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terça-feira, 13 de abril de 2021

Molly 26-05-2009 - 09-04.2021

Até sempre querida Molly

Há um prato com frango cozido sobre a mesa da cozinha. Foi o teu jantar ontem e hoje seria a tua refeição da manhã, comida que adoras, com massa e um fio de azeite, mas hoje de manhã tu já não comeste, pela primeira vez recusaste comida, e eu hoje, olho as pernas do frango, ainda por desossar e choro, choro compulsivamente porque tu já cá não estás para as comer. E agora o que é que faço ao frango, interrogo o Universo como se a questão fosse mesmo essa e não estivesse apenas a disfarçar uma outra pergunta bem mais dolorosa e de resposta imutável.

Nós encomendámos a morte. É o que parece à primeira vista. Mas nós apenas combinámos o dia, a hora, o local e abrimos-lhe a porta, ajudando a nossa amiga parceira na vida, de quase 12 anos, a transpô-la. Afinal ela, a morte, já andava por aqui a rondar há imenso tempo e nós a fintá-la enquanto pudemos. Foi assim na passada 6ª feira dia 9 de Abril de 2021. A Molly deixou-nos. Partiu. Enquanto lhe acariciava o corpo e lhe embalava a alma com doces palavras. Tantas. Tantas, tantas palavras. Enquanto o líquido azul bonito a prometer o céu, lhe entrava nas veias e se espalhava pelo corpo, imobilizando todos os músculos até ela deixar de respirar e partir por fim. De certeza que só ouviu um terço ou menos do que a minha voz calma lhe dizia baixinho com amor. Tanto amor Molly. Tu sabes. A Molly deixou-nos. 15h09m, 9 de Abril de 2021, e nunca mais o chão da minha cozinha será só o chão da minha cozinha.

Fujo. Fujo. Fujo daqui. Desta casa onde vivemos, deste pedaço de chão, frio e agora insuportavelmente vazio e limpo, antes sempre ocupado por ti meu amor, deitada a meus pés, onde quer que eu estivesse, a “estorvar-nos” o caminho e a obrigar-nos a dar passos de gigante só para não te pisar ou incomodar. Fujo à velocidade que o Intercidades consegue deslocar-se no espaço e desejo e confundo que o espaço seja o tempo. E dolorosamente, é tão vagaroso, tão mais vagaroso do que eu queria fugir daqui, deste hoje, deste presente, deste dia, desta hora. Ironicamente o meu lugar no comboio é um lugar “de costas” em que nos dá a percepção de viajar “para trás”, simulação perfeita pois é para aí que eu no fundo quero ir. É para aí que eu queria fugir. Em busca de ti meu amor, do teu corpo quente, do teu coração a bater, do teu peito a subir e descer enquanto dormias confirmando a respiração e descansando os meus temores nos últimos tempos, dos teus olhos brilhantes, do teu sorriso radiante e pobre de quem não saiba que os cães sorriem sim. Quero voltar lá atrás, para um dia qualquer destes últimos onze anos e encontrar-te feliz e saudável ao nosso lado, onde sempre estiveste. Queria voltar a passear contigo no jardim, dar uma volta nas hortinhas com o Byron, cheirar o Jonas e brincar com a Kira, lembrar o Rot e o Billy e até a Fiona e o Simba, cumprimentar o Cooper e o Fox e tolerar o jovem Sall com a sua energia estonteante e jovial e cumprimentar o Thor de fugida. Queria voltar a ver-te passear na praia com o Alex. Queria voltar a ralhar-te por andares sempre de nariz no chão à procura de restos de comida na rua e devorares tudo o que era porcaria como se passasses fome em casa. Queria atirar-te bolinhas no jardim, que depois tinha de ser eu a ir apanhá-las (nunca foste desses cães ágeis, atléticos e espertos que trazem a bolinha de volta para o dono a voltar a lançar. Normalmente corrias para a ir apanhar, mas depois largavas, entretendo-te de imediato com qualquer outra atracção perto do local onde a bola caía, fosse um pau, uma cana ou simplesmente o acto de arrancar erva com os dentes com um interesse fantástico e único. Queria voltar aos dias em que nos trazias da rua, uma bola velha ou um brinquedo esquecido ou perdido no meio da erva, e eu cansada, já desistira de te contrariar. Temos vários cá em casa, que depois de lavados, faziam e fazem parte dos teus brinquedos. Queria voltar aos dias de praia, aos dias que nadavas comigo no mar, em que paciente aguardavas que o Pipas partilhasse a merenda contigo, aos dias na piscina, onde não entravas mas do lado de fora jogavas à bola connosco lá dentro. Queria voltar aos dias em que acompanhavas a menina a correr no Parque de Santa Iria. Aos dias em que te sujavas de lama. Aos dias em que te plantavas à beira da mesa quando a avozinha tomava o pequeno-almoço ou a qualquer outra das refeições da família onde pertences e pertencerás para sempre, na esperança de alguém te dar um pouco de pãozinho ou de broa de milho que adoravas. Até aos dias por uma razão ou outra menos felizes, mas em que a tua presença me apaziguava e confortava de forma absolutamente única e genuína.

