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sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Até já Abelha Maia



Querida Abelhinha

Faz mais de uma semana que nos deixaste. Faz mais de uma semana que te visito diariamente. Não. Minto. Visito-te mais de uma vez por dia. Para ver se estás "bem". Como se estar morto pudesse de alguma forma significar "estar bem". 

Aguentaste a noite e de manhã, voltei a aconchegar-te, pela última vez, sei-o agora,  no meu colo e ajustei a mantinha ao teu corpo encostado ao meu. Soube sem saber, que não durarias muito mais, acariciei-te e dei-te um beijo na cabecinha, autorizando-te a partir, meu amor. "Podes ir, querida, podes ir...", disse-te. Saí para comprar pão e quando voltei cinco minutos depois, já cá não estavas. A Morte tinha entrado em casa e tinha-te levado minha querida. Encontrei o teu corpo quando voltei, quente, sem vida, flácido e inerte. Toquei-te e percebi que já tinhas partido. Peguei-te e por instantes quis o meu coração ver-te viva, a ilusão de um ténue movimento do tórax, a dizer-me mentindo que estarias ainda a respirar, mas não, era ilusão e os teus olhos abertos agora sem vida e a cabeça pendida, diziam-me o contrário. 

Querida Abelhinha, nunca pensei que perder um ser assim, como tu, tão pequeno e "insignificante" pudesse tocar-me tanto. A Morte, cobarde, entrou em casa quando eu não estava e levou-te. O ser mais frágil. Aquele que tratei como um bebé, que alimentei a seringa, que lutei para resistir noutra ocasião. E conseguimos nessa altura, meu amor! A alimentação especial, a medicação e sem dúvida o amor agarraram-te à vida no passado. Mas agora, assim de repente, nada disso foi possível ou suficiente.

No espaço de 24 horas, disseste-me que estava a chegar a tua hora e partiste. 

Não consegui fechar-te os olhinhos. Deixei-te embrulhada num lençol branco dentro de uma caixa de cartão. Agora não havia tempo para tratar de ti, e tinha de ter a certeza de estares morta, minha querida, antes de decidir o que fazer ao teu corpo. À noite, com a alma do avesso, desembrulhei-te e olhaste-me sem vida, com a tua carinha fofa, serena, sem dúvida em paz e sem sofrimento agora. Não consegui fechar-te os olhinhos, minha querida. Fechei o lençol e vi-me rua acima de pá às costas  e um cadáver debaixo do braço.

A terra está dura apesar da chuva dos últimos dias. Há raízes e pedras. A pá parte-se. Acabo a escavar com as próprias mãos. Não há medo. Bem...só um pouco de repulsa quando toco numa minhoca. Instinto primitivo. E dor. Resignação. Aceitação. Reflexão. A Morte. Tu e eu. A tua carne igual à minha, a decompor-se a tua nos próximos dias. A luz que se apaga. A Vida. O último sopro. Que fazemos cá nós? Cuidamos uns dos outros, respondo sem hesitar. Por instantes, mais do que os desejáveis ou aceitáveis, desejo ficar ali contigo, à beira do riacho, sob a protecção das árvores, a ouvir a água correr, debaixo de um palmo de terra, que eu não consegui escavar mais fundo, a apodrecer em paz, até a Mãe Natureza me transformar em flores e ervinhas e quem sabe em borboleta ou até talvez em pássaro. Ou talvez ainda em ratazana ou morcego. Em vida de novo. Só isso importa. Vida de novo. E a minha e a tua, e a de todas as formas de vida, qual vale mais? Não sou mais que tu minha querida Escherichia (o teu nome oficial, mas para mim serás sempre a minha Abelha Maia, a minha Abelhinha). Deixaste-nos minha querida, e eu continuo cá por enquanto, nesta forma de gente.

