Da saga
“Férias 2019”
Capítulo fora
de ordem, racional ou outra
A Noiva

A fraca
iluminação e as teias de aranha pelos cantos do tecto davam à habitação um
toque fantasmagórico, misterioso e caprichoso, ao melhor sabor do fantástico e
de filmes de terror.
Os jogos de
tabuleiro, descobertos na casa, de entre uma pilha empoeirada de brinquedos e
livros velhos, com décadas de uso, mil e uma histórias vividas, ocupavam o
centro da mesa e depois de analisados era escolhido um. O papel amarelado,
envelhecido pelo tempo e pelo uso, e o cartão amachucado, com vincos de
memórias antigas, rugas desenhadas pela vida, incorrigíveis, eram
características comuns a todos eles, mil e uma vez manuseados, testemunhas
silenciosas de serões passados por ali. Também de noites dolorosas e de dias
sombrios. De sangue derramado e de almas trespassadas por lanças de ferro
enferrujado e frio. Mas eles não sabiam disso nem poderiam saber.
Naquela noite
foi escolhido o Loto e a jovialidade dos jogadores deu vida ao jogo e o jogo
deu vida aos jogadores.
Escolhidos
os cartões, sobrou um, porque tu, Mãe, jogavas agora outro jogo. Precisamente à
mesma hora, a centenas de quilómetros dali, jogavas com a morte e a vida e
sorrias num corredor de hospital entre dezenas de outros que como tu,
aguardavam uma decisão, uma sala disponível, uma operação, um parecer médico,
uma evolução de estado, ou simplesmente a morte se os familiares ali os abandonaram.
Porque há muitas formas de morrer, e ali, há já gente morta.
O cartão do
Loto que assim sobrara, foi colocado no centro da mesa e prontamente decidido
pela nossa menina mais nova, que dormia no quarto da noiva, e que com ela
partilhava não só o espaço que era o seu quarto, não o tempo, mas também o
nome: Carolina.
Deram início
ao jogo e foram saindo os números. A sorte e o azar a brincar connosco. As
risadas dos ganhadores, que tinham a sorte por eles e os rostos contrariados,
quase amuados, meio a brincar meio a sério de quando os jogadores se viam a
perder. A noiva, invisível, mas claramente presente ia ganhando pontos, à
medida que os números iam saindo, preenchendo o seu cartão de forma anormal e
assustadoramente rápida. E quando só lhe faltava sair um número, uma única
peça, deu finalmente a vez aos outros, enganadores e enganados, rijos e
sorridentes como petizes apesar da idade avançada de alguns deles.
Ganhou o
avô. Foi o primeiro a preencher o cartão. Riu-se como um miúdo. Serão feliz à
volta de uma mesa de madeira e de um gasto jogo de Loto. A noiva, só não ganhou
porque, verificou-se depois, que a única peça que lhe faltava, era uma peça que
simplesmente não estava na caixa. Teria desaparecido no passado e na história
da casa e das pessoas que por ali passaram. Distribuídas todas as peças,
faltava a única necessária para a noiva preencher o seu cartão: a peça número
77.
Risadas
joviais, arrumado o jogo e siga o serão. Sigo para a cozinha. É preciso acabar
de lavar as chávenas do café que bebericámos a acompanhar o jogo e bolinhos.
Remeto-me à
cozinha e começo a lavar as chávenas. A água a correr, os salpicos e o
emaranhado de fios, tomadas duplas e tripas e extensões eléctricas diversas ali
tão perto… Num momento em que rodo a torneira, parece-me sentir um ligeiro
formigueiro no braço direito. “Ui…não…isto deve ser impressão…isto não pode dar
choque!” De seguida vou buscar as restantes chávenas à sala e quando pouso as
mãos na pia do lava-loiça, agora cheio de água, entupido pela canalização e
escoamento deficiente e nítida e claramente agora, apanho o maior choque
eléctrico da minha vida. Grito e afasto-me do lava-loiça. Não é possível, isto
não é possível…mas eu senti! Juro que senti!
- Mãe!
Gristaste?!
- Sim!
Apanhei um choque, saiam daqui, ninguém toque na bancada, afastem-se!
Afastaram-se,
tão ou mais assustados que eu.
Pego na
esfregona e começo a limpar os pingos de água no chão. A esfregona, farfalhuda,
numa dança no chão, em círculos enérgicos que lhe imponho, involuntariamente
levanta a cortina que tapa a bilha do gás debaixo do lava-loiças e para meu
espanto traz com ela um pequeno objecto que arrasta no chão, preso às suas
franjas. É azul e pequeno. E perante a surpresa de todos, é uma peça do loto!
Mais especificamente, a peça com o número 77…
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