Mas não, a vida não anda para trás e assim como este comboio não anda para trás e jamais volta a passar num local e tempo onde já passou, nenhum desses dias volta, nem eu nem tu podemos voltar a eles.

Agora, hoje, neste exacto momento chamado presente, tu já cá não estás e está apenas um prato com frango cozido sobre a mesa da cozinha, e eu ao olhá-lo, choro, choro em silêncio porque assim tem de ser, mas com uma dor e desespero sem consolo possível, que nunca pensei que um prato de frango cozido sobre uma mesa branca de cozinha pudesse desencadear.

Não sei como voltará a ser a vida para todos nós, nesta casa, sem ti. Saberemos em breve.

Dormimos juntas a última noite. Lado a lado no chão. Ouvi-te sem falhar um minuto, a tua respiração, cada inspiração e cada expiração, o bater do coração, os movimentos peristálticos, tão pouco “poéticos”, mas é deles que é feito o cancro, de merda e de sangue, e de postas de carne viva a saírem de ti, de feridas e pus, de fluidos de odor nauseabundo, de podridão e decadência, de lágrimas de sangue, de olhos baços cansados. E se depois da decisão tomada na véspera ainda me surgiram algumas dúvidas ao fim do dia, hoje, depois de te acompanhar de perto, tão perto que mais perto só seria possível dentro de ti e acho que foi mesmo aí onde eu estive, dentro de ti, toda a longa e dolorosa noite, aos primeiros raios de Sol, todas as dúvidas se dissiparam. O teu bem-estar, o teu conforto, a tua alegria por viver, por estar cá, connosco, foram sempre, mas sempre a minha única prioridade e objectivo desde o início desta batalha. Mas a noite, com inúmeras interrupções em que tive de te ajudar a levantar para ires ao terraço fazer necessidades, os teus olhos sem vivacidade, a tua boca inflamada, tudo o que era mucosa quase em carne viva e a tua recusa em comer pela 1ª vez desde que travámos juntas esta batalha, deram-me todas as certezas de que estávamos a fazer o que tinha de ser feito. Já não estaríamos a prolongar-te a vida, mas sim a prolongar o teu sofrimento e isso eu não ia permitir. Não mais. Por isso, quando o dia clareou, só implorava que a Drª não demorasse muito mais para acabar com o teu sofrimento o quanto antes.

De 2ª a 6ª feira o cancro galopou desenfreado, qual besta desencabrestada, com uma velocidade que não acreditava ser possível, e nesta que seria a semana da tua 5ª sessão de quimioterapia, a batalha estava perdida. Se de início, em Janeiro, começamos o tratamento com quase toda a esperança do mundo, ao longo das semanas fomos percebendo que apesar de todos os nossos esforços e do teu corpo se manter relativamente forte e estável para continuar a lutar e aguentar o choque do tratamento, ele, o cancro, foi-nos sempre ganhando aos pontos, primeiro em silêncio e por fim da forma gritante e alarmante que descrevi. Sempre um passo à nossa frente e nós a corrermos atrás, reparando os danos, acreditando sempre que o dia seguinte seria melhor, e às vezes era. Até ele nos vencer por fim. Caímos derrotadas. E agora descansas, livre de todo o sofrimento.