Deixaste-nos..E a mana? O olhar da mana, que apesar das normais picardias entre irmãs, nas tuas últimas horas, esteve sempre contigo, colada a ti, sem se mexer? Só de manhã se afastou, farejando a Morte por perto, como eu, e o seu olhar, meu Deus, esse olhar de medo, sem compreender o que se passava, apavorada. Ou compreenderia e queria dizer-me mais, mais ainda do que eu via? Oh Dottie, minha pequenina, desculpa não conseguir tranquilizar-te, explicar-te o que eu própria não compreendo, confortar-te... O teu olhar nessa manhã em que a Abelhinha nos deixou, marcar-me-á para sempre. Sentiste a Morte, minha querida, mesmo antes dela levar a tua mana, e disseste-me muito mais do que eu poderia entender ou entendendo, explicar por palavras.

Sem palavras, calei. Calei a dor. Calei os pensamentos, calei as palavras. Anormalidade este consciente absurdo de emoções, esta necessidade mórbida de te visitar a toda a hora. De certificar-me que nenhum animal (de quatro ou duas patas) poderia profanar a tua última morada e o teu pequeno corpo. A necessidade de certificar-me de que estás "bem". A culpa de não te ter conseguido salvar. A culpa de não ter conseguido escavar mais fundo e deixar o teu corpo em segurança. A culpa...sem fundamento racional. A culpa de sentir mais do que o expectável e o socialmente aceitável. A culpa de querer estar contigo mas ainda não poder. A solidão. A paz que anseio ao lado do riacho que corre, onde os pássaros chilreiam e as árvores sussurram segredos imperceptíveis entre si...Onde uma parte de mim ficou...Abelhinha, até já minha pequenina. 


domingo, 19 de janeiro de 2020

A Música e as palavras na Vida da gente II...Tem de ser


"A Música e as palavras na Vida da gente II...Tem de ser"

"Escreve. Escreve sempre que precisares." Disse-lhe ele sem saber. Sem saber a importância das palavras. Das palavras escritas. Por ela. Para ela. E das dele próprio.

E como ela precisava escrever... Esse acto banal e simples e tão necessário como a sede e a fome têm de ser saciadas. E ela, acrescentou uns minutos à vida, sentou-se e...escreveu por fim.

Quando o palco é a Vida...

A Música, eterna e fiel amiga, presença constante na vida dela. A Música e as palavras a afagarem-lhe o rosto de pedra, sem lágrimas jorradas e sem sentimento visível. Emoção escondida porque assim tem de ser. A Música, a acariciar-lhe o rosto e a abraçá-la por inteiro. E a melodia e a voz do artista, e as palavras, soltas no ar a caírem sobre ela como um manto. Manto fiel às formas dela, exacto e perfeito, a dar voz à alma silenciada à força, amordaçada e ferida. A Música e as palavras, a lamberem feridas e a ajudá-la a levantar, porque assim tem de ser, porque o palco é a vida e assim tem de ser. Porque o palco é a vida e tem mesmo de ser...

Hoje, com Lena D'Água,  "Minutos", Album "Desalmadamente"





"Faltam dois minutos para entrar
A cortina vai levantar
Se há gente ali não sei
Sei que nunca esperei ninguém
Sei que nunca esperei ninguém
E o espelho já não sorri
Oiço a voz que há dentro de mim
Tem de ser, tem de ser, tem de ser
Tem mesmo de ser
Falta um minuto para entrar
A banda pronta p'ra tocar
E eu só no meu camarim
Não sei o que esperam de mim
Não sei o que esperam de mim
Se é quem sou ou quem nunca fui
Se é a voz que não me possui
Tem de ser, tem de ser, tem de ser
Tem mesmo de ser
Já passou a hora para entrar
Ao longe oiço alguém chamar
A banda já desespera
Eu não sei bem o que me espera
Eu não sei bem o que me espera
Só a lua é que dá por mim
E na rua canto por fim
Tem de ser, tem de ser, tem de ser
Tem mesmo de ser"

Lena D'Água,  "Minutos", Album "Desalmadamente"

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

Alma UHF

Alma, UHF. Lê-se, como se quer. Como se quer e como se é capaz. Como a alma nos permite, com as portas abertas que tem e que se quer abertas. Lê-se com os olhos da cara, com a frieza da razão ou com o coração.Ou por inteiro, com o âmago do nosso ser. Com Alma UHF. 

