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domingo, 15 de outubro de 2006

Feliz, a correr entre amigos! (foto de José Moutinho)


Uma Maratona Feliz

Domingo, 15 de Outubro de 2006
Falta um ano para a 4ª edição da Maratona do Porto
, pois a deste ano já está feita! E que bem feita…

Talvez pela mentalização da véspera, a frase “Dosear o esforço, gerir o esforço” tornou-se a palavra chave que me acompanhou durante os 42.195 m. E também: as razões porque estou aqui são as mais válidas que existem, são fortes como pilares, por isso eu cá estou e vou fazer a Maratona!

Parti sem grandes expectativas (apenas a pequena de conseguir fazer a maratona sem o sofrimento do ano passado e de alguns treinos que fiz aquando da preparação desta.

O Álvaro partiu comigo assim como o António (afinal partimos todos juntos não é?). O Luís Miguel estava perto mas depressa avançou e o Álvaro fica connosco. Vamos bem. A minha conversa na véspera com a Helena do Núcleo de Psicologia do Desporto e da Actividade Física, Instituto Superior de Psicologia Aplicada, estava muito presente na minha cabeça pois tirei dela (da conversa) valiosas ajudas práticas para a minha atitude face à distância e aos assaltos de pensamentos menos bons, e consequentemente teve uma importância vital no meu estado de espírito e desempenho. Estou-te muito agradecida Helena!

Corro lento, sempre a “Dosear o esforço, gerir o esforço”. Quero ir a um ritmo que seja suposto aguentar até ao infinito! E lá vamos nós, umas larachas cá para fora, para animarmos o parceiro e a nós próprios e cá dentro, bem forte: “Dosear o esforço, gerir o esforço – vou aguentar até ao fim!”

Vou Feliz! (foto de Fernando Costa)


Passamos à meia com 2h03m pelo que a manter o ritmo daria 4h06m.

Era lento é verdade, muito lento, mas eu comportei-me à altura. Mais uma vez obrigada Helena pela mentalização: abstrair-me do cronómetro, usufruir do percurso e do ambiente (tudo espectacular) e a razão, a razão porque estou ali, vai levar-me até ao fim!

Um companheiro do Porto (dorsal 416) acabou por nos acompanhar durante grande parte da prova. Um ou outro eram companheiros de ocasião durante alguns quilómetros.

Entretanto o Álvaro tinha também ficado para trás. Não insisti. Cada um tem de ir no seu próprio ritmo. Não se brinca numa maratona. Erros desses, tipo acompanhar “A”, “B” ou “C” durante uns minutos acaba por nos ir ser cobrado e bem mais à frente. Cada um por si!

- António, eu ignoro que tu aí vais, quando quiseres ir para a frente vais, ok?

O António acabou por me acompanhar do princípio ao fim! A par da vida, numa corrida os amigos e parceiros são sempre de ocasião, salvo raras excepções. O António foi a excepção naquela maratona (assim como eu o fui para ele). A partir talvez do quilómetro 32 ou 34 ficamos só os dois (o nosso companheiro de ocasião – dorsal 416) fica com caimbras e abranda. Nós seguimos.

Muito apoio do público e de amigos e conhecidos e até desconhecidos, em prova!

A caminho da Afurada, ao cruzarmo-nos com os atletas que já vinham para cá, ouço:

- Força Maria Sem Frio!!!!!

Nem vi quem era e mesmo se visse, provavelmente não conheceria… é no que dá ter um blog e ser eu, como sou, com as melhores virtudes e os piores defeitos, que ainda assim levaram a que muita gente me acompanhasse nesta viagem até à Maratona do Porto. Ilusoriamente acompanhada durante a minha preparação, mas realmente muito feliz na prova, pois efectivamente senti-me acarinhada e muito apoiada. Por gente! De carne e osso!

Ao passar o Km 28 uma ténue nuvem negra passou por cima de mim, mas ia alta, e isto foi só porque foi nesse km que no ano passado se me acabaram as energias (vulgo Berro ou Estoiro), mas este ano não, esse pensamento não passou de uma triste memória que depressa atiro para trás das costas, e continuo a dosear o esforço, gerir o esforço.

Muita gente ausente esteve presente no meu pensamento. Esses, só por ter a certeza que me estimam e me querem bem, estiveram comigo ao longo da prova, e muito me ajudaram também a conseguir. Levei-os comigo e olhando o céu, estavam todos lá, a ajudar-me! E eu consegui!

Por esta altura, simplesmente por irmos mantendo o ritmo ou aumentando-o um ínfimo que fosse, fomos alcançando atletas que estavam já a abrandar e facilmente se deixaram apanhar. A competição é sempre connosco, mas… se puder passar alguém, ai que não escapa não! E assim lá fomos avançando com optimismo e força nas pernas.

Tudo muito bem até ao km 36 ou 37, onde pela primeira vez (em 4 maratonas) me deparei com “O Muro”, esse monstro de betão tanto falado! É que nas anteriores estava muito melhor preparada e com muitos mais quilómetros nas pernas. No ano passado estoirei aos 28 por autêntico Estoiro de quem não soube “dosear o esforço, gerir o esforço”. Este ano doseei e geri muito bem o esforço, mas faltavam-me treinos longos, pelo que obviamente me deparei com aquela parede de tijolos!

