de algumas palavras deixadas aqui por alguém, amigo, conhecido ou desconhecido. Para isso serve também a porcaria de um blog.

Chego e Mogadouro recebe-me:

6º Trilhos de Mogadouro – 29.03.2008

Prova organizada pela Federação Portuguesa de Montanhismo e Escalada e Terras de Aventura, em conjunto com o Município de Mogadouro, foi a 2ª do CIRCUITO NACIONAL DE MONTANHA SALOMON 2008.

A prova, na distância de 13510 m , teve partida em frente à Junta de Freguesia de Valverde e meta na pista de atletismo do Estádio Municipal de Mogadouro. Percurso em estradas de terra sem dificuldade de maior em termos de piso, mas com desnível significativo, e que passa por pequenas aldeias e/ou lugares mais recônditos de Portugal.
Em simultâneo realizou-se uma caminhada sem intuitos competitivos que conseguiu juntar vários e entusiastas participantes.

Prémios monetários e troféus para os primeiros, quer na classificação geral, quer no escalão, o que pela falta de participação feminina me veio a calhar EUR 10,00 mesmo tendo deixado apenas 1 ou 2 atletas atrás de mim na classificação geral.

Levanto a questão se participante com tal desempenho seria meritória do prémio e não encontro resposta, pois as que surgem não me são claras. Claro é sim, que a fraca participação feminina continua. Nesta prova, foram classificadas 5 Veteranas e 4 Seniores, escalão este em que ficou dinheiro por dar, pois era até à 5ª classificada.

Uma t-shirt, vários biscoitos e chocolates, sumo, água e iogurte compunham o saco do prémio de presença.

Saliento de positivo a aprimorada sinalização, até para mim que tenho fraca orientação e fiz a prova sozinha em mais de 80% do tempo/percurso. E não me perdi.

Também a chegada dentro do Estádio, com a volta à pista é sempre (ou quase) a garantia de um cortar de meta bonito e digno. E neste caso foi. Até eu tive uma chegada “bonita”. Balneários disponíveis a todos os participantes.

Ainda os abastecimentos estiveram bem, assim como os meios de socorro a que tive a infelicidade de (ou a felicidade de ser eu a) assistir em plena serra.
E de referir também o transporte de atletas e caminheiros em autocarro entre a partida e a meta, antes e depois da prova.

Também por tudo isto, Mogadouro convida a voltar e só percebo a fraca participação numa prova que vai na 6ª edição pela localização geográfica.

Depois da minha participação em 2004, 2005 e agora em 2008, continuam Os Trilhos de Mogadouro – Amendoeiras em Flor a ser uma prova que aconselho entusiasticamente a amantes (e pretendentes) da natureza e da Montanha.

bastantes mais fotos de Mogadouro e da prova no meu Álbum:
http://picasaweb.google.pt/anamariasemfrionemcasa
da minha autoria e de meu pai, António Melro Pereira

Junto ao Estádio Municipal de Mogadouro, antes do autocarro nos levar para a partida, em Valverde:



A imitar a minha amiga Lénia quando acaba as provas, mas eu aqui, tal era a confiança (que queria transmitir) que foi mesmo ainda antes da partida:


Já em Valverde, a partida dos Caminheiros:


A chegada ao Estádio municipal de Mogadouro: meu pai

A minha chegada:


A receber o prémio por ficar em 5ª VF, o que hoje equivale a dizer em última no escalão, pois classificaram-se apenas 5 Veteranas Femininas:



Agora a minha aventura em terras de Mogadouro:

Gostei de ver que estão a recuperar a torre do relógio e outro edifício que vi “a cair” em 2005. Parabéns às gentes de Mogadouro que o estão a tratar.

Eu sabia que não ia ser fácil. Olhem o gráfico da prova:
Tinha dormido apenas uma hora. Afazeres mais insónias é no que dá. Saio de casa às 5Hrs da manhã, apanho o meu pai e ao fim de 500 km e quase 6 horas aterro em Mogadouro.

Estou feliz por ter conseguido ir. Mas à medida que a hora se aproxima questiono-me se teria sido de facto a melhor opção. Temo que não consiga fazer a prova. Já não corro desde… a última vez e não me lembro quando foi a última vez, e não me apetece vasculhar neste blog até encontrar a última vez que corri!

Aguardo já dentro do autocarro que me levará ao ponto de partida: Valverde. Atletas com pinta de atletas! E … eu! De repente entra no autocarro um amigo meu, praticamente meu vizinho (há mais gente a percorrer 500 km para participar nos Trilhos de Mogadouro). Senta-se atrás de nós e vamos conversando enquanto o autocarro avança já. A conversa descontrai-me.

