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quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Quando nós somos os outros

Adoro conduzir. Volante nas mãos, máquina à minha mercê, controlada, poderosa, mais de uma tonelada de metal em deslocação veloz, peso bruto, potente, forte, a devorar asfalto, a comer quilómetros e a levar-me mais além até onde eu quiser, máquina bruta e assassina mas suave e delicada às minhas mãos, besta controlada, e eu sinto-me especialmente bem! Conduzo todos os dias. Coisa pouca, o necessário e o possível, dadas as inúmeras limitações. Mas adoro!

Numa determinada curva da minha "aldeia", onde passo sempre, via rápida ladeada por "rails" de ferro, via rápida que convida a acelerar por escassos quilómetros, coisa pouca portanto, noite escura, aproximação da curva, estrada em mau estado, berma quase inexistente, abrando. Não tanto (mas também) por ter de fazer a curva, mas por me lembrar que podem vir ali outros, pessoas a caminhar, a correr ou a andar de bicicleta, pois à falta de melhor quando a noite começa ao fim da tarde, ainda a horas que deveria ser dia, as bermas da via rápida são usadas como verdadeira pista de manutenção, para andar, correr e andar de bicicleta. São estas as condições da minha "aldeia" para se praticar exercício físico ao ar livre em pleno Inverno. E eu abrando a máquina. Dou sempre um espaço na curva apertada, mantendo determinada distância entre a besta de ferro, potente, e o "rail", também de ferro, sempre à espera de dar de caras com um desses heróis corajosos que se exercitam àquela hora fria e escura, naquelas condições, vulneráveis e frágeis perante as máquinas assassinas que se deslocam ali muitas vezes a mais de 100 km/hora quando nem têm condições para isso. Abrando sempre e faço a curva. A pensar nos outros.

Outras noites, quando treino e ali passo a correr, como eu desejo e gostaria que os outros, outros nessas noites, condutores dominantes dessas máquinas potentes com que me cruzo, que tanto têm de magníficas como de assassinas, dependendo das mãos, cabeça e coração de quem as manobra, se lembrassem que outros possam ir ali a correr, noite escura e fria, vulneráveis e frágeis, e que nessa noite o outro sou eu, assim como noutras noites, esse mesmo outro... serão eles. Mas muitos poucos têm essa capacidade... de perceber que em todas as situações... nós podemos ser e somos também o outro.

7 comentários:

Jorge Branco disse...

É quando leio coisas destas que desço à terra e me lembro a felicidade que tenho ao poder correr em situações que podem considerar idílicas comparadas com as aqui descritas.
Não me é difícil correr duas horas sem ver um carro!
Há sempre uma enorme tendência para nos esquecermos dos outros ou pensarmos que podemos uma vez sermos nós e em outras alturas estarmos no lugar dos outros.
Mas provavelmente quem usa essa estrada na dupla condição de corredor e condutor tenha outra visão das coisas embora, infelizmente, não me admire nada que de haver corredores que quando vão ao volante de um carro se esquecem dessa sua condição de praticantes de corrida e isso é o mais triste de tudo.
Beijinho “Pikena”.

horticasa disse...

Eu costumo dizer:
- As pessoas sentam-se ao volante e transformam-se em monstros assassinos.
Porque eu vejo atitudes de pessoas que eu conheço, completamente opostas do que são quando andam a pé.
Ainda bem que não te transformas.
beijinho

.JOSÉ LOPES disse...

Olá Ana
gostei deste tema,pois sou confrontado todos os dias com essas máquinas demoníacas

bjs
j.Lopes

Bluewater68 disse...

Tão, mas tão pertinente este aviso. Em relação à corrida, tenho a sorte de fazer os treinos longos ao Domingo, numa zona onde não existem carros e ao longo da Ria Formosa, um verdadeiro paraíso. De semana, à noite, consigo ir para a pista e, quando saio de lá, dá para ir pela vergonhosa "pista" para bicicletas que foi feita em Faro. Mas entretanto, descobri um novo receio: andar de bicicleta.
Se a correr podemos ir contra o trânsito e antecipar o perigo, de bicicleta, é fazer figas para que todos os ases do volante se desviem o sufiente ao ultrapassar e rezar para que ninguém se distraia e desvie para a berma.

Slowly Gonzales disse...

Toda a razão. Civismo/ Consciência, do eu ou do outro, evitava muitas situações. Felizmente posso evitar correr junto a estradas, mas quando ando de bicicleta (o meu grande medo!)vou sempre de coração nas mãos.

Carlos Lopes disse...

quantas vezes a necessidade pisar as margens das bermas, para fugir a um possível encontro entre o atleta e a chata de alguém

Só comigo disse...

As pessoas transformam-se atrás de um volante. Consciência? poucos têm