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quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Dipsy


Dipsy (11.10.1999-03.01.2010)

Dizem que foi só um cão. Dizem que foi só um cão que morreu. Mas não, estão enganados, não foi só um cão que morreu.

Quando entrou na nossa vida, tinha a nossa filha 2 anos e era ele também um bebé, de 2 meses apenas.

Lembro-me como se fosse hoje. Estávamos a fazer a árvore de Natal (1999) - eu e a Mafalda - de lareira acesa e aguardávamos ansiosas a chegada do novo elemento da família. Tocava uma música de Natal e sem saber porquê as lágrimas vêm-me aos olhos, a adivinhar a felicidade da chegada de um novo ser ao seio da família. Feliz, na altura. O Luís e o Pipas tinham ido buscá-lo, longe, lá para cima, numa terra algures a tocar fronteira com Espanha. Viera enjoado no carro, numa caixa de cartão, e chegou assustado e moído.

Lindo. Como o são todos os cachorros. Brincalhão, traquinas, um amor.

2 anos a tratar dele como um filho. Quando me perguntavam quando vinha o 2º filho, respondia sempre que tinha o Dipsy. O meu segundo filho, porque em amor, preocupação, despesa e trabalho não difere muito de um filho, um cão.

2 anos a brincar com ele, dar-lhe banho, limpar chão, aspirar pêlos e pêlos pela casa toda, acordar a meio da noite e dar-lhe medicamentos, tratar dele, a correr com ele, a amá-lo. Um companheiro raro de muitas horas e momentos da minha vida.

Depois...depois divorciei-me e aí veio ao de cima a diferença entre um filho e um cão. Saí de casa e nem outra hipótese coloquei, a Mafalda veio comigo. Já o Dipsy, um Serra da Estrela de 2 anos de idade, cheio de saúde e vigor, a pesar tanto como eu na altura (50 e muitos quilos), a ele não tive outra hipótese senão deixá-lo com o Luís. Ele ficava bem e eu não consegui nunca criar condições para o ter comigo. Até agora. Que as tenho e esperava voltar a tratar dele dentro em breve por necessidade do Luís e prazer e opção minha, ele não aguentou e saiu das nossas vidas de forma abrupta e para sempre. Para todo o sempre.

Para a Mafalda, para além de tê-lo visto crescer nos seus 2 primeiros anos de vida, continuou sempre a conviver com ele. Praticamente todas as semanas. O Dipsy, um amigão. Cresceram juntos afinal. Ela a crescer. Ele, primeiro a crescer, depois a envelhecer, até hoje, dia da sua morte. Dentro do tempo previsto de duração para um cão da sua raça, é verdade. Já doente, é verdade. Mas por mais preparados que estejamos...dói sempre.

Um Amigo que fica no coração, apesar de fisicamente não existir mais neste mundo. O seu corpo descansa agora no quintal, onde brincou, correu, escavou, e ainda hoje o vejo, a brincar às escondidas com a minha filha, à volta da casa. Vejo-lhe o brilho dos olhos, a língua pendente a pingar saliva, diria mesmo que um sorriso lhe preenchia o focinho, e ouço, nitidamente, o seu arfar e as patas a correr no chão do quintal, ao mesmo tempo que gargalhadas da minha filha me enchem o coração. De felicidade. O Dipsy deu-me muita Felicidade. Muita. Até hoje, que já cá não está.

Vejo-o noutros momentos de paz, a suportar o peso da Mafalda que se deitava sobre ele, e ele nem se mexia, satisfeito. Vejo-o ainda a correr ao meu lado nos treinos, a chorar ao portão quando eu continuava o treino sozinha. A saltitar de madrugada quando me pressentia a sair para mais um treino com ele. A vomitar porque tinha comido o que não devia. A aprender lições de bom comportamento nas aulas (eu e ele). Ai... lembro-me de tanta coisa...

Hoje, partiu. Já cá não está. Aquele corpo enorme e a alma delicada e doce(apesar do mau génio com alguns outros cães). Desapareceu simplesmente. Transformar-se-á em ervas, e folhas e flores que brotarão da terra e que borboletas e abelhas sobrevoarão. Transformar-se-á o meu Dipsy, e de alguma forma, sei que ele continua entre nós.

