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terça-feira, 17 de novembro de 2009


Ela sabe que o vai fazer. Talvez hoje. Ou talvez não hoje ainda. A noite mal dormida, as horas a olhar para as horas, satisfeita por ainda ter horas para dormir que acaba por não dormir e apenas lhe dar mais horas a olhar para as horas, não lhe favoreciam o optimismo nem a clareza de ideias. Mais valia que estivesse a dormir. Quantas vezes, o que pensamos é tão…tão… que mais valia estarmos a dormir e não pensarmos sequer.

Mentalmente previu a cena. O levantar, enfiar as calças de ganga e a camisola, abrir a gaveta, libertar os comprimidos azul bebé ou cor-de-rosa ou de outra qualquer cor suave e doce de que se gostaria a vida ou a morte, com a certeza no entanto, de que esta não o é, nem doce nem suave, pois é sempre feia e fria e cheira sempre mal até nos nausear e revolver as entranhas até estas nos saírem pela boca num clímax de horror, do blister de plástico transparente, e em grupos de três ou quatro introduzi-los sobre a língua, para de seguida engoli-los com um grande copo de água.

O levar os filhos à escola, despedir-se com um beijo e um abraço, detectar que o carro está amassado e não ter dado conta de ter batido ou encostado sequer. A insensibilidade ou a falta de memória, deixa-a admirada mas não a assusta. Voltar a casa e deitar o corpo sobre a cama e sentir afundar-se nela. Não sabe se acordará ou se quererá sequer voltar a acordar. Não sabe se será hoje ou não. Até um dia a vida a apanhar sem surpresa afinal e a lixar. Numa altura em que ela não quererá, adivinha...

11 comentários:

José Alberto disse...

Bom dia Ana,

A quem não tem saúde ou capacidades, não é justo que se peça que lute contra o desânimo e vá correr.

A quem ama a corrida, a quem se transfigura quando entra numa corrida, a quem conhece tudo de corrida, acho que é lícito que se lhe exija que contrarie a depressão e que vá correr.

Claro que há sempre remédios aparentemente mais fáceis... mas até quando.

Um dia, daqui a muitos anos, vamos olhar para trás e e arriscámo-nos a dizer: Perdi o meu tempo!

Arrisco-me a ser injusto consigo, mas assumo esse risco, pois acho que vale a pena.

Com amizade

José Alberto

joaquim adelino disse...

Que há "alguma coisa" há...
Um não sei o quê
Um sintoma de vazio
Uma insatisfação que não explode de medo
Do medo de algo indefinido
Não se pode precisar se é só aqui ou em todas as partes mas, que há "alguma coisa " há.
Uma desesperança...um desestima...
Um encantado desencanto
Uma vontade de parar e nunca mais se mexer.
Uma vontade de se mexer até cair parado.
Uma ânsia de escutar as respostas do que não se pergunta.
Uma angústia de não saber a quem perguntar.
Talvez você não entenda...mas você sente...
Sente no peito...na cabeça...nas mãos...nos cabelos...nos bolsos
Que há "alguma coisa" há
Vaga...indefinível...preenchendo tudo...
Envolvendo tudo...nos fazendo nada...
"Helio Ribeiro"

Um beijinho do Pára.

Mité disse...

A força de continuar tem que existir, por nós e pelo que de bom temos , porque há sempre algo de bom, muitas das vezes não damos atenção. Preferimos ver o mau, damos-lhe mais atenção.

Mau como diz o José é falta de saúde e mesmo assim há quem consigo ver algo de bom, mesmo vivendo uma situação dessas.

Lutar, não baixar os braços, lutar por quem temos e nos merece. Lutar por nós, por mais que o desânimo esteja instalado...

Lutar não é baixar os braços é levantá-los por muito que nos pesem. A vida é para ser vivida e temos que a enfrentar e todos sabemos que não são só facilidades.
A arte está aí...na luta, por nós e para quem nós olha e espera que vençamos

Eu olho e espero...
Mil Bjos amiga

JOSÉ LOPES disse...

A "escrita" é boa

Não gostei foi do tema

Bjs
J.Lopes

Anónimo disse...

Passou mais de uma semana e só agora lhe venho dizer que muito gostámos de reencontrar a Maria e a sua "equipa" na Maratona do Porto.Depois da "massa" não nos voltámos a ver.Fiz a Maratona num tempo "especial" para um sexageno...3h11m, o melhor dos últimos anos! Ainda bem que a Maria gostou da sua prova.Vá!Veja se dá um jeitinho nesses treinos, para que a nossa corrida seja a mesma!Abr.Tó Miranda

Fernando Andrade. disse...

Lá está a Ana a pôr-se na pele de quem não sabe o que há-de fazer com a vida que tem pela frente. A estória é um bom exercício de escrita, feito com o saber de quem tem o domínio dessa forma de comunicação.
Oh Ana, a ficção é boa, mas gostamos mais que, como disse o José Lopes, ficcione outros temas e delicie-nos com a sua arte.
Crie personagens positivas e "cole-se" a elas. Estou a lembrar-me daquele excelente "folhetim" que alimentámos no extinto Pista Oito e do que nos divertiu...(pelo menos a mim...)
Beijinho, Ana.

Rui Pena disse...

Olá Ana,

Acho muito interessante a coragem com que aborda este tema em público.

Penso, pelo comentário do amigo Fernando, se é uma personagem ou a Ana...


Mas pouco importa... o que importa é que sou da opinião que deve escrever sobre o que lhe apetece...

(já disse...)

Todos nós a continuaremos a ler.

Anónimo disse...

Olá
gostei de ler estas palavras da Maria, palavras que mexem com quem as lê, que nos fazem ficar a pensar, gostei...
Força Maria.
Beijunhos Ana.
António

Susana disse...

Olá Ana,
tens as tuas próprias razões para escrever estas palavras aqui, sentes necessidade de as expressar, ou não fosse a escrita uma boa forma de expressão que também eu, por vezes, me sinto bem em usá-la.
Beijinhos meus

Anónimo disse...

Sabe-se que a ficção é sempre, sempre sobre as nossas experiências. É inevitável. Podemos imaginar, podemos inventar, mas as fontes, aquilo quenos influencia... vem sempre da experiência pessoal. Quando um tema é recorrente, quando o assunto, volta e meia, é sempre o mesmo, é um sinal. As histórias podiam ser sobre motocross, mas não são; podiam ser sobre design de sofás, mas não são.
Os temas recorrentes são sempre umm sinal. Do quê? Leiam nas entre linhas a necessidade de suporte afectivo emocional. Se pretenderem compreender, é estar atento à metalinguagem. Maria Ferreira

luiz eduardo disse...

Obrigado pela mensagem carinhosa no meu blog, NASCE UMA CAMPEÃ. www.luizeduardocorredor.blogspot.com. Pelotas, Rio Grande do Sul, Brasil.