Mais força Ana, mais força! As pernas são já autónomas e eu só tenho de lhes dar toda a força que ainda tenho. Porque estou aqui! Porque quero estar aqui! Vou fazer esta Maratona! Os passos vão-se sucedendo e pelo Km 39, 40 estava o muro ultrapassado!

Mais amigos e vozes amigas! Estou melhor! Agora é ir para a meta! Conseguimos António, conseguimos!

Aquela subidazinha custa, mas faz-se! Com força e vontade faz-se, até ao fim de mais de 40 km!

Chego à meta. Esperam-me amigos e os meus companheiros da vida, aqueles que estão sempre ao meu lado: o meu pai e a minha filha! A Helena está lá também! Fala comigo! Um amor de rapariga, e a ver pelo seu empenho e interesse irá longe no plano profissional. Continua assim miúda!!!

Acabamos com 4h04m58s! No meu cronómetro, que para mim esse é que vale!

a poucos metros da meta (foto de António Melro)

Verifica-se pois uma prova muito homogénea. Um ritmo praticamente constante, um nadinha de nada menos lento na 2ª meia! Foi a minha pior marca na Maratona (estava em 4h04m35s em paris 2001 – a minha primeira), mas isto não tem importância. Fiz o que me propus. Acabei a Maratona no tempo possível para a preparação física que tenho de momento. Melhor seria impossível.

Há dias dizia: “Se fosse só corpo diria que faria a maratona em 4h10m (ou talvez menos) sem dificuldade de maior.”

Hoje digo: “Se fosse só mente diria que poderia ter feito a maratona em 3h50m ou menos” – mas somos um todo, e embora a parte psicológica estivesse excelente, o corpo não tem a preparação física necessária para baixar das 4 horas.

E foi assim que acabou a história da Maria Sem Frio Nem Casa e da 3ª Maratona do Porto…

Deixo-vos com os The Doors (as portas) que se fecham mas também se abrem. E a vida está cheia de portas:

The Crystal Ship

Before you slip into unconsciousness
I'd like to have another kiss
Another flashing chance at bliss
Another kiss

Another kiss

…/…

Como eu gostaria de ter alguém que me disseste isto antes de eu partir…

NOTA: mais fotos desta minha aventura que foi a 3ª Maratona do Porto no meu album de fotos:

http://www.pbase.com/mariasemfrionemcasa/galleries

8 comentários:

José Carlos disse...

citação "uma triste memória que depressa atiro para trás das costas"

Faça isto sempre, vai ver que resulta muito mais vezes do que parece.

Parabéns pela prova e muito obrigado pelo seu Blog

helena disse...

Ana, nem sei como lhe agradecer as palavras... um simples obrigada é pouco, pela imensa felicidade que me fez sentir.

Mas a vitória foi SUA e por isso os meus PARABENS(nunca se esqueça disso e de ir buscar este SORRISO tão positva quando as forças estiverem a fraquejar) . É uma LUTADORA e um exemplo de CORAGEM.

Um abraço, com muita admiração...
Helena

Lénia disse...

Olá Ana,

Muitos parabéns! Fiquei feliz por saber que no final tudo acabou por correr bem. Nas fotografias, pareces tão fresca, que parece que foram só 5 kms...Ganda mulher!
Agora, é só continuar com esse espírito, porque pró ano será ainda melhor. Tenho a certeza!!!!
Um abraço Ana.

Carlos Manta Oliveira disse...

Parabéns!

É um feito seu que admiro imenso, com uma boa dose de inveja.

Só consegui fazer uma meia, para a qual treinei a sério e levou-me quase 2 horas.

Duas maratonas só em 4 horas cada é fenomenal.

Ganhei um objectivo. Obrigado por ser uma fonte de inspiração.

:)

Carlos

Anónimo disse...

José C.

Acabei de ler a tua crónica e soltei um sorriso.

É que fiquei a saber que ouviste o meu grito de incentivo, na Afurada: Força Maria Sem Frio.

Obviamente, não me conheces. Eu "conheço-te" do Blog e acompanhei as tuas duvidas, as tuas angustias, mas tb a tua determinação, acerca da forma como ias correr a Maratona do Porto. Esse grito saiu-me naturalmente assim que te vi passar, o atletismo é um desporto solidário, por isso adoro correr!

Quanto a mim fiquei aquém dos meus objectivos, no minimo seria fazer abaixo das 3h. Falhei em 2m47s, esse objectivo minimo.

Mas, como num outro comentário que aqui te deixei o meu lema é:
- Pior que não cumprir os objectivos, é não ter objectivos!

GDBVA disse...

Parabéns pelo vosso Blog e em si a divulgação do Atletismo. Boas provas e saudações desportivas. Www.gdbva.blogspot.com

GDBVA disse...

Mais Uma vez, Um Olá desportivo, mas deixamos aqui este link. Estamos a Organizar um passeio até fatima, caso queira ir só dizer...http://gdbva.blogspot.com/2006/10/os-trs-mistrios-do-jardim-de-alverca.html#links

Álvaro disse...

Toma, madrinha:
https://www.youtube.com/watch?v=bU1sLx1tjPY