Pesquisar neste blogue

terça-feira, 11 de maio de 2010

A visita do Papa a Lisboa e O Último Dia

A visita do Papa a Lisboa






Diário

Lisboa, 11 de Maio de 2010

As ruas de dentro, que descem a Baixa e levam o Chiado a Santa Apolónia, cheiram a erva fumada em beco sujo, a vinho tinto espalhado no chão espalhado de copo de vidro acabado de partir caído no chão, de mãos trémulas pustulentas, a suor e a mijo e a merda, numa mistura nauseabunda.

À mesma hora, bem perto dali, a Praça do Comércio está apinhada de gente, supostamente de bem, para ouvir um parasita da sociedade despejar frases feitas e que só um país governado por hipócritas como o nosso, em crise que sabemos bem não ser para todos, aceita receber com pompa e circunstância, mobilizando meio mundo (ou o mundo inteiro) para suportar a recepção megalómaga do tal senhor e sua corja, chamada Igreja. Senhor esse que diz vir como peregrino de Fátima. Peregrino com tratamento especial claro. Mas sabemos que apesar do Fascismo ter sido "oficialmente" erradicado, o que continua a ser preciso é "Animar a malta". E esta tarde milhares estiveram animados, muito animados, alheios à realidade do seu país triste em decadência.

Uma mensagem de esperança e de fé é-lhes incutida e recebem a hóstia que nos meus tempos de inocência aprendi que só devia ser tomada pelos puros, sem pecados, confessados e arrependidos. Afinal representava o "corpo de Deus", diziam, e pelos vistos os milhares que acorreram hoje à Praça do Comércio são tão puros como crianças, como a criança que eu fui e eles próprios foram um dia.

É fim de dia. Do trabalho que tenho a sorte de ainda ter. Tenho os pés escaldados e a cabeça a fervilhar. Não há metro. Há trânsito cortado. Os peões têm acesso condicionado, por carreiros vedados por grades. Como ovelhas a dizer Mééééé´, ou Amén, o que vai dar praticamente no mesmo.

Quando expus a minha postura perante esta palhaçada (parar uma cidade por causa de um homem e de uma religião), a um colega e amigo, ele responde-me que não achava nada mal, o que achava mal era o trânsito ser cortado quando há corridas de rua! Inquirido sobre a importância do homem para ter este tratamento por parte de um país que não está em condições de o dar, pois estava disposta a aprender, não me soube responder. Mas fiquei elucidada! Há os que amam e veneram a Corrida e há os que adoram e veneram o Papa. Está bem visto! Está muito bem visto! Fiquei perfeitamente esclarecida. Pelos vistos, juntar as duas vertentes na mesma alma, é que é areia a mais para a minha camioneta! Cada um com a sua tara, vulgo religião.

Fé! Esperança! É importante tê-la! Renová-la! Quem me dera que o Papa ma tivesse dado. Gostava mesmo de ser assim, como aquelas milhares de almas, ingénuas e puramente imaculadas, capazes de receber tanta sabedoria e humanidade. Tanta fé e esperança!

Fé e esperança ganhei eu hoje também! Renovei a que tenho! Muita ou pouca reforcei-a! Por outra forma, bem distinta do espectáculo que ocorreu na Praça do Comércio, que foi o que se passou lá! Soube que o "meu" psiquiatra se pirou, ou antes pirou, e cometeu suicídio (talvez por ter de me atender uma vez por ano, tal é a regularidade das consultas no hospital público), o que significa que como paciente dele vou ser transferida para outro, o que, tendo em conta a qualidade profissional e os métodos daquele, a situação dificilmente poderá piorar. Portanto, estou cheia de fé! E de esperança num futuro melhor! Mas não por causa do Papa.

E hoje, outra vez, foi o último dia, como o são todos os dias afinal e não damos por isso.

