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segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Deus e Margarete

Talvez se atirem a mim como cães. Talvez fira susceptibilidades e não fique nada bem vista. Talvez pareça mal e me ficasse melhor outra postura mais … polida.

Mas este blog não serve esses fins. Serve outros. É o espelho de mim, onde por mais voltas que dê, a imagem será sempre eu própria, onde eu me reflicto e que me faz reflectir. Psicanalista barato e à mão é o é este blog, pois não tenho dinheiro para outro.

Dia 30 de Agosto de 2007 – aniversário da Margarete

“Margarete, neste dia que devia de ser de alegria, sem te conhecer, quero dar-te os parabéns , e dizer-te que muito te admiro e que gosto de ti (pelo que a tua mãe e a minha Mafalda me transmitem sobre ti). Não tenho mais palavras querida. A vida é um mistério que jamais será descodificado. De uma coisa tenho a certeza: não mereces a dor que a vida te tem infligido. Queria dar-te um beijo e que o teu sofrimento parasse permitindo um sorriso nesse rosto de olhar radioso que sei que tens. Desculpa este atrevimento mas também tenho uma filha, hoje com 10 anos, amanhã não sei, e a tua situação sinto-a e faz-me sair estas palavras do coração. Não sei se compreendes… Desculpa… e um beijo sem mais sofrimento menina. Um beijo à Paula também, tá? Ass: mãe da Mafalda”

Sensivelmente 24 horas depois de enviar esta mensagem, o seu sofrimento parou.

E 48 horas depois dei-lhe um beijo no seu rosto frio, onde já não havia mais sofrimento. Um beijo natural mas sentido numa cara de menina, boneca, um afago no cabelo, de forma tão natural e sentida como o faço à minha filha, e com o único consolo que o seu sofrimento cessou.

Agora Deus! Deus ou os Homens? Compreendo mas não aceito! A fé de cada um a cada um diz respeito, mas assistir impávida e serena a verdadeiras atrocidades e blasfémias a sair da boca de um clérigo que vomitava frases feitas há muito decoradas e sobre as quais já nem ele próprio deve saber o sentido, foi-me deveras difícil manter quieta e calada no meu lugar!

Devo esclarecer que fui criada num ambiente católico mas que desde que comecei a pensar por mim me tornei ateia. Respeito opiniões e crenças distintas desde que me respeitem a mim.

Acredito no Homem. Na força da sua bondade, dos seus sentimentos, na verdade, na lealdade, na justiça, no poder da sua vontade, na crença em si próprio e na vida. (se calhar é aquela tese do – Deus está dentro de nós -)

E ver uma menina com 24 anos acabados de fazer jazer branca e fria dentro de um caixão e ouvir o padre ou lá o que o homem era, dizer que a “irmã ofereceu a sua alma”, como se fosse escolha sua e como se morrer – ser escolhida sabe-se lá por quem – fosse um privilégio, só me deu vontade de ir lá à frente, levantar a mesa do avesso e confrontá-lo com aquilo que ele estava a dizer.

“Os que acreditam serão salvos” - insistia. Mas que raio de deus é esse que salva e ressuscita um dia os que nele crêem e condena os que não crêem? Que leva os que mais ama para os levar para o paraíso onde não há dor, só alegria? Ora que merda! Porque não nos suicidamos todos já? Ah, não podemos, já me esquecia, é pecado…

Por acaso neste momento ando a ler um livro “No Tempo das Fogueiras” de Jeanne Kalogridis, e só me vinha à ideia: se esta gente aqui e agora, adivinhasse o que me vai no pensamento, queimavam-me viva!

Só peço: quando eu morrer, que me façam um funeral o mais pagão possível. Poupem tanto disparate e hipocrisia.

Compreendo que ter uma fé deste ou de outro tipo nos facilita a vida. Dá-nos conforto e alento quando tudo o resto falha. Por isso o Homem criou Deus. Aliás, Deuses! Eu gostava de ter um Deus, um deus qualquer, mas o meu ”Deus” habita em mim e nos outros homens. Está nas árvores e nas borboletas e nos pássaros e nas flores. É a vida em si, a morrer e a renascer todos os dias, transformando-se milagrosamente!

Quando morremos, o sangue deixa de correr nas veias e a alma como entidade com vida própria apaga-se pura e simplesmente.

Resta-nos a nós, os que ainda ficamos por mais uns dias, mantermos viva a alma dos que partem. Viva nas marcas que nos deixaram, nas palavras que nos disseram, nas acções que nos tocaram e transformaram a nossa vida e o mundo. Nós os vivos (por enquanto) é que vamos manter a alma da Margarete viva. Viva. Em paz, a descansar e talvez a olhar por nós, pelos que ela amava e que a amavam.

Quando a Paula triste me diz que já não vai correr a Portalegre, onde a filha tanto a ansiava ver correr, eu na hora não soube que responder, mas hoje respondo: vais correr sim Paula! E dessa forma vais manter a sua alma viva! Em ti! Em nós! No mundo! Porque sabes o quanto ela se vai orgulhar de ti!

Esta é a minha relig
ião.





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Não, nunca teria evocado sequer a Margarete sem a autorização da mãe.



E tenho muito gosto de transcrever de seguida as palavras da Ana Paula Pinto em resposta ao meu pedido de autorização para colocar on-line o que acabaram de ler:





"Ana

Tens a minha autorização para colocar o texto.



Não, não penso nem sinto da mesma forma que tu e, graças a Deus assim é;caso contrário estaria nesta hora louca de dor.



Acredito e quero continuar a acreditar que a minha menina (anjinho de bondade, abnegação e coragem - isto não são palavras babadas de mãe, mas sentimentos de todos quantos a acompanhram, desde enfermeiros, médicos, auxiliares, gente conhecida e desconhecida) repousa agora feliz, numa morada eterna, sem dor, sem lágrimas e sem sofrimento.



