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terça-feira, 5 de junho de 2018

Maria Celeste

Fim da tarde. 1h07m a Correr. Ao lado do Trancão...tão bom começar assim o fim do dia, absolutamente revigorante, a lavar os pensamentos e a libertar a alma!

O gps diz que foram 11,200 Km, mas não é informação fidedigna...Fica o tempo de Corrida e as memórias do corpo e da alma no decorrer do treino, e hoje são ambas muito boas. E fica a história. Hoje, da Maria Celeste que correu comigo.



A Maria Celeste veio correr comigo hoje, Não levava nada, nem cronómetro nem relógio nem sequer telemóvel. Apenas ela, inteira, corpo e alma despida. Estava triste e ansiosa. E um pouco revoltada, apesar de o tentar negar com uma convicção mal disfarçada. No fim do treino, ao chegarmos ao carro, quase desesperadamente verifica o seu telemóvel que tinha ficado guardado no carro, na ânsia e esperança de ter uma chamada, uma mensagem, qualquer coisa. Dele! Mas não, não tinha. Se, apesar dele já ter dito que não ia ser possível, ela alimentava a esperança de que talvez ele mudasse de ideias e a convidasse para jantar. Se ele se atrevesse. Se ele quisesse. Talvez tivessem um serão muito agradável, talvez comemem bem, à volta de um prato de comida reconfortante e talvez rissem demasiado alto quando o jarro do vinho tinto já estivesse quase vazio e os empregados do restaurante quisessem fechar dada a hora tardia e o tempo ter voado sem eles terem dado conta. Talvez falassem e ouvissem como raras vezes acontecia nas suas vidas.Talvez partilhassem medos e ganhassem forças para os enfrentar só pelo simples facto de os ouvir em voz alta. Talvez partilhassem sonhos e esperanças e talvez sentissem o apoio do outro, quando todos nas suas vidas os acham loucos, desajustados e desadequados. Talvez a Amizade se sobrepussesse a amores acomodados, de conveniência e de falso conforto. Se ele a convidasse para jantar...

Mas não, ele não a convidou para jantar. E ela, a Maria Celeste, depois do treino despediu-se do rio e das águas que não levaram todas as suas mágoas para o mar como ela queria e regressou à sua casa, onde quase ignorada, apenas lhe dirigem a palavra para perguntar o que era o jantar. Alguma coisa para aquecer, responde ela, podes pôr no micro-ondas que eu tomo duche num instante.
Jantaram em silêncio não fosse a televisão em altos berros, aos quais o marido dela parecia responder num tom inflamado e muito interessado, e depois da louça lavada e cozinha arrumada, ela por fim, derreada,  atira-se para o sofá onde se enrosca no marido, como animal de estimação a implorar carinho e atenção e finge que os tem e finge assim que é feliz, enquanto pensa... se ele a tivesse convidado para jantar...

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