Academia Almadense, 7 de Dezembro de 2019, 41 anos de UHF

Em 50 anos de Vida, a minha, 41 de UHF, o tempo de carreira UHF, a mesma admiração e o mesmo encantamento, agora multiplicado pela maturidade que a vida dá, pela passagem dos anos. Dos anos e dos danos que a vida nos faz. É uma vida, é uma constante na vida, namoro eterno, não sem arrufos e afastamentos, mas também e sempre com novas aproximações, relação fortalecida em cada novo reencontro, na certeza de uma relação eterna, de notas soltas intrínsecas ao meu ser, a moldá-lo ao ponto de se fundir nele, fazer parte dele. Melodias várias a embalar a minha vida. Um toque de amor, de pureza, admiração e deslumbramento próprio de uma miúda de 14 anos, a replicar nos anos que se seguiram, até hoje, com outra maturidade, outra visão, mas sem dúvida o mesmo encanto e prazer, acrescido de uma admiração adulta, séria e solidificada.

Portas que mantenho abertas, à Vida, ao Amor, à Amizade, ao Prazer e à Música em que me deixo embalar, que me faz pensar, agir e libertar!

Foi assim a 7 de Dezembro em Almada. Um jantar de amigos, mais de 50, a encherem o restaurante, pouco em comum a não ser esta paixão, e com ela arrastadas tantas outras coisas, muitas delas por descobrir.

E o concerto foi bestial. Onde não foi possível ficar sentada na cadeira. Onde tivemos de saltar e pular e cantar, e libertar-nos de dores (das mais variadas que se possam imaginar) e dos medos e dos fardos, a acompanhar cada tema com a força de uma nação inteira. Saí de lá rouca de tanto cantar a plenos plumões, mas feliz, tão feliz como nunca. Claro que ter a companhia da minha miúda foi peça chave no jogo. No jogo desta noite, a escrever páginas felizes na enciclopédia da Vida. A única preocupação era aguentar de pé e garantir que a perna se aguentasse sem ir abaixo. E aguentou. A aguardar o bisturi e novos medos e batalhas da vida, a "perna de pau" aguentou-se como devia, a permitir-me viver o momento como único que é! De joelhos no chão à beira do palco, "olhos fixos à procura do profeta da rebeldia", hipnose perfeita a tentar guardar imagens para além da memória. E o baterista é sempre tão difícil de guardar na foto do ctelemóvel barato... Desculpa lá Ivan...
A noite foi bestial, soube-me pela vida, e é disto que a vida também é feita, energia e alegria, a carregar baterias para o resto dos dias...

Obrigada UHF!



António Manuel Ribeiro, a mostrar-se como é, no jantar dos fãs, por Elisabete Wahnon, para ver aqui:

https://www.facebook.com/elisabetewahnon/videos/2743625435688427/




O jantar:




Os próximo concertos:


Até já

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

A Música e as palavras na Vida da gente

A música, as palavras, a rima, a melodia, o manto mágico que emerge da voz do artista, da alma do poeta, carregado de sentido e sentimento, a assentar em nós como uma luva numa ou outra fase da vida da gente. Como se nos conhecesse e desse voz à nossa alma, com a precisáo de um cirurgião. Sempre foi assim comigo e sempre assim será. Porque não vivo sem elas. A Música e as Palavras.




Por hoje, Sérgio Godinho:

"Há-de ser mais claro tudo um dia, vais ver tudo nos lugares que tu separares entre o tanto que há pra viver Por agora é tudo confusão, tempestade grita no mar alto dança no asfalto cruza os dias da tua idade É a vida o que é que se há-de fazer? é a vida o que é que se há-de fazer Viver!"