Acredito que ela agora vê (tinha cegado), anda (tinha deixado de andar) esente (tinha deixado de sentir, excepto as dores atrozes).



Algures, acima ou abaixo desta Terra ela existe e espera-me. Vela por mim e por todos quantos amava. Será sempre recordada e amada, igualmente.



Mesmo antes de morrer as suas únicas palavras, balbuciadas de forma quase imperceptível, eram"desculpa" e "obrigada". Por isso, Ana, ela ofereceu a sua vida aos outros. Irmã na fé e na esperança de uma felicidade que não conheceu neste mundo.



Gostaria que acreditasses, mas a fé não se explica. Nasce, mas pode-se aumentar. Quando desesperamos ela é o nosso único auxílio e Deus o único aliado.



A Margot não era de "folclores", nem dramas, nem exageros, nem nada que a fizesse notada. No entanto sobressaía de todos os mortais que conheci até esta data. Também ela chamou por Deus e pela mãe, esta mãe que foi impotente no seu sofrimento, mas que se sente muito honrada de a ter gerado e aprendido com ela uma lição de vida inesquecível.Ela mudava tudo e todos. Era única (como somos todos) e sabia o valor que, apenas o facto de dar um passo, calçar uns sapatos, lavar os dentes, ou levar uma colher à boca podem ter.



Se ajudar alguém o teu testemunho, publica. Se não ajudar mais ninguém, pelo menos, fica o teu desabafo e isso ajuda-te a ti mesma.



Não poderei correr em Portalegre, sou uma fraca que não aguentaria, mas acredita que gostaria de o fazer. Ela merecia-o. Se quiseres, coloca junto das tuas palavras, estas que te enviei.



Obrigada e um abraço.

Paula"



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Paula, não vais correr em Portalegre não! Nem tu nem eu nem ninguém! Mas não é por essa razão que referes, porque tu és forte e quem suporta o que tu passaste e estás a passar- só tu o sabes, mais ninguém! - pode ser tudo, menos uma fraca! Não vamos correr a Portalegre porque a prova acabou de ser cancelada!



Mas Paula, não faltam por aí corridas e ainda vais fazer uma Meia Maratona, com todo o apoio e incentivo que sabes que a Margarete te dava. Ela vive dentro de ti! E orgulha-se de ti! E tu vais correr! Por ela, por ti!

2 comentários:

Fernando Sousa disse...

Olá Ana, longe de mim atirar-me a ti como cão, talvez como gato né?

Quanto ao que escreves julgo que vale muito mais do que muitos discursos efectuados pelos “ditos representantes de Deus.

Se existe alguém superior lá bem no alto (porquê no alto?) julgo que te compreenderia e já agora, Jesus como comunista que era também nunca concordaria com a riqueza que a Igreja possui ou se adorna. Tanta pobreza, miséria que existe...

Eu também ía todas as semanas à missa, tomava a hóstia, confessava-me, às vezes mesmo sem ter nada para confessar ou assim o julgava, também fiz a 1ª comunhão, rezava todos os dias, andei na catequese e até num colégio e côro religioso. Mas afastei-me de tudo isto... porquê? Talvez por achar que se Deus está em todo o lado... para quê então deslocar-me a um local onde as pessoas davam as mãos, beijinhos, e momentos depois já andavam à estalada e a chamar nomes uns aos outros?

Ouvir o discurso dos padres em cerimónias religiosas, um frete para muitos deles e bem pago, ouvi-los dizer que os que “nos deixam” são os escolhidos, os que foram chamados por Deus? Francamente...arranjem outra desculpa.

O que sei é que quando se gosta de alguém e este alguém desaparece do nosso mundo, sofremos muito e isto doi.

Para ti Paula, um grande beijinho, força que eu estou contigo e continua com a tua fé pois eu fui perdendo a minha ao longo desta minha existência.

Quanto a ti Ana, o teu Deus pode não ser bem o meu mas aproxima-se muito. Para mim Ele está no ar que respiramos, em tudo que nos rodeia, em nós próprios e persiste sempre a dúvida...

Deus existe ou foi o Homem que ao existir O criou? Mas afinal quem criou quem? Seremos um brinquedo de Deus ou estaremos nós a brincar com Ele? O certo é que me parece que Ele precisa de nós para existir, precisa do Homem mas se assim é também tem necessidades e acaba por não ser o Ser perfeito.

Tudo isto é muito discutível e o melhor é irmos vivendo bem uns com os outros, sem ódios, invejas, etc. e esperar pela nossa vez, pois todos vamos um dia desaparer. Voltaremos? É melhor ficar por aqui.

A Deus

Beijinhos

Fernando Sousa

Zen disse...

Olá Ana


Obrigado pela coragem que tiveste em publicar a dor (traduzida pela revolta) que sentiste durante o desaparecimento da Margarete.

Eu por cobardia nem uma palavra consegui transmitir à Ana na Paula, mesmo após o meu telefonema para ti para saber as circunstâncias em esta tragédia ocorrera. Refugiei-me portanto na indiferença e no “conforto” do medo (que nos leva à indiferença).

Agora que li todo o teu texto com transcrições desta Mãe coragem, percebi com uma terrível amargura que me ensombra enquanto escrevo estas palavras, que mais que o absurdo da morte está o absurdo do sofrimento precoce desta menina (como se o absurdo pudesse ser mensurável, perdoem-me a inutilidade destas palavras).

Não me compete julgar de que forma uns e outros preenchem o vazio daquilo que dificilmente se pode explicar. Preenche-se, pronto! Viver é sem dúvida ter esperança!

Um forte abraço à Ana Paula. Repito-o para ti Ana