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quarta-feira, 13 de maio de 2015

3º Trilho das Lampas, 9 de Maio de 2015

3º Trilho das Lampas

Decorreu ao fim da tarde do dia 9 de Maio de 2015, o 3º Trilho das Lampas, prova organizada pelo Meia Maratona de S. João das Lampas - Grupo de Dinamização Desportiva, em parceria com a Sociedade Recreativa, Desportiva e Familiar de S. João das Lampas. Prova integrada no Circuito Nacional de Trail Running, na categoria de Trail Curto de dificuldade moderada, tendo por isso a supervisão da Associação de Trail Runnig de Portugal (ATRP).

Com um aumento substancial de participantes de ano para ano, teve nesta 3ª edição 804 atletas chegados à meta e cerca de 150 caminheiros. 

Uma organização à altura que não decepcionou. Desde as inscrições, passando pelo levantamento de dorsais, ambiente geral, a pontualidade na partida, a excelente marcação do percurso, quer as fitas para serem vistas de dia quer os numerosos reflectores para serem seguidos de noite, os bons abastecimentos, o controle, o acompanhamento durante a prova com vários elementos da organização a avisar dos cuidados a ter nos próximos metros, a chegada, os prémios de presença, a sopa quente, os banhos, as reportagens fotográficas, a rapidez nas classificações e entrega de prémios, tudo contribuiu para ter sido esta edição, mais uma edição de sucesso.

Está pois uma vez mais, a organização de parabéns. Muitos Parabéns Meia Maratona de S. João das Lampas - Grupo de Dinamização Desportiva, e todos os seus apoiantes que contribuíram para este sucesso.

"A minha Corrida" ou "O Trilho certo"

Então conta lá. Senta aí e fala-me do Trilho. Do das Lampas.

Ela abeirou-se de uma rocha mais saliente, ainda ofegante, as mãos sobre os joelhos e o corpo meio inclinado, a pingar suor. Sentou-se para descansar da última subida e a olhar o mar sob o Sol que se punha, ali, à beira da Praia da Samarra, começou a falar.

Eu já corro em trilhos há mais de 30 anos. Sempre gostei. De pisar a terra, arranhar-me na vegetação e sentir-lhe o cheiro, alcançar vistas só possíveis quando enveredamos pelo meio da serra, da montanha, da floresta ou do pinhal. Sempre gostei da irregularidade do terreno, da constante atenção que temos de ter para apoiar o pé na próxima passada. Sempre gostei de correr em trilhos, ou mesmo na sua ausência, atravessar serras e montanhas. De pisar a terra e sentir o mar também. Correr na Natureza. Comigo. Com ela. Em perfeita comunhão com a Natureza. Quando nunca tinha ouvido falar de Trails, eu já os corria sem saber. Depois vieram algumas provas de montanha, sempre a comprovar este amor pela Montanha e pela Natureza. Sempre adoráveis desafios vencidos, a reforçar este amor. E depois veio o Trilho das Lampas. Nascido apenas há 2 anos, muito a medo lá estive na 1ª edição, pois se é certo este amor, também certos são os medos que se enfrentam em muitos trails e aqui a rapariga é um pouco (?) medricas. Tem medo de alturas, de abismos, de descidas normais para o comum dos mortais mas que para ela ganham proporções alucinantes. E depois o Trilho das Lampas é corrido uma parte de dia e outra parte, invariavelmente, de noite para atletas do seu "nível". Medos redobrados mas espantosamente multiplicadas as sensações vividas inovadas por completo também no sabor da noite. E se correu bem o 1º, estive também no 2º. E claro, não podia faltar ao 3º!

Andava um pouco afastada do calendário de provas, por ter andado a tratar uma lesão, e quando dou por mim tenho o convite do meu amigo Fernando Andrade, organizador deste Trilho e da Meia Maratona, a 2ª mais antiga de Portugal: a Meia Maratona de S.João das Lampas, o convite, dizia eu, precisamente para a 3ª edição do Trilho das Lampas. Numa altura em que já estava praticamente recuperada, e as inscrições no Trilho esgotadas, este convite era irrecusável e aceitei-o de bom grado e a par das edições anteriores posso dizer que tenho lá estado sempre com a motivação extra que este amigo me dá e que sempre me empurra arriba acima.

Então, tudo o que digas é subjectivo, dada a tua relação de amizade com o organizador... já estou a ver - interpelou a voz, desafiadora e desconcertante.