Questiono-me de algumas coisas. E respondo-me. Se terá valido a pena toda esta luta? Claro que sim, se havia uma hipótese de sucesso, uma única hipótese em mil…tínhamos de tentar e lutar por ela. E nós lutámos! Juntas! Se deveria ter-te “libertado” mais cedo? Não, enquanto te senti “cá”, connosco, a lutar ao nosso lado, lutei contigo e nunca desisti de ti, por muito “fácil” e “confortável” que poderia ter sido para mim, acabar contigo e alegar para conforto do meu ego que “foi o melhor para ti” quando na verdade saberia que a verdade é que o teria feito por ser o melhor para mim, e eu, pus-te sempre em primeiro lugar e continuaria a fazer tudo de novo e mais que fosse, por ti, se soubéssemos que ainda havia esperança e que o saldo na balança era positivo. Se, se, se…Revejo minuciosamente todos os passos que demos lado a lado e faria tudo de novo, com a mesma esperança, com a mesma fé, com a mesma alegria que partilhavas comigo, que me ensinasse a sentir, por cada segundo de vida em que éramos felizes, só por estarmos aqui! Perante as adversidades, as partidas que a vida na prega, os desafios que nos lança e as provas que nos exige sem passar diploma no final, temos de erguer a cabeça, lutar, ter fé, esperança, munirmo-nos de todos os aliados possíveis e fazer o que tiver de ser feito com um único objectivo em mente: o teu bem-estar, a tua alegria de viver, o teu conforto, ignorando a dor que isso nos causa a nós próprios. Porque tu meu anjo, mereceste tudo de mim, e tudo de mim eu te dei. Até ao último dia.

Foram tempos duros, muito duros, a ver o cancro ganhar terreno, a ver-te degradar aos poucos desde Janeiro, ainda que com algumas conquistas a alimentar-nos a esperança para de seguida serem de novo resgatadas pelo cancro, e de forma assustadoramente rápida e sem dar tréguas ou ilusões, nesta última semana.

Foi uma prova muito dura meu amor e tu passaste com excelência até ao limite do possível. Lutaste com alegria e viveste com alegria, dando-nos lições de vida, ensinamentos básicos que esquecemos, tão simples como aproveitar a vida, dar o melhor de nós, lutar e acreditar sempre e ser feliz com o que temos e com o que a vida nos oferece e fazer os outros felizes e buscar neles o seu melhor também. E tu foste mestre e eu aprendiz. Só espero não te desiludir, ter estado e continuar a estar, à tua altura. E continuar a viver mais rica, porque me ofereceste quase 12 anos da tua vida, a fazer-me feliz meu amor. E perdoa-me por alguma que deveria ter feito de forma diferente e não o fiz porque não soube.

Foste o cãozinho mais doce e corajoso que conheci. E eu…fui só a tua mamã, aquela que ama, que cuida e privilegia acima de tudo e dela própria, o teu bem-estar. Sempre por ti, muitas horas, literalmente ao teu lado, até ao teu último suspiro.

Até já meu amor. Estás para sempre no meu coração.

 

Molly, 26-05-2009 – 09-04-2021

Roubada da minha vida pelo Linfoma Cutâneo, tipo T

 

Ps: Um agradecimento muito especial, directo do coração, ao Dr. José Martins (Hospital Veterinário de Berna) pela sua permanente disponibilidade, apoio, acompanhamento e orientação clínica e admirável humanidade; à Drª Sónia Ribeiro (VetLonga), por todos estes anos a acompanhar a Molly e …por tudo, à Drª Joana e à Drª Georgiana (Vip Pets), à Drª Sara; à Daniele e à Inês (VetLonga) e a todos que de uma forma ou outra estiveram connosco nesta luta desigual.

Aos amigos que fizemos, muitos sem nos conhecerem pessoalmente e ainda assim torceram por nós, a nossa maior gratidão

Até sempre Molly, meu anjinho  























segunda-feira, 15 de março de 2021

Dizem...

Dizem que vocês nos dizem. Não sei se dizem. Dizem, Molly? Quando é chegada a hora?

Será que o Bob disse ao seu doninho de manhã, quando juntos foram tomar banho ao rio e por isso ele o mandou abater a seguir ao almoço, logo depois do café e da cigarrilha? Será que ele lhe disse, Molly, entre salpicos de água fresca e mergulhos? Não sei querida, não sei...Só sei que nós...nós, ainda não podemos ir ao rio...