Sérgio Godinho, "É a vida o que é que se há-de fazer"


domingo, 1 de setembro de 2019

Férias, Campo, "Hipocampo", e outras coisas mais



Estórias de encantar, mas sem encanto
Da saga “Férias 2019”
Capítulo...por aí fora...
Agosto de 2019

Trabalhamos. Fazemos parte desse grupo, felizardo e sortudo que tem um trabalho, um ordenado fixo mensal, descontos, taxas e impostos impostos e trabalhamos. Por norma, oito horas a cada vinte e quatro, cinco dias por semana. Com mais ou menos afinco, com mais ou menos motivação e realização, com mais ou menos entrega, com mais ou menos justiça e com mais ou menos reconhecimento. E porquê? E para quê? Para comer! Comer pão com manteiga e amendoins e cerveja, que podemos comprar quase todos os meses. E pagar os estudos aos filhos e o tecto da casa. E somos assim felizes, tantas vezes. Não sempre, é certo, mas muitas vezes, pois a felicidade está apenas no momento e nada mais existe.

E trabalhamos onze meses e planeamos as férias grandes, a gozar uma vez no ano! Em "grande" se for possível. As férias! E se fingimos ser ingénuos e acreditamos que a maior das pessoas fica feliz com a nossa felicidade (que ridícula infantilidade...) é com prazer que anunciámos que vamos de férias! Fazemos planos, partilhamos para onde vamos, o que faremos, etc, e por vezes quase acreditamos mesmo, que a maior parte das pessoas que nos rodeia fica feliz por nós. Não fica, já sabemos, mas teimosamente continuamos a acreditar que sim. E continuaremos a acreditar. Teimosa e infantilmente, continuaremos a acreditar. 

Assim, eu, como o comum dos mortais pertencente a este grupo, fiz planos. Amealhei. Poupei afincadamente. E anunciei aos sete ou oito ventos que ia de férias. Estava tão feliz! E em cada Verão, são gravados dois ou três Cd´s para se ouvir no carro, durante a viagem. Este ano, havia também o CD da mãe, com temas escolhidos para acompanhar a viagem e acompanhar o Verão. Temas escolhidos pela mãe, para a mãe.

Entre eles, boa parte do último trabalho da Lena d´Água "Desalmadamente", que me delicia a cada tema. E a viagem de ida teve além das músicas da filhota, este ano teve também o CD da mãe! E como foi feliz essa viagem. Entre o calor do asfalto, as filas de trânsito e os disparates partilhados, ansiosas por chegar. Às férias, tão desejadas e prometidas. Nós,a cadela e as porquinhas e as nossas músicas como banda sonora do que prometia ser o mais belo filme de 2019.

Depois, ao segundo dia de férias, num lugar paradisíaco, cá dentro, mesmo aqui ao lado, um azar acontece. A avó cai e não se levanta mais. Fractura do colo do fémur, foi o diagnóstico. A partir daí, as férias foram absolutamente estrondosas, como podem imaginar. Mas a música, ai a música, melodia e palavras, foram a companhia, foram o abraço e o conforto, foram a confidente que permiti ver-me chorar completamente despida dentro do carro, num CD demasiadas vezes repetido nas viagens que se impunham entre as "férias" e o Hospital... Obrigada Lena d'Água e Obrigada Tânia Patrícia, porque tudo isto é verdade e porque me inspiram! E porque me ensinam, mostram e demonstram que cada palavra, cada gesto e cada atitude nossa, mesmo sem nos apercebermos, pode fazer diferença na vida das pessoas. E faz! Obrigada.

 

Hipocampo

Eu vou a caminho, vou e vou do inicio ori ,ori, xá chá e bolinhos ai coitadinhos dos meus gatinhos, ó eu vou a gozar o ar, o ar, da voz Sou do hipocampo e há tanto campo em mim estou a ir, meu anjo Ando louca para te fazer um tchim tchim, ai ai Eu vou a caminho, vou e sigo o instinto ora, ora, ção são dez e meia encho a aldeia de macaquinhos, ó vou inflamar o mar, o mar na foz Sou do hipocampo e há tanto campo em mim estou a ir, meu anjo Ando louca para te fazer um tchim tchim, ai ai Eu vou a caminho, vou vou sem destino tino, ino, cente Sente o sinal no mapa astral dos gambuzinos, ó eu vou a tornar o ar o ar em nós

