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quarta-feira, 18 de setembro de 2013

O dia em que a Cindy nos deixou (6ª feira, 13 de Setembro de 2013)

Sinto...

Ainda lhe sinto o corpo, morno, de encontro ao meu. As costas dela contra o meu estômago, num misto de aconchego reconfortante e pressão dolorosa que me enrola o estômago e que não é mais que o efeito do meu derradeiro e inútil abraço. A sua pequena cabeça, apoiada no meu braço, ligeiramente pendida deixando escapar fluidos de um corpo inerte, que através do lençol branco, agora manchado, se colam à minha pele. O odor fétido da morte. A mancha no lençol branco. O peso misteriosamente agradável que suporto com ambos os braços. O corpo tépido, de temperatura agradável, que confundo com o meu próprio calor e com o do sol desta tarde quente. Um prazer aconchegante. Uma ameaça de náusea que no entanto me impede de a soltar. Aquele abraço conforta-me e dói-me ao mesmo tempo. Seguro-a nos braços como se segurasse tudo o que a sua morte representa e pudesse dessa forma evitar que ela acontecesse.

Foi horrível levar o seu pequeno corpo embrulhado.

"Entrega de cadáver" - era o cabeçalho do documento que preencheram por mim e que tive de assinar.

O corpo. O corpo dela embrulhado e agora colocado no saco de plástico preto. A colocação do corpo dela no frio. A aguardar a incineração.

A Cindy nunca foi verdadeiramente o "meu cão". Era o cão (cadela) da casa dos meus pais. Uma entre vários que eles tiveram ao longo da vida. Mas ela persistiu ao longo dos anos. E se eu tenho 44 anos, ela esteve lá pelo menos metade da minha vida (perde-se no tempo a sua idade exacta, mas associada a outros factos, sabe-se sem incertezas que a Cindy tinha no mínimo 23 anos!). Toda a minha vida adulta portanto, ela esteve lá. E se na minha vida adulta não morava lá, sempre que lá ia, ela lá estava. Fazia parte da casa dos meus pais. Fazia parte deles! E agora deixou-os. Deixou-os e entrega-se nos meus braços. Seguro-a com firmeza e entrego-a com relutância. Como se quisesse e pudesse evitar. Como se pudesse parar o curso natural da vida. Como se pudesse impedir o inevitável: a morte. Agora dela e um dia deles. Mas não posso. Entrego-a.

Jamais a esquecerei. Ficam as memórias. As boas, que hoje já recordo com um sorriso e falo delas com saudade e carinho, porque sei que agora a nossa Cindy descansa em paz. (os últimos dias foram de agonia e sofrimento)

 Um dia de banho (ai que não gosto nada!):







Uma curta metragem, personagem principal: Cindy:


Verão 2013 (o último da Cindy):


Depois....nessa mesma 6ª feira, a vida continuou, a fazer valer a velha e verdadeira frase "a vida continua". Sorri, cantei, gritei, ri, viajei, corri e não chorei. São estranhas as pessoas. Sou estranha eu. E nós, que nos vemos uns aos outros, pouco ou nada sabemos uns dos outros...

Os dias seguem, mas por uma razão qualquer, por várias ou por nenhuma... seguem sem treinos...

16 comentários:

Isa disse...

Lamento pela Cindy e por vocês que conviveram com ela durante tantos anos. Infelizmente chega um momento quando eles estão a sofrer que mais vale assim.
A Cindy foi feliz durante pelo menos 23 anos e é disso que devem tentar lembrar-se, dos momentos de alegria e felicidade que partilharam com a Cindy.
Que descanse em paz a Cindy.
Beijinho e força para a retoma desses treinos.

Carlos Cardoso disse...

A Cindy teve uma vida longa e feliz (pronto...talvez na hora do banho menos), e isso é que é importante. Sei bem o que custa, pois já passei por isto (várias vezes). Ficam as boas memórias e a vida continua.
Beijinhos

correrporprazer disse...

A vida é feita de alegrias e tristezas.
Certamente terás muitas memórias que nunca irás esquecer de momentos unicos!
Força!
P. S. - O Parque Urbano tem sentido a tua falta. :-)

Lénia disse...

Beijinhos Ana! Não tenho animais em casa, mas tive uma cadelinha quando era pequena e ainda hoje sinto um nó na garganta quando penso nela e na forma como partiu.

23 anos de dedicação. Muito bom. Foi uma boa companheira.

Jorge Branco disse...

Só quem já teve um cão, e passou pelo menos, sabe o que é isso!

Anónimo disse...

Olá Ana,

Também estou triste por ti...e pelo cãozito. O que escreveste também me fez pensar...em tristezas. Mas adiante.
O diabo anda-te a desviar do caminho certo ou quê? Não desistas dos teus objectivos, vá lá, está quase a chegar o grande dia. Força! Vá lá, vamos a atacar os treinos de 30kms com esperança e determinação. Vai um empurrão?

Bjs
Fernando Sousa

Eugenia Do Vale disse...

Sem treinos?? Mau!... Não podes seguir sem treinar, não agora que estás tão perto....
Perder um amigo de quase toda a vida é mau, mas a vida continua e a morte é a coisa mais certa que teremos nesta vida...

Eugenia Do Vale disse...

Beijinhos....
que me esqueci

Sergio disse...

Lamento. Nunca tive cãos, mas imagino ser realmente muito triste...
fiquei mais triste de saber que você está sem treinar. Faça a maratona em homenagem a ela! corra!
beijos do Brasil,
Sergio

Bons Km disse...

=´[

Corre Piolha Corre disse...

Percebo cada palavra que descreves. Parece que é uma parte de nós que eles levam com eles. Eles fizeram parte de anos na nosa vida, e é impossivel ficar-lhes indiferente. Eles entregam-se a nós, e dão a vida por nós, nunca nos deixam... Acredito mesmo que se pudessem falar nos diriam que nos amam!
São nossos amigos desde o momento em que os acolhemos até que eles nos deixam. E nós relembramos eles para sempre pois eles foram uma parte de nós!
Que a cindy descanse em paz.

Um beijinho grande

S* disse...

Caramba, puseste-me a chorar. A Cindy era linda... 23 anos? Mas que princesa guerreira, com uma vida muito longa. :')

Corre como uma menina disse...

:(
Era bem bonita a Cindy, e de ar pacato. Teve uma vida grande.
Beijinhos

Corro, logo Existo disse...

Eles entram de mansinho na nossa vida e tornam-se num elemento da nossa família.

Ela pode ter partido, mas as boas memórias permanecem connosco e podem até servir para nos dar força quando estamos quase a desistir.

Bons treinos e FORÇA para a Maratona.

Fernando Varela.

Ingrid disse...

Ana,
Que triste, mas a vida segue.
Animais são fiés e nos ensinam o amor sem limites, sem cobranças.
Eles partem e nos restam as lembranças, como em tudo.
Mas agora vamos voltar aos treinos e tocar a vida pra frente.
Bjo grande,
Ingrid

Portuguesinha disse...

Senti a mesma sensação estranha de que ninguém é "bruxo" quando "perdi" o meu animal de estimação.

Eu arrasada, a tentar levar a vida para a frente e ninguém podia adivinhar... qd alguém perguntou veio uma enxurrada de refreadas lágrimas :)

É a vida.