Eu...estou triste mas não chorei sequer. Ultimamente as lágrimas saem-me em alturas impróprias e desadequadas. Estou triste apenas. Aceito o facto, com a naturalidade possível.

A minha filha... Nunca tinha visto a Mafalda tão triste...nem quando morreram os avós paternos ou a Margarete.





Descansa em paz Dipsy, estarás para sempre no nosso coração, de uma forma muito especial

Ana e Mafalda


"Peixinhos dourados, tartarugas ou hamsters são animais de estimação, os cães são Família"

Mark R.Levin, em "Como salvámos Sprite"

8 comentários:

MPaiva disse...

Ana,

O meu respeito pelos nobres sentimentos que tão bem descreveste.

bjs
MPaiva

JOSÉ LOPES disse...

Ana

Compreendo perfeitamente a dor que está a passar e envio-lhe os meus sentimentos.

Passei por uma situação semelhante à pouco tempo, morreu o meu fiel amigo, no dia 22 de Dezembro, fazia-me companhia há 13 anos, sempre bem disposto.

Bjs
J.lopes

Anónimo disse...

Ana
lamento a vossa perda, recordo-me de em tempos ter lido uma crónica tua em que o Dipsy tinha um papel principal, como decerto teve nestes anos em que fez parte da vossa família.
Bonitas as fotos, ficam como recordação.
Beijinhos e forte abraço,
António e meninas.

joaquim adelino disse...

Fica a recordação e o respeito sempre demonstrado. Mas a vida continua, foi mais uma etapa com um final natural que findou.
Um beijinho do Pára

Fernando Andrade. disse...

È isso, Ana.
Quanta humanidade encontramos nos animais, em contraste com a que falta a tanta gente. Somos amigos deles, mas também sabemos que eles ainda se sentem mais nossos amigos.
E daqui resultam laços fortes que doem muito quando quebram, por mais que se saiba que é a lei da vida.
Neste momento, irresistivelmente tocante, a Ana consegue concentrar toda essa vida e felicidade que partilharam e que tão bem soube transferir para todos nós.
Grande Beijinho, Ana e... feita a justa homenagem ao Dipsy, temos pela frente um 2010 que nos há-de trazer coisas boas.

FA

Anónimo disse...

um beijo para a Família e que em 2010 possam com saúde partilhar todo esse amor que o Dipsy vos deixou.
bjs
ab - tartaruga

Zen disse...

Ana

A minha solidariedade com a tua dor.

Beijinhos.

Anónimo disse...

Olá Ana,

Como eu compreendo essa dor, essa mágoa… Como sabe, eu tenho uma cadela (Shar Pey) com cinco anos, linda, super inteligente, meiga, obediente e extremamente asseada.

Mas também, como sabe, tive em simultâneo e durante quatro anos, aquele cão pachorrento, dócil e totalmente inseparável de nós, ao ponto de não comer durante a nossa ausência no fim-de-semana. O Cadete, de seu nome, rafeiro, cor de mel, corpulento, mas de perna curta como a mãe, viveu connosco cerca de onze anos (11-1997/07-2008). Um ataque, quase fulminante, de coração, num sábado de manhã, e apesar da ida imediata para o hospital veterinário, veio a morrer durante a noite de domingo, e foi muito dolorosa a partida daquele fiel e grande Amigo.

E quando alguém dizia: “não vai custar tanto porque têm a Fyona (é como se chama a cadela), e ela vai compensar a ausência dele,,,”. Hoje, isso é verdade. Está feito o “luto”, e ela preenche-nos por completo. Mas, nos primeiros tempos…foi muito complicado… quando às sete da manhã abria a porta para a passear, e ela chegava ao patamar e parava, depois no patamar do andar inferior, olhava para trás, para o lado, para a frente e não via o Cadete…e quase se recusava a descer sem ele. Forçada por mim, lá vinha escada a baixo mas, na rua, e durante os cerca de quinze minutos de passeio que dava com ela repetia aquele comportamento constantemente e dia após dia, e eu a querer esquecê-lo…

Ana, espero não a ter “castigado” mais com este desabafo, mas não resisti… Beijinhos para si e, sobretudo, para a Mafaldinha que deve estar a passar um mau bocado…

Orlando Duarte