Lena d'Água, em "Hipocampo"

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

As férias e a Corrida

Estórias de encantar, mas sem encanto


Da saga “Férias 2019”

Capítulo III

As férias e a Corrida

Agosto de 2019...lá para dia 8 ou 9

Como se fosse possível, depois da tua partida inesperada, tentámos manter alguma normalidade e aproveitar as férias, o espaço e as pessoas. Tal como tu gostarias que fizéssemos e como me recomendaste com amor, repetida e insistentemente, alternando com pedidos de desculpa, ainda deitada na maca naquele escuro corredor de Hospital, a tremer descontroladamente, sem qualquer conforto ou fármaco para te aliviar as dores.

Assim, a par das viagens de 500 km para te visitar, com a preocupação acrescida da eventual falta de gasóleo nos postos de abastecimento, com que a comunicação social fazia questão de nos bombardear até à ridícula histeria colectiva, continuámos a usufruir das férias. Da piscina, da Sol quente, do descanso deitados na relva à sombra das árvores, da boa comida, da companhia dos que restavam connosco, enfim…da Vida, e claro que a Corrida não podia ser excepção. Lugares novos, com caminhos para explorar, como eu adoro. No entanto, confesso que a vontade era pouca e o cansaço do corpo não convidava. 

Mas contrariando as "desculpas", numa manhã, depois de escassas horas dormidas, depois dos pequenos almoços tratados, compras feitas e almoço adiantado, lá me empurrei, equipei-me e saí para a rua a correr!

E surpreendentemente (ou não), apesar dos caminhos secos e poeirentos, do Sol abrasador, do asfalto a queimar os ténis e a devolver o calor à atmosfera em ondas turvas à vista, corri com o original e genuíno prazer que a Corrida sempre dá. A liberdade e o prazer de estar só comigo mesma, necessidade que se impunha há muito, foi maravilhosa. Como banho de renascimento. Como baptismo repetido e ainda assim reinventado, cada vez que corro. Apenas os montes em meu redor, um ou outro cão ao longe, a guardar o seu monte, os olivais por onde me aventurei, a proporcionarem algumas sombras, a sinfonia das cigarras que claramente cantam com outro timbre no Alentejo, os rebanhos deitados à sombra dos sobreiros, a paz, a plenitude, e eu e a Corrida. Naqueles minutos, nada mais existe e de nada mais preciso. Momentos divinos estes os oferecidos pela Corrida, de forma singela e a encerrar neles tanta beleza. Assim, a passo de caracol, na imensidão do calor e paz deste nosso Alentejo, usufruí. Da Corrida e da Vida.

Poucos quilómetros corridos, mas regresso à casa como nova. O corpo, mais bronzeado, a luzir de suor sob o Sol escaldante, mais torneado e firme, sob a ilusão que a Corrida nos dá, mais forte, cheio de energia, invencível até, tal é a sensação ilusória que a Corrida nos dá. Mas claramente, sem qualquer ilusão, mais feliz, mais segura e cheia de ânimo! 

Uma alegria espontânea, quase infantil, apodera-se de mim. Recebem-me com alegria na casa, especialmente a cadela que não pára de abanar a cauda e de me lamber o rosto e as pernas, não como manifestação de afecto como gostaríamos de pensar, mas porque a transpiração lhe deve ser algo bastante apetecível ao paladar, enquanto alongo. Rio. Faz-me rir a cadela. Faz-me rir a Corrida. Fazem-me rir os meus que me esperavam à beira da piscina, onde e com quem, depois de um duche rápido, partilho mergulhos e brincadeiras com alegria e uma energia que não sentia há muitos dias, no que se hão-de transformar mais tarde, em boas recordações destas férias.

E num mergulho, de corpo totalmente imerso a deslizar nas águas azuis refrescantes, relembro-me que a Meia Maratona de S.João das Lampas está aí à porta e que eu estou inscrita!  




domingo, 25 de agosto de 2019

Todas as manhãs

Estórias de encantar, mas sem encanto

Da saga “Férias 2019”

Capítulo ...qualquer coisa e mais um...