domingo, 21 de fevereiro de 2021

Quero guardar-te

Quero guardar-te. Guardar todos os momentos. Todos os olhares, todo o carinho, cumplicidade, partilha, companhia que somos. Guardar-te em mim.
Como hoje. Ainda não eram sete da amanhã e sinto-te. Sem ruído, latido ou gemido. Simplesmente sinto-te. E desperto. Como se a tua alma falasse com a minha, ainda adormecida, sacudindo tão suavemente o meu ombro como abanavas a tua cauda e me despertasse do sono da noite. Desperto. Abro os olhos e tenho-te a um palmo do meu nariz, simplesmente a olhar-me.
Levanto-me ainda meio a dormir e vou abrir a porta do terraço onde vais fazer xixi. Voltas para a cozinha e ficas parada de pé a olhar-me. Ainda é tão cedo mas eu ouço-te e sei que o pequeno almoço, especialmente confeccionado para ti na véspera, já seria bem-vindo.  Carne de vaca picada, estufada com óleo de coco, courgete, cenoura, beterraba, salsa e um pouco de arroz branco. Comes com apetite, valha-nos isso meu bem. Sem esquecer os cinco comprimidos que tens de tomar e que um a um, certifico-me que são engolidos. Depois limpo-te a boca e finjo não ver o evidente: ele, inimigo silencioso, continua presente, e teima em afirmar-se, como a dizer-nos que tudo o que fazemos será inútil. As gengivas voltam a inflamar, assim como os teus olhinhos, com as mucosas a insinuar-se, anormalmente vermelhas de novo. Mas ele, o cancro, está enganado e o teu olhar, doce, cheio de amor sincero e puro, jamais será roubado. E para vê-lo, uma vez mais que seja, tudo o que faço vale a pena sim! E eu quero guardá-lo. Esse olhar. Guardar este momento, estes nossos momentos, de partilha e amor, dos quais suspeito ter de me alimentar, daqui a pouco ou daqui a muito quando ficar sem ti, completamente sozinha. Sinto um elo entre nós, forte e sólido como corrente grossa e pesada e no entanto invisível, tão invisível que alguns dirão mesmo que é inexistente, só porque eles não vêem. Só porque o mais importante é invisível aos olhos, meu amor e eles não vêem, não conseguem ver.
Mas eu vejo e tu vês. Este sentimento de amor puro, inigualável ou comparável com qualquer outro que tenha vivido, e eu já vivi alguns. Exagerado, dirão alguns. Porque tu és "só" um cão, dirão. Quão enganados estão meu amor.
Esta semana foi a tua 3ª sessão de quimioterapia e tu, guerreira valente, aguentas de pé, forte e firme, como se suportasses tudo só para me veres feliz e continuares ao meu lado. És uma valente e é essa a mensagem que me passas, mas meu amor, eu vejo, eu sei que não estás bem.
Por isso guardo, guardo a sete chaves estas gotas de vida que continuamos a partilhar, guardo com amor e fé, sim, muita fé que ainda vais ganhar esta batalha e viver connosco muitos momentos felizes. Vais correr no parque, vais de férias connosco, vais correr na praia, vais brincar com os amigos no jardim, vais jogar à bola com a mamã na piscina, vais, vais... vais ainda viver connosco muitos dias bons e felizes.
E todos eles e este, e ontem e amanhã, eu vou guardar. Assim. No lugar mais seguro do meu coração, só acessivel a muitos poucos. Assim, bem guardados. Como se guardam as preciosidades da vida.











quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Aquele olhar

Esta noite estiveste inquieta. Muito inquieta. Não sossegavas de forma alguma. Saías da tua caminha e vinhas deitar-te no chão, aos pés da minha cama. Lambes feridas que teimam em reaparecer agora depois da 2ª sessão de quimioterapia e os tecidos inflamados regressam, invadindo os espaços sãos do teu corpo. Tens a respiração ofegante, levantas-te e pedes para ir ao terraço, onde, ao invés de um qualquer e habitual alívio da bexiga, acabas por simplesmente ficar estagnada de pé, a olhar o céu negro sob a doce chuva morna que de mansinho nos caía em cima e incrivelmente nos sabe tão bem. Uma vez mais, contigo aprendo a saborear o momento, por mais singelo e vulgar que pareça, e encontrar nele o significado da vida. Da minha vida, pelo menos. Vens para dentro, bebes água, afago-te o pêlo com uma toalha, limpando-te, e vais para a tua caminha onde não ficas mais que escassos minutos, para te ires deitar de novo no chão, aos pés da minha cama, onde também não descansas e depressa te levantas para mudar de lugar e posição.

Passo a noite em sobressalto. Como sobressaltada tenho vivido desde há um bom tempo para cá. Parece que tenho sempre o coração nas mãos e a qualquer momento se pode partir irremediável e definitivamente.

