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sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Quase Natal...


O Cristo Rei sobre o Tejo, guardando Lisboa, assistindo impávido e sereno (que pode ele fazer, coitado?) à miséria humana em todas as vertentes: assaltos, violência, humilhação, morte, fome, abandono e frio. Sem casa e com frio dormem nas vielas, felizes ou indiferentes ao acordarem e olharem vitoriosos mais uma noite sem morrer. As necessidades feitas na rua e a luta por um cobertor e duas caixas de cartão. E matam-se. É esta a minha Lisboa.

Caminhamos a passos largos para o Natal. Demasiado largos os passos. Difícil reparar o que pisamos e o que nem vemos por tão largo ser o passo.

Já não posso dizer o que sinto. Nem tão pouco escrever (que foi essa a razão da criação do blog), sem amanhã ter os meus amigos a ligarem-me preocupados, e os que me estimam a dirigirem-me palavras de apoio e incentivo, aqui mesmo no blog, e ainda os super heróis, pessoas equilibradas (?) a comentarem algures que o blog até mete nojo com tanta choradeira e negativismo. Estão fartos. Não imaginam eles a razão que lhes dou.

Equilíbrio. Quem o tem? Ao atravessar descalço sobre as bermas de ferro gelado que une os pilares da ponte sobre o Rio Tejo, numa noite gélida de nevoeiro, sem ver o céu ou o mar? Quem tem? Quem consegue manter o tão saudável equilíbrio?

Eu só quero escrever. E correr. Mas hoje não consigo. Mas em vez de escrever um texto “daqueles” (ou destes) – lamechas e derrotista – e ir correr, como me aconselhou o Rodrigo, fico aqui porque simplesmente não posso ir. Não, não é falta de vontade, nem de força, nem sinónimo de fraqueza ou de resignação. É simplesmente um facto: não posso ir calçar os ténis e sair agora para a rua para ir correr. Como eu, milhares! Milhares por razões idênticas ou até bem distintas. Cada um que se governe! Não é o que se costuma dizer? (e fazer?)

Mas eu não perco esta mania, a que chamo necessidade, de vir para aqui… chorar. Sem lágrimas. Ou sorrir e soltar gargalhadas. Aqui. Foi para isso que criei o blog e continuarei a fazê-lo, pois de outra forma deixaria de … ser eu.

E tenho saudades

Saudades de um homem na cama
Um beijo na boca
Comida no prato
E de flores na mesa
E de uma costeleta grelhada
E de uma garrafa de vinho para dois
E de uma boa gargalhada
E de fumar um cigarro
E de correr ao sol e ao luar
E à chuva e ao vento
E de tomar um banho quente
Ou nua no mar
E de dormir até acordar
Sem o despertador tocar

Saudades de mim…

Eu

4 comentários:

António Bento disse...

bom dia Ana
sim, sim, continue com essa mania, porque os equilíbrios são feitos por cada um de nós, e porque precisamos dos desequilíbrios para redescobrir os equilíbrios...
e no meu caso, garanto-lhe, passar por aqui ajuda-me a equilibrar.
aprendo sempre e é sempre um prazer. e por isso volto. se não todos os dias, sempre que posso.
porque quero.
e a vida nunca é linear mas isso não é nenhuma fatalidade. por isso é bom viver. para procurar equilibrios. porque o que é dado nunca tem sal. sabe a pouco. vamos embora agarrá-la.
até breve,
ab

TOTO disse...

Ola Ana;
béla foto;
sim o Natal esta a chegar.
antoine

José que também corre disse...

A Ana acaba de me dar corda.

É verdade. No último fim de semana desloquei-me a Lisboa para participar na meia maratona.
Chegar do Norte e "desaguar na capital" não me deixou saudades.
Pobre capital de Portugal. Tanta miséria e pobreza juntas. Pobre Rua Augusta, pobre Rossio, pobre Praça da Figueira...

Que me perdoem os lisboetas. Lisboa tem muitas coisas boas, seio-o, mas aquele "coração"está ferido de morte.

Felizmente que tive um hotel onde me pude "entrincheirar" e fazer de conta que vivíamos numa cidade normal. Ao menos ali a miséria (aquela) não entrou.

A corrida, essa, foi muito agradável. Gostei. Para mim foi muito melhor que a da Ponte 25 de Abril, na qual já há muitos anos deixei de participar, porque sou avesso a determinadas vaidades. É a minha opinião.

A Ana desculpe mas também precisava de desabafar.

Álvaro disse...

Pois é, Anofa: E agora o Cristo-Rei até assiste aos senhores que negoceiam as misérias de África...
Boa atitude a tua, contra as dificuldades: Chorar ou rir, aqui no teu blog, mas sem lamechices...!
E o poema final é bom, mas sinto que merecia ser mais trabalhado. Quae chegavas lá se o fizesses - a um poema muito bom!
Beijo
Álvaro