Eu sabia que dirias isso, mas amizade à parte, numa Corrida e na Vida, sei apreciar com clareza o que de bem se faz e igualmente o de menos bem se faz, até e principalmente para que seja corrigido e melhorado. A crítica serve para alertar e dar a oportunidade de melhorar. Nem sequer estaria a ser amiga se omitisse o que quer que seja que não me pareça bem.

Ok, ok, volta lá ao Trilho.

Pedi ao meu mano que levantasse o meu dorsal na véspera. Sempre seria menos uma a estorvar no dia da prova. Assim, no sábado à tarde dia da prova, saí de casa com tempo e tinha tudo preparado. Encontro uma S.João das Lampas em festa como sempre que lá vou. Pórticos preparados, muitos atletas a dar mais cor ao largo e a sala para levantamento de dorsais perfeitamente calma, organizada e muito bem ornamentada para nos receber. 

Cumprimentos, abraços e beijos: as Corridas são sempre ponto de encontro de amigos e conhecidos, e depressa se aproxima a hora de partida. Umas breves palavras pelo Fernando e eis que a Partida é dada pelo Presidente da Junta, que apoia este evento.


Parto cá de trás. A relva macia é muito agradável, já tinha dado para ver durante o curto aquecimento. Depressa saímos do asfalto e entrámos nos trilhos. Adoro. Adoro mesmo. Apanho o meu amigo Adelino nos primeiros quilómetros, que não está no seu melhor e acabo por fazer o resto da prova com ele numa ajuda mútua e constante.


Este ano, porque a organização esticou um pouco o percurso antes do trilho, não houve o afunilamento dos atletas tão cedo. Apenas num outro ponto mais para a frente e por breves instantes. Numa altura em que sabíamos que mesmo se pudéssemos correr, não o faríamos pois a inclinação já se fazia sentir nas pernas. Estava a ver que nunca mais descansávamos! Este era o espírito. Mas sempre que se pôde, correu-se! Salvo nas subidas compridas e bem inclinadas e nas subidas e descidas por meio dos pedregulhos, a exigir alguma técnica e eu tenho muito para aprender também nessa área. Mas não deixo de as fazer, dando sempre passagem a alguém mais destemido que eu que vá mesmo atrás de mim e que eu esteja a fazer de rolha impedindo a passagem.


Temos abastecimento de água em copos que se enchem quantas vezes quisermos, a partir de garrafões. Gosto da ideia e do conceito.


Mais à frente, o Grupo Folclórico a animar a malta. 


E lá seguimos, já com o mar à vista, mas lá, longe.

Chegamos à praia ainda de dia, como nas edições anteriores. Subimos a falésia e ao chegar cá acima, aqui mesmo onde estamos sentados, vemos que continua a luz do dia! Estamos a andar mais Adelino! Sim, nas edições anteriores chego sempre aqui já noite e é necessário ligar o frontral. Hoje não! Ainda mais bonito o Pôr-do-Sol visto daqui! Lindo! Sobre o mar. Ainda atletas a descer e a atravessar a praia. Seguimos juntos. O Adelino não está no seu melhor e eu se por um lado lhe faço companhia, aproveito a boleia de quem tem experiência disto como poucos que conheço e sigo-lhe os passos. Nas arribas, nas descidas, nas subidas, agora às escuras, entre vegetação cerrada, guiando-nos pelos imensos reflectores que nos indicam o caminho de forma certeira. Ainda assim, mais que o vez o Adelino me chama ao Trilho certo, porque eu sou muito despistada... 

Um novo abastecimento, onde chegamos já noite dentro. Aqui há água, laranja, banana, batatas fritas, que se estão ali pelo Sal, dispenso-as pela gordura e preferiria sei lá, por exemplo tomate e sal...ou umas pevides salgadas...

Ah...então a menina tem preferências de ementa...como se estivesse no restaurante...estou a ver...

Ora, é uma sugestão, uma preferência que com os meus parcos conhecimentos de nutrição se adequaria bastante melhor às circunstâncias, e claro, também uma questão de gosto pessoal.

Sorriso a iluminar a arriba.Depois ela continuou a falar:

Depois do abastecimento, onde literalmente parámos para abastecer, nós e muitos que lá chegaram nessa hora, onde enchi o meu copo de água mais que uma vez, deixei o lixo no sítio certo, desfazendo-me de uma das garrafas que levara comigo desde a Partida e que entretanto já esvaziara, e seguimos caminho. De novo e sempre eu e o Adelino. Vou à frente, parece que o puxo, sinto-lhe a respiração, e a presença do seu frontal indicava-me se ele se mantinha perto ou se estava a atrasar-se muito e nesse caso, abrandava um pouco. Não o queria deixar nem queria que ele me deixasse. Depois, ele lá recuperava e parecia ganhar forças e era eu que o seguia de perto, não sem dificuldade.