Mesmo antes de termos tido a confirmação, já sabíamos que o prognóstico não seria bom, conforme se veio a confirmar: Linfoma T, que te ataca tudo o que é mucosa. O resultado veio precisamente na véspera de Natal, dia 24 de Dezembro de 2020, mas a Doutora não nos quis dar a notícia antes do Natal, como se ainda fosse possível passarmos o Natal felizes e descansados. Mas não, não era possível, porque nós, sem saber, já sabíamos.

Hoje acordaste triste. Mas não precisei de te chamar para irmos à rua. Vieste ter comigo à cozinha e saímos bem cedo para a rua. Noite ainda. E que custoso foi este passeio hoje, meu amor. Caminhas muito devagarinho, meio trôpega, quase a tropeçar nas tuas próprias patas. E depois…aquele olhar! Aquele olhar, querida Molly, que eu não quero aceitar e finjo não compreender. Insisto e incentivo-te a caminhar e tu lá vens, muito devagarinho. Fazes as tuas necessidades e por fim chegámos a casa, de uma voltinha que pareceu interminável hoje. E aquele olhar Molly, aquele olhar…Que me trespassa o coração e me deixa sem palavras. Apenas te acaricio e minto-te descaramente dizendo que vais ficar boa, meu amor.  Mas tu e eu sabemos que é mentira. Mas também sabemos que tem de ser assim meu amor. Até ao fim. Acreditar mesmo, que este dia vai ser bom e que temos este momento  para partilhar e viver! E isso, meu amor, isso, é mesmo verdade e é a esta verdade que nos agarramos  e é esta verdade que nos faz acreditar e lutar, dar o melhor de nós em cada dia para fazer deste dia, um dia melhor. E assim será. E amanhã um outro dia. Melhor talvez…







sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

Molly meu amor

Pelos primeiros dias de Janeiro 2021

Molly, meu amor

Que guardas de mim? Que vês? Que guardas de mim e levas contigo meu amor?

Eu de ti guardo já onze anos de muitas alegrias, traquinices, companheirismo, lealdade, dedicação, cumplicidade, partilha e também algumas preocupações, despesas, trabalho, mas indiscutivelmente sobressai do saldo, amor, muito amor.

E tu? Que guardas de mim? Quando me olhas assim, nestas madrugadas frias no Outono da vida, em que vamos ao jardim, nesse momento só nosso tal como o jardim, as árvores e os melros e pardais que acordam e nos rodeiam saltitando e esvoaçando, indiferentes aos nossos teatros mal ensaiados, nestes momentos parados no tempo, em que sou só eu e tu e tudo o resto se cala, olhas-me como nunca me olhaste. Ficas parada sem te mexer, buscas-me os olhos e fixas-me o olhar, bem directa aos meus olhos e entras em mim como nunca o fizeste, atravessas carne e ossos e músculos dilacerando veias e rasgando carne e músculos e órgãos e tendões e chegas ao coração e vais mesmo além dele, despedaçando-o, sangrando e tocas-me a alma e eu nesse momento sei. Simplesmente sei. Agacho-me e afago-te a cabeça, o pescoço, percorro a mão pelo teu corpo quente, estranho as saliências dos ossos que no dia anterior não estavam lá e termino na pontinha da pata traseira ou da cauda, para retomar a carícia na cabeça e repetir o gesto vezes sem conta na madrugada fria e falo-te. Não só com os olhos e a alma, mas com palavras também porque tu entendes. Entendes tudo. Não te deixarei aqui meu amor, nem penses que te deixo aqui, nem penses que te deixo desistir, nunca te deixarei meu amor. Nem neste relvado gelado onde te deitas, te recusas a andar e mexer, e imóvel pareces implorar-me o que eu não te consigo dar. Não princesa Molly, nunca te deixarei e nós não vamos desistir. E se tens de ir, leva-me contigo meu amor, leva-me aos pedaços contigo, arranca pedaços de carne deste coração e leva-me, leva-me contigo meu amor. Porque eu nunca te deixarei e porque quando existe amor, nunca há separação ou despedida possível. Sei que assim será. Quando chegar o dia levarás pedaços de mim. E eu, guardo já pedaços de ti dentro de mim, tantos, tantos, meu amor.  

