
Não se lembra de ter parado de chorar. Enroscada nele, envolta pelos seus braços fortes e contra o seu peito nu e quente, soluçou toda a noite, encharcando-o de lágrimas, baba e ranho. Ora baixinho mal se ouvindo, ora deixando soltar um gemido mais agudo, em soluços mal contidos, espasmos absolutamente incontroláveis. Não se lembra de ter parado de chorar. Nem de ter chorado nem amado assim alguma vez. Nem de ter chorado o tempo suficiente para não se lembrar de ter parado de chorar. Na iminência e na possibilidade de o perder, soltou urros baixinho, dentro do peito até este estalar, imperceptíveis ao ouvido humano, apenas captados por um coração em sintonia. Chorou toda a noite. Sentindo-se impotente e insignificante e fraca para deter uma partida e uma perda forçada pelas partidas da vida. Chorou até cair na inconsciência do sono, embalada pelo calor do corpo dele, sentindo-o no entanto a cada segundo, mesmo dormindo, embalada pela respiração e bater do coração dele. Sossegou por fim, embalada e envolta por ele. Até de manhã, em que acordou exactamente como tinha adormecido, aninhada nele, mas de olhos secos e alma lavada.
É também assim a Vida e o Amor.
Sentia-se cansada. Não tanto de correr, pois até lhe parecia que não corria, mas de teimar em correr. A Corrida é como comprimido. Injecção de vida, de efeito mais ou menos duradouro. Conforme a dose, o paciente e a enfermidade. A ela, talvez por tantos anos de mau uso, já o efeito que sente, não passa de uma ténue sombra. Precisa de aumentar a dose, alterar a posologia ou até modificar as condições de cada toma.
Assim, chegou cedo à Costa da Caparica. Com os colegas e amigos de equipa. Uma chuva os esperava, que acabou por dar tréguas para a realização da prova. Sempre os reencontros agradáveis de velhos e novos amigos e conhecidos. Os tais, que mesmo não lhes conhecendo os nomes, ou sabendo estes, nada mais se conhece, e no entanto, um sentido e sincero prazer em rever nos enche o peito, como se aquilo que comungamos fosse suficiente para uma Amizade. E eu por ingenuidade até acho que pode ser. Trocam-se beijos e palavras.
Há que aquecer e partir. Para mais uma hora de comunhão. Não tanto com os outros, mas principalmente comigo. Tenho uma hora penso (marca que se veio a verificar). E durante uma hora corri. Quilómetros iniciais a cerca de 5m30s, para fazer a segunda metade da prova a bastante mais de 6 min / Km.
Uma prova para um corpo e uma mente cansada. Quando me vi forçada a abrandar, deparei-me com ela. Uma rapariga, ligeiramente mais nova que eu, a correr ligeira, magra e firme. A definir metas, a lutar por elas e a conquistá-las. A superar-se. Com prazer e motivação. A correr. Passo a passo, firme, constante, lutadora. Uma amante da corrida. Admirei-a, pois sei que não tem também (quem tem?) as melhores condições para treinar. E ainda assim, o faz. Inventa, rouba tempo e enche-o de vontade. Da sua vontade. E gasta-o a correr. Firme do que quer. Depois, depressa a perco de vista. O meu coração salta, em pânico. Pavor de a perder. Era preciso vê-la de novo, falar-lhe, tocar-lhe, saber que existe, que ainda corre e vence. Os olhos buscam-na esperançosos, na ânsia de a avistar, ao longe que fosse, nos seus calções pretos e top azul bebé. Os olhos correm rápido, bem mais que as pernas, mas a rapariga está já absolutamente fora de alcance, invisível e a esperança de a voltar a ver é frágil como folha de papel à chuva.
Resigno-me aceitando que muito provavelmente não a vou voltar a ver. Pelo menos, não nesta corrida. Mantenho o passo de corrida, cada vez mais lento e pesado. Valem-me as rolas a chamar os parceiros, empoleiradas nos pinheiros, as rãs nos charcos a coaxar e o ar fresco do mar. Inspiro todos os elementos. Inspiram-me eles também dando-me força para me arrastar até à meta, onde me recebem os que amo. Sorrisos. Amor. Mãos dadas suadas e um "Bah, Mãe, cheiras mal!" Sorrio, e agora sim, de novo, parece-me avistar ao longe a tal rapariga. Renovo a esperança. Afinal há fins felizes para divórcios infelizes. "Mas afinal... o que foi que aconteceu?"
XI Grande Prémio do Atlântico
Uma corrida sem grandes reparos. Organizada pelo Núcleo Sportinguista da Costa da Caparica, com o apoio técnico da Xistarca, o G.P. do Atlântico levou mais de 1000 atletas a correrem num percurso plano e bonito, do qual saliento a proximidade do mar, percurso esse totalmente fechado ao trânsito, com quilómetros marcados, e abastecimento sensivelmente a meio. Controlo por chip e partida e chegada com nível. Uma t-shirt, medalha, refrigerante e água compõem o saco do atleta à chegada. Classificações disponibilizadas muito rapidamente e bom ambiente no geral. Nota positiva para a organização.
Já o mesmo não se pode dizer da Caminhada, que se pretende uma actividade sem fins competitivos, de incentivo à actividade física, e que como tal seria de louvar, mas que ano após ano, ali, na Costa da Caparica tem sido uma trapalhada das maiores, que se vai repetindo. Sem recursos para melhor organização desta prova aberta a todos que não podem correr os 10 Km da prova principal, em minha opinião, o melhor que faziam seria aboli-la. Desde trânsito aberto em plena estrada por onde seguia a Caminhada, até total descontrolo do percurso, e grande desorganização que levou as pessoas a seguirem caminhos diferentes, praticamente tudo me leva a opinar que a Caminhada a continuar a ser feita nos moldes actuais só mancha uma organização que atingiu um bom e reconhecido nível no Grande Prémio do Atlântico.
De qualquer forma, abstraindo-nos desta moda que a organização tenta implantar, está o Grande Prémio do Atlântico em muito boa forma e recomenda-se. Parabéns pois à organização e a todas as entidades envolvidas.
Ana Pereira