Desafio: encontrem o que há em comum entre as três imagens, que eu já me cansei de saber a resposta marcada a ferro em brasa na carne do meu corpo e no âmago da minha alma:
Podia ficar caladinha, no meu canto, a ruminar o que penso, e ficar muito mais bem vista, como boa cristã que devia ser, pessoa normal, ou apenas parecer, como 99% deles, mas eu sou assim, uma debochada, em prol do que sinto e da liberdade de expressão que faço questão de não deixar de usar, muitas vezes prejudicando-me, mas muitas mais vezes aprendendo, muitas vezes aprendendo até que estou errada...

Até amanhã querido diário, amanhã, outro último dia...

11 comentários:

Anónimo disse...

Olá Ana,

Anita, devemos respeitar os gostos de cada um...existem os que gostam de atletismo, os que gostam de religião, os que gostam de crianças, os que gostam de tudo isto...mas muitos destes não sabem o porquê dos seus gostos, não colocam a sua mente a trabalhar, não usam a razão, não pensam. Isto é que é grave. É como aqueles que se dizem comunistas e nem sabem quem foi o Marx, o que ele fez, etc. Mas sabem quem é o Ronaldo, o Mantorras e por aí.
Tens razão quando dizes que estamos num País governado (?) por hipócritas mas quem os elege é este nosso "povinho drogado", cego. As drogas que a sociedade usa e que são legais (televisão, futebol, religião, etc.) são essenciais para "animar a malta" e desviar as mentes dos problemas reais que existem à nossa volta. É triste verificar a pouca lógica e inteligência de uns quantos seres ditos racionais que julgo ainda perseguem as "bruxas" os "possuídos pelo demónio". Muitas destas "alminhas puras" são das que vão votar ou nem isso fazem e depois quem se f... são os outros...que carneirada. estas pessoas são as que contribuem directa ou indirectamente para estragar o nosso País, destruir o nosso sentimento pela Pátria, colocam a nossa autonomia em risco. Claro que para eles só existe um chefe, Deus mas esquecem que Ele, se existe, lhes deu a inteligência para ser usada livremente, o livre arbítrio, para escolherem um caminho...e francamente, por vezes até o meu gato me parece mais lógico que "certa carneirada".
E tantos meninos bonitos na baixa!Tantos "anjinhos"...ai se fosse daqueles...bem...tudo isto me fez lembrar os meninos da mocidade portuguesa do século passado.
Ana, tal como tu eu também tenho os pés assentes na Terra. Eu frequentei a catequese, fiz a 1ª comunhão, ía à igreja todos os domingos de manhã, rezava todos os dias, mas fui-me apercebendo de como "estava a ser drogado" e consegui afastar-me a tempo.
Ana, Concordo com as tuas palavras, talvez não a 100% mas perto e isto merece um festejo...num dia destes. Que tal uma descida ao Inferno?
Peço desculpa se ofendi alguém mas estou aberto a qualquer diálogo acerca disto, deste poder que é a Igreja que me parece estar a ser ultrapassado pelo outro poder "o dinheiro".

Beijinhos e abraços a todos

Fernando Sousa

Euqrop disse...

Engraçado é ver que ao Benfica muitos te responderam, a isto ... nem por isso.

MPaiva disse...

Ana,

Com plena convicção na sexta-feira conto estar presente na missa que será rezada por Sua Santidade o Papa Bento XVI na cidade do Porto e ouvir as suas palavras. Para além de líder religioso, trata-se de alguém que gosto de ouvir com atenção, que interpreto com a profundidade que as minhas capacidades permitem e em cujas ideias me costumo rever.

bjs
MPaiva

PS - Dois dias depois estarei na Costa da Caparica a correr a Meia Maratona da Areia e a conviver com muitos amigos das corridas no III Meeting Blogger.
Serei mais feliz por isso? Não sei, mas que serão dois dias que, embora por razões muito diferentes, tem tudo para ficar registados na listas dos dias felizes, lá isso é verdade!

horticasa disse...