Amanhã outro dia minha pequenina. Somos fortes e vamos vencer esta batalha. Cada dia uma batalha e nós estamos juntas e somos fortes. E cada dia é uma bênção e uma vitória. E ainda temos muitas histórias para viver juntas minha pequenina, ouviste?!

Muito feliz por te ter na minha vida, minha doce Molly.



quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Esperança

Sentas-te à mesa diante do copo que a vida te estendeu, e com ambas as mãos pegas nele com força excessiva e aparentemente desnecessária, como se tivesses medo que ele te escapasse e num piscar de olhos desaparecesse, e sorves em tragos, ávido e sôfrego, réstias de Esperança que alguém te deu e que mal cobrem o fundo do copo, no entanto claramente suficentes para te manter vivo por mais um dia, o de hoje. E mais não é preciso. 

Esperança. Fé. Acreditar. É preciso acreditar. Ter Esperança. Que uma bondosa mão divina, meio à socapa te seja estendida por debaixo da mesa do pequeno almoço, do almoço ou do jantar, que tu não és esquisita na hora de comer, e rendida ao teu olhar de cachorro pobrezinho que passa muita fome, traga nela um bocadinho de pão, de preferência broa de milho que tu adoras e te ofereça com amor, de preferência repetidas vezes, que a memória da dádiva tem duração curta porque a cabeça da avó já não é a mesma. 

É preciso acreditar. Ter Esperança. E nós temos. 

Tão bom ter-te connosco Princesa Molly. 





sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

Mensagem de Ano Novo

 1 de Janeiro de 2021

Os ponteiros do relógio continuaram a mover-se, alheios às nossas preocupações e desejos, e avançam vagarosa e impiedosamente. É o tempo a passar, vagarosa e impiedosamente, alheio às nossas preocupações e desejos.

E num exacto milésimo de segundo, saímos de 2020 e entramos em 2021. 2021 anos contados desde que se começou a contar, neste mundo e civilização que conhecemos. 

E acordamos e diz o calendário que estamos em 2021. Sorte a nossa de termos acordado e acompanhado mais este virar de ano. Com sorte e a vã  mas tão necessária ilusão e esperança que teremos a partir de hoje 365 dias para viver. Não temos. Lamento ensombrar o vosso conto de fadas, mas não temos.

Mas é importante acreditar. Fingir que acreditamos ter mesmo 365 dias pela frente. Ter fé e esperança que teremos efectivamente 365 dias para viver da forma que achamos verdadeiramente valer a pena. Com momentos e pessoas e sentimentos e emoções reais a encherem a nossa vida e a dos que nos rodeiam, com a única riqueza válida da vida. 

Mas mais importante ainda que acreditar no futuro, é termos consciência que na verdade só temos o momento, este momento. Nós e os outros. Os de quem gostamos. E a vida não espera. Passa, indiferente aos nossos planos de deixar para depois, fazer e viver isto e aquilo noutro dia qualquer. O dia que temos é apenas este. O dia, o momento. Este. Vivam-no! Não deixem para depois. Sejam felizes e façam os que vos rodeiam felizes também. Não noutro dia, não noutra altura, não depois, nesse momento futuro imaginário, existente apenas na neblina da vossa cabeça, ainda assim com existência sólida e de certeza arrogante, para vossa própria segurança e conforto emocional, assim o construíram e assim o imaginam. Pura ilusão. Ele não existe. Só existe o agora.

Bom Ano Novo para todos, a começar por hoje, por agora, por este exacto momento: Bom dia para todos, com saúde e tudo que vos encha a alma! 

E não esperem, façam acontecer! Feliz Ano Novo!


domingo, 27 de dezembro de 2020

Do Natal 2020, da velhice, da demência e do amor...

Podes não saber quem fomos

Podes esquecer-nos num segundo e recordar-nos no segundo seguinte

Podes até não saber quem tu própria és

Não importa!

Nós sabemos quem foste e sabemos quem tu és!

E nesse exacto segundo, em que com carinho e naturalidade te limpamos o pingo do nariz que teima em cair, te desviamos os cabelos dos olhos e te afagamos o rosto, entre as iguarias do almoço e as gargalhadas... 

Nesse exacto segundo, tu sabes com total lucidez e perfeita clareza...lembrando-nos também a nós próprios...quem somos!  Obrigada Tia Lurdes.


quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Natal 2020

Ouvimos e dizemos, com uma repetitividade tão grave quanto oca, que este Natal é um Natal diferente, um Natal atípico neste ano atípico e resgatamos da prosa que ouvimos vezes sem conta nos média que nos invadem a casa e o cérebro e alma, vocábulos que não usávamos habitualmente e nos fingimos de inteligentes, preocupados, conscientes e responsáveis. E seremos certamente...