A noite, o mar ali ao lado, o seu cantar, a maresia na cara, as luzes de frontais de atletas já ou ainda distantes, as pedras, a terra, a vegetação, o oscilar da luz  ténue do meu frontal no solo, o pó, o coaxar das rãs, a nossa respiração, o meu coração, os meus músculos, o meu corpo e a minha alma perfeitamente assimilados pela Natureza, e ela por mim, numa simbiose e harmonia perfeitas.

Afastamo-nos do mar agora e o Adelino sempre atrás de mim. O caminho da ponte romana, iluminado por archotes. Muito bonito e útil também, tendo em conta que a luz do meu fontal estava cada vez mais fraca.

Elementos da organização pelo caminho, a indicar o caminho, a avisar dos desníveis, dos potenciais perigos, a incentivar, a empurrar-nos para a frente. Para a frente é o caminho. 

Ainda caminhámos mais uns metros. A inclinação faz-se sentir e as pernas sentem o tratamento que já tiveram até aqui. Quilómetro 17 e já não falta tudo. Avançamos sempre que o terreno perde a inclinação ascendente e eu, entusiasmada aí, mais que uma vez o Adelino me chama para o Trilho certo. E eu volto, volto sempre ao Trilho certo. E onde começa a iluminação pública, desligámos os frontais. Ainda passámos um atleta ou outro mas estamos juntos e juntos nos vemos a chegar ao largo de S.João das Lampas. A relva macia é muito agradável, já tinha dado para ver durante o curto aquecimento. E agora, estamos a correr para a Meta. Alegria. Sinto alegria. Muita alegria! Corremos! Fortes! 

Meta cortada e marca o meu Garmin a distância de 20,460 Km e um tempo de 2h44m42s

Soube depois que fui o 653º atleta a cortar a meta, de um total de 804 chegados.

O meu pai presente. O Zé Gaspar presente. Máquinas em punho numa noite já fria para quem está à espera quase há 3 horas. 

Uma sopa quente esperava os atletas, que eu tinha já dispensado a minha ao meu pai que a degustou bem antes, andava eu pelo Trilho a sorrir e com as pernas a doer, de coração cheio. Quando acabo, o estômago não a aceitaria de qualquer forma. Uma laranja, uns bolinhos, água e estava completo o saco à chegada. Disponibilizou ainda a Organização, fogareiros para quem lá quisesse cear e fazer os seus grelhados, o que não foi o meu caso.

Grande relato...tão longo como o Trilho. Ufa! Parece portanto que a menina gostou e não tem nada a apontar à organização...

Sorriso. Novo sorriso. E remata:

Este é o meu Trilho certo! Parabéns e Obrigada Fernando Andrade e para o ano cá estarei de novo! 

Agradeço a companhia e companheirismo do Amigo Joaquim Adelino e desejo-lhe que tudo lhe corra bem nos 100 Km de S. Mamede que ele vai enfrentar já neste fim-de-semana

Agradeço também à Anabela Rodrigues, responsável pelo facto de eu ir tão bem calçada, como há anos não andava (corria) e além disso, gira! 

E se ainda não se atreveram nos Trilhos, do que estão à espera?  Este é o meu Trilho certo. Descubram o vosso.

Maria Sem Frio Nem Casa


Classificações podem ser consultadas no site da prova, aqui

Mais informações diversas sobre este 3º Trilho, no Facebook, aqui

Deixo-vos agora imagens de um cheirinho do que foi este 3º Trilho das Lampas:

Alguns videos:
Por Rui Infante:



Por Rui Marques:



Por Simão Seiça:

Algumas imagens para registar e recordar também este 3º Trilho:
A t-shirt, prémio de presença para todos

O meu dorsal

O registo do meu Garmin
Outras imagens que falam:

Equipada:

Os ténis à estreia, depois de alguns treinos, claro (2 apenas e pequeninos, que o tempo não chegou para mais)
Do levantamento dos dorsais:


Com o Organizador, o meu Amigo Fernando Andrade:

A aquecer antes da Partida, com o meu Amigo Joaquim Adelino com quem acabei por partilhar a prova praticamente toda, numa ajuda mútua  e companheirismo:


A Partida dada:

Foto de Sidónio Ginja

Foto de Sidónio Ginja

E lá vou eu, concentradíssima, como se vê:
Foto de Sidonio Ginja


Partida dada há escassos minutos e lá vamos nós...Obrigada Leonor Duarte












Meta alcançada:


Meta cortada, respiração de regresso à calma e o reencontro com o meu Melro:

E o diploma, para a posterioridade:


Mais fotos em:

Pela AMMA - Atletismo Magazine Modalidades Amadoras, aqui

Pela Leonor Duarte, aqui

Pelo meu Pai, o Melro, aqui

Por P.S Fotografia, aqui 

Pelo O Praticante, aqui

10 comentários:

ajb disse...

