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quarta-feira, 2 de julho de 2014

O Cupido e a Crise - PARTE III

Para que haja um mínimo de hipóteses, mesmo que remotas, de perceberem alguma coisa do que escrevo de seguida, convém ler primeiro:

O Cupido e a Crise - PARTE I, aqui.

e depois O Cupido e a Crise - PARTE II, aqui.

E agora sim, a continuação desta novela:  


O Cupido e a Crise - PARTE III


O que o Cupido não imaginava, é que depois de retirar a seta ao rapaz, pensando ter remediado o mal, não deixara apenas a ferida aberta, que cicatrizaria naturalmente em poucos dias, mas deixara também, bem profundo na carne a criar raízes entre músculos e vasos sanguíneos, bem perto do coração, deixara também... um pedaço da seta lançada naquela malfadada noite.

E por isso o rapaz tem sofrido e por isso a ferida não há meio de fechar. Ele bem se tenta distrair, olhar para o lado e assobiar mas em horas impróprias, sem aviso ou notícia, ela invade-lhe o pensamento, instala-se à sua frente sentada de pernas traçadas e braços abertos, sorrindo e provocando-o descaradamente com aqueles olhos doces malandros.

E o pior é que se voltaram a encontrar. E se ele já se estava a preparar para a esquecer, para se convencer que tudo não passava de imaginação e desejo seu, ela, com o seu ar doce e natural, olha-o como só ela sabe e transporta-o para além com um poder que mais ninguém tem. E pior ainda, depois de se cumprimentarem com dois naturais beijos na cara, ela descarada e naturalmente pede-lhe uma repetição de beijo. E ele, tão feliz quanto ingénuo e sonhador, derrete-se num sorriso de orelha a orelha, aproxima-se dela como íman, deliciado, e lentamente beija-a de novo nas faces. Primeiro a direita. De forma lenta, sensual e intensa. A sentir cada milímetro da pele macia dela a deslizar na sua. Os lábios dele tocam-na e deslizam suavemente quase ao encontro da boca dela para então numa súbita réstia de bom senso, afastar o rosto dele do dela, as bocas a  mílimetros, para então repetir o acto na face esquerda dela. 

Ouviram-se os sinos, os anjos tocaram arpas e ele esteve uma eternidade no Paraíso, apesar de aos restantes comuns mortais, aquele segundo beijo entre eles, perfeitamente dispensável pois já se tinham cumprimentado naquela noite, tenha durado o tempo escasso de brevíssimos segundos. Para ele foi uma eternidade adorável e doce e agora recorda cada miléssimo de segundo como instantes felizes na sua vida. Tão pouco e tanto! Começa a gostar mesmo daquela rapariga, pensa. 

Por vários momentos em que os seus olhares se tocam, ele sente vê-la para além da imagem que ela dá a todos. Sente-a além. Como se visse para além. Para além do sorriso habitual e da igualmente habitual simpatia. Como se visse para dentro dela.

Mas ele precisa e quer ver mais. Sente-se cada vez mais atraído e mais interessado. Não por aquela imagem simpática que a rapariga vende a qualquer um, mas verdadeiramente por ela, pela sua essência, pedaços dela que ela deixa escapar propositadamente ou não, por breves instantes aos olhos dele, atento. 

E ele quer mais. O sacana do Cupido bem que podia dar uma ajuda. O rapaz não percebeu ainda o que está efectivamente além daquilo que todos vêem nela. Ele, enxerga além, mas o horizonte está ainda turvo. 

Não desiste, pensa nela a toda a hora e acredita que ainda vai poder saborear aquela rapariga de verdade, longe das luzes da ribalta, da imagem criada, por ela e por ele também.

Em relação ao sacana do Cupido, o rapaz nem sabe o que lhe dizer ou fazer. Sabe-lhe bem este sentir. Adora sentir-se vivo de novo e só por isso, lhe agradece e perdoa a falta de setas naquela primeira noite.

2 comentários:

Jorge Branco disse...

Hummmmmmmmmmmmm....
Estou a ver que daqui a uns 100 capítulos ainda temos um casamento!
Mas até lá os Telespectadores, quer dizer os leitores, ainda vão ter de sofrer a bom sofrer!
Beijinhos "piquena".

Horticasa hoticasa disse...

Agora não podes acabar assim, adoro folhetins...
beijinho e vê lá se te inspiras para isto acabar bem