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sexta-feira, 20 de junho de 2014

O Cupido e a Crise - PARTE I

Ele estava num pequeno grupo entre amigos. Encostado ao muro baixo, conversava e a noite já caíra entretanto. Conversas breves, casuais, de amigos de curta data. Ainda assim, amigos, como ele gostava de os definir.

De repente, de forma clara e inequívoca sente-se observado por elemento exterior ao pequeno grupo, qual presa farejada e procurada por caçador em busca de caça e quando levanta a cabeça em busca do predador, vê-a! Primeiro, duvida se será mesmo ela. A noite já caíra e eles não se viam há demasiado tempo. Primeiro pareceu-lhe que sim, que era ela, para logo de seguida lhe parecer que não, que não era ela! Ela era mais baixa, magra, uma fraca figura despercebida na multidão. Pelo menos era essa a ideia que guardava dela, tal era a atenção que lhe prestara até aqui. E aquela rapariga parecia demasiado alta, esguia, elegante e de boa constituição, demasiado para ser ela. Mas os olhos, os olhos  dela em busca dos dele, acompanhados de um sorriso brilhante e determinado, buscavam-no a ele, decididos, com a certeza de que o queriam encontrar. A ele! E sim, era ela! Com firmeza, o rosto dela iluminado aproximou-se dele em passos largos de dança e com naturalidade cumprimentou-o. Tocou-lhe no braço e ele sorriu, completamente desarmado e deliciado. Ela deu-lhe um beijo em cada face e nesse breve instante de toque de pele, ele foi atingido! A pele dela, oh meu deus, a pele dela...Doce e macia como nunca a sentira. Doce e macia como nunca a imaginara. E os olhos! Oh meu deus os olhos! Castanhos profundos a afundarem-se nos dele, invadindo-o até ao âmago do seu ser, remexendo e despertando-o! E então ele sentiu! De forma muito clara o Cupido tinha-o atingido! Em cheio nas costas, ligeiramente acima da omoplata direita. A dor fina da seta ainda espetada nas costas misturada com prazer, davam-lhe uma sensação de estar vivo como ele já não se lembrava.

Nunca tinha olhado para ela "assim". Já se conheciam há uns bons meses mas nunca ela o cativara por aí além. Simpática sim, mas nada que o tocasse especialmente. Mas naquele momento breve, ele foi atingido. Certamente por seta errante de Cupido aflito a viver a crise. Logo agora que ele tinha o coração tão arrumado, tudo tão certinho e previsto na sua vida...ele não queria aquilo! Mas a seta, com uma precisão de cirurgião, atingira-o! E naquele momento exacto, ele começou a vê-la de outra forma. Tão diferente, tão doce, tão sensual, tão deliciosamente apaixonada.

O azar...porque há sempre um azar na vida deste rapaz, é que o Cupido, depois da seta disparada, é que olhou para trás, sobre o seu próprio ombro e verificou irremediavemente que devido aos cortes a que se vê também ele obrigado a fazer por causa da crise, aquela tinha sido a sua última seta...

3 comentários:

Jorge Branco disse...

Um escritor não é alguém que, obrigatoriamente escreve livros em papel! Nestes tempos modernos pode escrever noutros suportes e um blogue é um desses suportes.
Estamos aqui na presença de uma excelente escritora mesmo que ainda não tenha escrito um livro no clássico (e para mim melhor suporte para se ler) papel.
Ainda não perdi a esperança de um dia ter nas mãos um livro cujo a autora seja a Ana Pereira! Mas vou querer um autógrafo (outra grande vantagem dos livros em papel pois os blogues não se podem autografar!).
Um beijinho Ana e vou ver se consigo comprar mais umas setas para o cupido nem que seja numa loja dos Chineses. Fiquei com pena do rapaz!


Corre como uma menina disse...

Ai a crise... :)
Beijinhos

Horticasa hoticasa disse...

Mau!
Estou a ver que o episódio que se segue promete, vou guardar para amanhã, adoro folhetins...
beijinho