Já em Valverde vejo partir o meu pai para a caminhada e depressa chega a minha hora. Estou mais descontraída. Vou fazer a minha prova.

Mas cedo vejo que a minha prova é mesmo só minha, pois todos desaparecem à minha frente e sei que atrás de mim não estão mais que 3 ou 4 atletas.

Não importa. Corro para ganhar, de facto. Mas não ganhar a corrida. E avanço pelo campo, entrando na Montanha quase sem dar por isso. Mas ela não se compadece com garotas que a subestimam. A Montanha é dura. Pode engolir-nos, empurrar-nos sem dó ou abraçar-nos maternalmente. Sou tão pequenita. Ela olha-me do alto. Magnífica. Respeito-a. E quero-a. Cada vez mais.

Caminho, corro, caminho. Cada metro que fosse que existisse inclinado, obrigava-me a caminhar.

Vale o rosto das gentes dos sítios que atravessamos. Bocas desdentadas e olhos brilhantes. Batem-me palmas nos seus trajes escuros e emanam uma luz que me ilumina. Rasga-se-me no rosto um sorriso que suponho bonito. Ganho. Forças.

Mas de novo Ela. Implacável. Vence-me. E amaino forças sem resistir. Estou nas mãos e nos braços dela. Com um sorriso agora Ela também, leva-me ao colo, embala-me e posso jurar que ouço uma canção entoada baixinho.

Quando me pousa de novo no chão, estou de pé e corro, corro até mais não, temendo que na próxima passada as pernas se dobrem não suportando mais o meu peso e o impacto de cada passada vigorosa no chão.

Vejo-me acompanhada por um outro participante e juntos seguimos a correr até à meta. Entramos naquele Estádio, damos a volta e cortamos a meta.

1h37m38s marca o meu cronómetro. Prometo: para o ano outra vez sim, mas melhor preparada, o que não será difícil, visto a ausência de preparação deste ano.

- Pai! – está ali o meu pai, aguardando-me sempre e queixa-se ele também da dureza da caminhada.

- Desculpa… - não sabia que Ela também tinha sido dura para eles.

7 comentários:

António Bento disse...

Olá Ana
boa boa, parabéns pela conquista e pela superação do desafio. já está! ninguém a tira!
bjinho
até breve
ab

luis mota disse...

Parabéns Ana!
Ao ler a tua crónica, identificava-a com o que se passou na prova da Sertã.
Realmente o atletismo necessita de mais praticantes, dos escalões mais jovens e de um modo geral do sexo feminino.
Verificamos nas provas que muitos são os veteranos com melhores resultados que séniores. Pelos vistos, nem com dinheiro aparecem atletas!
Mas, se tiveres oportunidade participa em alguma prova da região da Sertã. É mais perto e é uma terra muito bonita.
É também um local ideal para passear em família.
Luís Mota

Fátima disse...

Ana, tens razão nem te respondi se ía a Leião, e não fui. Já tinha lido esta tua odisseia, sei que gostas dos trilhos, e muitos parabéns pela tua vitória e tens toda a razão existem poucas mulheres a correr. Admiro-te por fazeres tantos kilometros. admiro-te pela perserverança, e há dias que custa tanto as mulheres fazer o que gostam. Beijoca
Continua.
Fátima

JOSÉ MANUEL D.LOPES disse...

PARABENS
MAIS UMA PROVA SUPERADA DO "PLANEAMENTO ANUAL INDEFÍNIDO"
(risos)
Continue a correr
Com os cumps
J.Lopes

António Almeida disse...

Olá Ana

Da "Maria Sem Frio Nem Casa" comecei por gostar e continuo a gostar muito do modo com escreve, muito mais que pelos seus feitos atléticos, se bem que os mesmos não fossem de desprezar de modo algum antes pelo contrário, mas nos últimos tempos os desafios que tem superado com reduzida preparação para os mesmos fez aumentar ainda mais a admiração por si também nesse campo.
Grande Ana "Maria" Pereira.

Paulo disse...

Boas Ana,
visita esta blog:www.kurtebikes.blogspot.com
Força rapariga.
Quando passares a Vila das Aves liga.
Abraço,
Paulo

José Capela disse...

Olá Ana,

Belas fotos e bela crónica!

Ahhh...e claro bela corrida, estiveste muito bem para o grau de dificuldade que a montanha sempre coloca.

Mas tu és uma mulher de garra, na corrida como na vida o importante é não desistirmos quando surgem as primeiras contrariedades.

Beijoka

José Capela