Todas as manhãs

Agosto de 2019...lá para dia 6, 7, 8, 9 e seguintes...

Todas as manhãs, invariavelmente entre as seis e as sete, com os primeiros raios de luz e o cantar do galo, acordávamos cansadas. Noites mal dormidas, preocupadas, a deambular como fantasmas pela casa, com eles, percorrendo corredores infinitos, mal iluminados por candeeiros velhos decorados com teias de aranha, a produzir sombras fantasmagóricas pelas paredes, para ir à casa de banho, onde claramente nos sentíamos observados e vigiados, mas espantosamente sem medo. De coração aberto, só próprio de quem está ali e na vida, por bem, o medo nunca fez parte da equação. Afinal os invasores éramos nós e os espíritos só guardavam o que a eles pertencia. As aves nocturnas raramente nos davam o desejado e necessário silêncio nas longas noites, emprestando à noite um misticismo quase aterrador, e o nascer do dia era sempre por isso, muitíssimo bem-vindo.

A necessidade de manter uma normalidade rotineira, mesmo quando acabaram de nos tirar o tapete dos pés e caímos desamparados no chão, imperava, e assim, eu e tu meu amor, aos primeiros raios de luz de cada manhã, saíamos da cama. Enfiava umas calças de ganga, uma camisola e uns ténis, prendia o cabelo e afagava-te o pêlo, ainda sentada na sanita, eu, mas já acompanhada de ti meu amor, que me seguias agora pelo corredor infinito, em silêncio, enquanto o resto da casa dormia ainda.

Depois, íamos até à porta da rua, onde eu, ainda cá dentro, de joelho lixado, com dores a fazer adivinhar uma lesão qualquer que se há-de manifestar, me sentava no chão de pernas abertas e te pedia para te deitares entre elas, e então, te protegia a ligadura da tua pata partida e que não se podia molhar na geada da noite na erva do jardim, com uma peúga grossa, um saco de plástico para impermeabilizar e outra peúga para não escorregares. Por fim saíamos. Acompanhadas, sentia-o bem. Sem qualquer necessidade de medo. E o que nos recebia era sempre assombrosamente belo. O Sol no horizonte, a romper, ou apenas a sua luz quando as manhãs eram cinzentas acompanhadas de bancos de nevoeiro junto ao solo. No entanto, as aves recebiam-nos com uma alegria estonteante e contagiante. Estávamos vivos e a Vida é tão rica e valiosa! Andorinhas, pardais, rolas, e ainda uma ou outra ave nocturna que atrasada era surpreendida por nós e depressa se refugiava . Os sons, os cheiros e o cenário que me era oferecido nessas manhãs, presentes de valor inestimável, são inesquecíveis e apesar de tudo o que de menos bom se passava, sentia uma gratidão tremenda, repetida sem cansaço ou enfado, todas as manhãs, talvez pelo simples facto de constatar que estava viva e que o que mais me importa na vida, estava ali, cabia dentro da algibeira e não precisava de mais para estar grata e feliz.

Dávamos o nosso passeio madrugador pelo monte, surpreendíamos as rolas no seu banho matinal, as andorinhas e os pardais numa chilreada que me fascinava de forma pura e genuína e me surpreendia ingenuamente apesar de se repetir todas as manhãs. De forma irrepetivelmente bela! Manhãs de Sol, de nevoeiro ou mesmo de chuva. Espantosa e com tanto para nos ensinar, a Natureza! E eu, do alto dos meus cinquenta anos, ainda com tanto para aprender...

Contavam-me segredos as aves, segredos que o meu coração ouvia e com eles me fortalecia. 

Entre as ervas e a palha molhada, as aranhas fizeram as suas teias durante a noite e algumas maçãs caíram  assim como algumas ameixas e figos.