Pois é maria! uma palhaçada com respeito pelos palhaços que o merecem mais.
Eu nem sei em que acredito... não no papa nem eu fantochadas que só nos custam dinheiro a nós, que pagamos e não bufamos.
Não!.. decididamente Deus também não há-de achar graça a estas fantochadas, tenho a certesa, eu acho até que Deus está contra todas estas manias de grandeza, de carros com ouro??? mas que é que é isto??
Deus, cristo, tem alguma coisa a ver com isto, que se está a passar em Portugal por causa do papa?
NÃO!...
beijo eugenia

Maria Sem Frio Nem Casa disse...

a todos:
Obrigada pela visita e comentários

Fernando, meu amigo Fernando! Pois, às vezes (só às vezes?) inflamo-me mais do que o assunto justifica... e ontem não foi um dia fácil, por isso o texto saiu algo raivoso, embora a mensagem continua a ser a que quero passar, é o que sinto, mas podia apenas ter sido mais suave, mas não fui e nem sequer o lamento pois não creio ofender ninguém apesar de chamar parasita a um sujeito que se sustenta com tudo menos com trabalho ...

Meu amigo Euqrop... afinal até comentam, tu é que te precipitaste... mas concordo é mais fácil as pessoas comentarem quando se fala apenas do Benfica, de corrida, ou se dizem larachas, e se vem bater palmadas nas costas uns dos outros.

Assuntos sérios, é melhor não nos metermos para não ferirmos susceptibilidades e para estarmos bem com deus e com o diabo - é a postura da maioria e se calhar até estão certos, se forem felizes assim... que há a criticar?!

Meu amigo Miguel, já sei que há vários assuntos em que estamos em pólos completamente opostos (lembro-me bem do meu texto da Segurança Social e dos teus comentários...), mas é mesmo assim o ser humano, único, diferente de todos os outros, e isso é a sua riqueza também. E Miguel, o importante é de facto ser feliz: a ouvir o Papa, a correr, ou seja lá a fazer o que for. E nós... teremos sempre a Corrida em comum, isso parece certo.

Um beijinho para ti, e sê feliz,
6ª feira na missa, domingo na corrida e no almoço, e sempre! Olha, eu ao almoço não vou... o orçamento não chega. Mas haverá certamente mais oportunidades para trocarmos uma palavra.

Horticasa, minha amiga... mas quem disse que a Igreja tem a ver alguma coisa com Deus nosso senhor? Com a bondade, a paz, a justiça e essas coisas todas que associamos a Deus, a um deus qualquer, bom e justo? A Igreja é apenas uma classe social, vem de há séculos e continua a sê-lo! Excepções haverá com certeza, homens da Igreja a praticarem o Bem, com alma e coração, íntegros e verdadeiros, mas isso minha amiga há dentro e fora da Igreja!
Papas, bispos e esses gajos todos não passam de cargos assumidos como por exemplo um lugar no Parlamento que vem mesmo a calhar.

Tenho dito

Beijinhos e voltem sempre (sempre que vos apeteça, também era escusado dizer...mas apeteceu-me)

Ana Maria

Mité disse...

Ana

Todos temos direito à diferença, todos temos direito às nossas paixões e a acreditar seja no que fôr, cada ser humano é livre e liberdade é isso mesmo.
Ninguém é melhor nem pior, temos que ser tolerantes, mesmo que por vezes seja dificil e a dificuldade da tolerância é quando
quem defende um ponto de vista não respeita o outro...

Eu tbm sou intensa, e por vezes exagero, mas discuto e ponto final
(td sempre na boa)

O que é criticável é a hipócrisia e essa temos pena mas não temos um medidor para medir a quantidade de hipócritas que por aí andam..

Quanto ao teu médico,
o senhor suicidou-se!!! existem destes tbm, ele teria a sua história as suas fraquezas, deixa de ser tão intensa na vertente negativa, deixa de te auto-punir
deixa de olhar para tudo com um olhar fulminante como quem só descortina o mal principalmente para si próprio

Pensa na vida naquela que também tem coisas positivas, existe o mau e o bom em tudo mas atenção não existe só o mau...