Parabens Ana , que post espectacular...

Não consegui inscrição , mas foi a acompanhar um amigo meu, nas calmas , só a desfrutar dos trilhos , das paisagens magnificas do põr-do-sol saloio, e das gentes das Lampas e arredores...
Não atrapalhei ninguem , nem agua bebi nos abastecimentos , e nem cortei a meta oficial , mas cortei a meta de ter assistido ao 3º trail do meu amigo que corre há pouco mais de um ano. :)

Parabens, pela bela prova , mais uma para o curriculum. :)

bjs

nunogiao disse...

Parabéns!!! Excelente prova e bonito relato :)

Carlos Cardoso disse...

Que belo relato Ana.... sim, foi tudo espectacular, o percurso, a companhia, os abastecimentos (pronto, faltou o tomate com sal para ser perfeito ;)), as fotografias, o por do sol ... mas sabes o que é o melhor? A alegria com que correste, sinal que estás bem :):):) e isso nota-se neste teu texto ... já à algum tempo que não lia algo tão contagiante e positivo neste teu cantinho :) ... muitos parabéns!!!
Beijinhos

P.S. e as sapatilhas são bem catitas (a Anabela até tem bom gosto - xiuuuuu... não lhe digas que eu disse isto, se disseres eu nego tudo, vejo-me aflitinho para a aturar:)) ... tb quero umas Ultra Raptor (noutra cor evidentemente), pois pelo que se diz por aí são as melhores para trail.

RUN BABY RUN disse...

Epá, já tinha saudades de te ler assim... Gostei muito. Já sentia falta destes teus relatos mais emocionados.

Parece impossível, mas ainda não consegui participar neste trail. É uma falha imperdoável que espero colmatar no próximo ano.

E deixa-me que te diga que ias MESMO gira! Muito colorida, como eu gosto, a condizer com o teu sorriso alegre. Todo o quadro está pefeito!

Parabéns 'Maria' ;)

Fernando Andrade. disse...

Um quadro perfeito pintado ao inconfundível e tão agradável estilo da Maria.
Quanto ao abastecimento dos 13Km, os amendoins salgadinhos, que tínhamos ido comprar duas horas antes...esqueceram-se deles na Sociedade. Ficaram as batatas fritas, que nem todos apreciam. Mas amuei... quando referiu que éramos uma organização "sem tomates". Para a próxima vamos lá ter paletes, eheh. Grande beijinho, Ana e obrigado pelo excelente relato, que fica marcado para a nossa colecção, quando um dia, fizermos a história do Trilho.

Isa disse...

Lindo relato Ana. Gostei muito de ler e sentir a tua boa disposição.
Gostámos de te rever, até um próximo trilho! :)

Beijinhos

j. Costa disse...

Belo relato no regresso ás corridas.Bem vestida , bem humorada e feliz...não é preciso mais nada.BJ

Corre como uma menina disse...

Parabéns, Ana. Podes correr poucas vezes em trilhos mas, quando os corres, também os (d)escreves muito bem. :)
Beijinhos

Anónimo disse...

Ana,

Parabéns pela prova e pelo excelente relato da prova. Tu és uma mulher com H grande, uma mulher com muita força...não só física como intelectual.
Parece-me que temos Ana na próxima Maratona do Porto mas até lá, não exageres no esforço e tem cuidado com as lesões. Yes!!!!!!

Bjs.
Fernando Sousa

joaquim adelino disse...

Já tardios mas deixo aqui o meu agradecimento pela companhia e apoio durante quase toda a prova. Está mais que provado que a minha máquina só começa a carborar (quando ela quer) só a partir do 5/6 kms após a partida, mas ali estava a ficar muito emperrada, felizmente estava por perto e ajudou-me a activar isto. Parabéns pela sua prova, está já muito bem preparada, embora as Lampas seja o Trilho de eleição creio que está em condições de dar mais um saltinho na "carreira", e se existem aí tantas coisas boas para fazer! Bjs.