A nossa volta, normalmente, consistia numa visita às sebes que ladeavam a piscina, onde enfiavas o teu focinho e farejavas sofregamente em busca de algum animal, alimentando a esperança que uma distração dele te permitisse apanhá-lo, o que nunca aconteceu, claro, porque tu, meu amor, és uma pateta como eu, apenas curiosa e ávida de descobertas. Também as enormes oliveiras, abandonadas no meio do terreno mereciam sempre a nossa visita. Triste, uma casa na árvore, meia destruída e partida agora, chorava à nossa passagem, mas no entanto parecia agradecer-nos a visita e prometia ainda dias felizes por aqui. 

Fazias as tuas necessidades e eu alimentava as minhas. Enchia o coração de paz e de harmonia. Apenas contigo e a Natureza. Enquanto todos ainda dormiam a havia verdadeiramente paz,  aqueles momentos ao nascer do dias foram o que me deram alento para o resto das horas dos dias e para todos os outros dias que por lá passámos. E para agora. Tem este condão a Natureza. Com a sua espantosa simplicidade, equipa-nos com o mais forte escudo e torna-nos o mais destemido guerreiro.

Voltávamos para casa, mais leve tu, e mais leve eu, apesar de carregar na bagagem experiências e vivências impossíveis de pôr no papel. Ainda assim, ficam por aqui os registos numa tentativa de eternizar as emoções vividas.

Depois de comermos, ficávamos por ali as duas, a aguardar que os outros acordassem e tu, a aguardar que a relva secasse para poderes por fim, pisá-la à vontade.

 Obrigada Molly e obrigada Mãe Natureza.





sábado, 24 de agosto de 2019

Céu


Estórias de encantar, mas sem encanto

Da saga “Férias 2019”

Capítulo XII ou XIII ou outro qualquer no adiantado da história

Céu
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Mais ou menos por volta de 21 de Agosto de 2019, as palavras

Enquanto, ajoelhada no chão, te lavo os pés ensaboando meticulosamente o espaço entre os dedos com a suave espuma do sabonete, dizes que quando eu morrer vou para o Céu, apesar de saberes que a minha fé no divino é nula e que no que acredito mesmo é que o Céu é estes dias que temos o privilégio de viver aqui na Terra, exactamente neste momento em que me lês, apesar de raramente estarmos conscientes disso.

Assim como o Inferno, não duvido que está aqui mesmo na Terra, mas como quase tudo depende do que fazemos com ele, do que fazemos dele. A nossa vida ou…aproveitar as brasas e fazer uma bela sardinhada.








quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Coisas divertidas nas férias

Estórias de encantar, mas sem encanto

Da saga “Férias 2019”

Capítulo ...qualquer coisa

Coisas divertidas nas férias

Agosto de 2019

Sem comentários





Continua...

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Os dias sem ti

Estórias de encantar, mas sem encanto

Da saga “Férias 2019”

Capítulo II

Os dias sem ti

6 de Agosto de 2019

Depois de teres sido levada pelos Bombeiros, depois da noite mal passada, a saber tão pouco de ti, agarrados à tua camisa de noite e à fé que sendo tua, pedimos emprestada e nos foi concedida e nos deu alento, o dia amanheceu como sempre amanhecem todos os dias: cheio de promessas e incertezas. Mas cinzento. Cinzento e triste. Tão triste, tão triste que juro que até o céu chorou. Lágrimas grossas, pesadas e silenciosas.

Sem ti, nós preenchemos o dia com um esforço fora do comum. Os dias e os espaços preenchidos, ainda mesmo quando nada mais podíamos fazer que esperar para saber exactamente o que se estava a passar contigo e o que iam fazer contigo.

Aproveitar era o mote. Aproveitar! Disseste. Frisaste. Apelaste com a tua voz dócil e debilitada. E nós ouvimos. E os nossos corações ouviram também e mesmo apertados, muito apertados, aproveitámos e preenchemos os espaços e os dias.

Mesmo sem Sol, mesmo sem certezas, porque na verdade as certezas não passam de uma mera ilusão para além do exacto momento em que vivemos, exactamente este em que escrevo e exactamente este em que me lês, mesmo sem tranquilidade, preenchemos os espaços e os dias. E no cinzento do dia, demos por nós a sorrir…

Continua...