A vida passa e essa não se compadece com estes tempos de espera de negatividade absoluta!!!

Eu sei o que tu vales e tenho muita pena de tantas vezes te ver tão azeda e negativa!!!

Eu estou sempre cá, conta comigo
amiga

Bjos

Jorge Branco disse...

Palavra que quando vi o título do “post” apanhei um grande susto!
Pensei cá para comigo: coitada mais uma!
Depois de ler o que escreveu alem de ter ficado bastante aliviado a minha consideração por si, que não conheço, subiu pelo menos 500%.
A minha admiração pela sua frontalidade e coragem!

Anónimo disse...

Maria
num dos comentários aqui deixados alguém salientava que em relação ao Benfica muitos te responderam e agora não, sem que tenha sido um dos que deixou aqui palavras em relação a esse tema Benfica (e note-se que sou Benfica desde sempre)em relação a este tema em particular não posso deixar de te felicitar pela coragem de dizeres o que pensas ainda que tivesses consciente de que iria contra o que pensam algumas pessoas...
Quanto ao último dia dizer-te, usando as palavras do Sérgio, que hoje é o primeiro dia do resto da tua vida, aproveitava-o bem...
Abraço Maria, muitos beijinhos Ana.
Com admiração,
António

João Correia disse...

Os princípios oriundos da defesa da Igreja de Jesus são os princípios, valores, que nos orientam ainda hoje. É com base no Amor que educamos e somos educados (pelo menos, a maioria deste lado do globo), que nos familiarizamos, que nos procuramos socializar, que nos dedicamos, a causas, hobbies, por aí... Amiúde são esquecidos por todos; nós, a própria Igreja. E são esquecidos em toda a sua dimensão, uma vez que a ostentação, o luxo, os escândalos, enfim... demonstram que a palavra e a prática que Jesus deixou é mais lembrada que aplicada. Ao fim e ao cabo, somos todos humanos e existindo Deus, como acredito que exista, os chamados pecados só provam que por muito que o neguemos o lutemos contra, somos imperfeitos na nossa perfeição. Por isso compreendo que cada tribo comemore as vitórias do seus emblemas, independentemente da personificação que cada uma tenha. Essa também é uma expressão de direito que cada um pode usufruir, se bem entender. O que me preocupa é a alienação da realidade pelas emoções, causadas por essas comemorações e que nos podem fazer esquecer os valores importantes, como por exemplo, aquele nos deve impelir a olhar sempre com sentido crítico para o que nos cerca.

Mário Lima disse...

Ana

A Igreja foi fundada não por Cristo mas por um Imperador Romano, Constantino de seu nome.

A Igreja chama-se (ou chamava-se pois foi retirada a última palavra) Igreja Católica Apostólica Romana.

Foi em Roma que começou um dos maiores Impérios que há memória, o Império Romano. Este Império entrou em decadência e finou, como todos os Impérios finaram no passado ou os agora existentes irão finar no futuro.

A Fé cristã Romana foi implantada à força da espada, como afinal foi implantado o Império.

Os Imperadores Romanos para agradar ao povo dava-lhes «Pão e Circo».

O pão começa a escassear mas o circo continua.

Tudo de bom!

Fernando P disse...

Gostos não se discutem, mas quem é que está a discutir gostos?
Do que se trata é de saber se é legítimo o tratamento dado pelo Estado português ao representante de uma religião.
Que milhares de portugueses decidam ouvir Bento XVI não me causa qualquer problema, agora que as despesas sejam pagas por todos os contribuintes, isso não posso aceitar.
O nosso Estado de direito (ou o que resta dele) assenta em diferentes e variados princípios: um é a liberdade de expressão e de religião, outro é a separação entre a Religião e o Estado.

Em Portugal, este princípio fundamental é violado constantemente. Esta foi apenas mais uma ocasião...