E é verdade que este Natal é diferente. Diferente do ano passado e diferente de todos os anteriores. Diferente do Natal do próximo ano e de todos os seguintes. Simplesmente porque todos os instantes que se vivem são absolutamente únicos e simplesmente irrepetíveis. E só diremos que este Natal é diferente porque, embora saibamos que não é assim, temos por hábito e para nossa própria defesa e conforto emocional, dar por garantido. Dar por garantido, as coisas, as pessoas, a vida, e acharmos de de alguma forma podemos repetir, o Natal, os dias, os gestos, as emoções, os abraços, as gargalhadas, as pessoas, e por isso tanta vez desvalorizamos ou até mesmo adiamos...o Natal, os dias, os gestos, as emoções, os abraços, as gargalhadas, as pessoas. O instante. A vida.

Hoje, neste Natal "diferente", tão diferente como todos os outros, venho "repetir" o sentimento e o desejo sincero, que de tantas vezes repetido, se confunde com vulgar, banal, rotineiro e sem valor, só porque nos parece igual e repetido, mas que é único e absolutamente diferente de todos os outros, simplesemnte porque este instante e este Natal, como todos os instantes da Vida, não se repetirá. 

Feliz Natal a todos os amigos, com saúde, amor, paz e pão. Umas Festas Felizes para todos, neste Natal, nestes dias, neste instante que estão a viver. E por mim, pode mesmo ser "apenas" muitas festinhas, muito amor e muita saúde. É a prenda que peço e que não se embrulha. Vivam este Natal e todos os instantes da vida como são: únicos!


Feliz Natal cachorrada!

segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

"Solidão" ou "Eu e esta cadeira"

Por fim, depois da curta visita, que tardara mais que o necessário e desejável, com os seus olhos pequeninos e claros, por trás das lentes dos óculos, desviou o olhar, libertando-nos dele e focou-se no que parecia ser a imensidão do vazio: "Vocês agora estão aqui, comigo entre estas quatro paredes, mas estão a ver aquela cadeira? Agora vocês vão embora, fecha-se esta porta e eu aqui fico. Entre estas quatro paredes, eu e esta cadeira". Solta uma gargalhada envergonhada e triste e continua, com a mesma doçura na voz, mas agora carregada de tristeza e dor. "Não faz mal, é assim...a vida...eu e esta cadeira, ficamos para aqui...sozinhas...eu e esta cadeira...".

Agora, aproxima-se mais um Natal e eu recordo bem os Natais em que me enviavas brinquedos, de lá, do Ultramar, e postais, sempre lindos, com paisagens exóticas, e ilustrações com realidades tão distintas da minha, que me faziam sonhar. Nos meus aniversários e noutras ocasiões, sempre que terias vontade e podias. Escassas as palavras, mas sempre carregadas de amor e carinho, atravessavam o Oceano desde o teu coração e chegavam ao meu, cravando-se aí, guardadas até hoje. Nem tanto as palavras mas sim inequivocamente o amor, que vencia distâncias, atavessava o mar e chegava até mim.

Recordo o tempo em que eu era menina de colo e tu me carregavas e embalavas.

Os passeios que dávamos quando eu era menina e já corria traquina, pelo campo entre as flores, saltitando entre riachos, equilibrando-se nas pedras, sentindo a terra, inalando o perfume da vegetção e sendo feliz. (Acho que vem dai o meu gosto pelas incursões pelo campo e pela Natureza, correndo e saltando). O passeio ao Jardim Zoológico, o baloiço que ajudavas a embalar. A ajuda que sempre me davas para descer ou subir muros ou sempre que alguma dificuldade se me deparava. A mão dada, o consolo e o mimo, o afago no rosto e a lágrima limpa com a tua mão macia, sempre a cheirar a creme Nívea, e a doçura na voz que ecoa clara ainda hoje na minha cabeça como se estivessemos lá, nesse tempo guardado na memória, há quase cinquenta anos atrás. 

Sempre a tua palavra amiga, o carinho, o amor, o bem-querer, sempre comigo ao longo da minha vida desde que nasci. De uma forma ou outra, acompanhaste-me a minha vida inteira e eu...sinto-me abençoada e grata por isso.