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quarta-feira, 16 de maio de 2018

6º Trilho das Lampas



S.João das Lampas, 12 de Maio de 2018

Já sabemos que a Organização deste Trilho é o Meia Maratona de S. João das Lampas - Grupo de Dinamização Desportiva, em parceria com a Sociedade Recreativa, Desportiva e Familiar de S. João das Lampas e podemos encontrar todos os pormenores, regulamento  e demais informações da prova, aqui, no site da mesma. É só clicar aqui e pensamos que  podemos ficar a saber tudo do Trilho das Lampas.

Mas não, não...não...lamento mas não é assim e desengane-se quem assim pensa. Para saber o que é o Trilho das Lampas, é preciso ir lá. Correr e sentir. Basicamente sentir. S.João das Lampas!

Não foram este ano? Temos pena, agora só para o ano. Mas...Talvez, só talvez vos possa transportar lá se estiverem interessados na viagem...Estão?  Entremos então no Trilho das Lampas!

No alto da arriba, por cima da praia de S.Julião, com mais de 11 Km percorridos a "partir pernas", num lusco-fusco a esvair-se para o negrume da noite, encontro-me sozinha varrida e despertada pela brisa fresca que me cola a roupa ao peito, que encho de ar, e me revigora de forma única e fabulosa. Olho o mar e o céu, absorvo toda aquela imensidão do universo e sozinha, encontro-me. Simplesmente encontro-me. Sensação única e inexplicável. Ah, isso podia ser em qualquer trilho, dirás. Mas não. Não podia! Quando valores como a amizade, carinho, respeito e estrondosa admiração perfeitamente justificável me levam às Lampas, tudo nas Lampas é diferente. Transcendente. E é "apenas" uma prova que nem chega a 21 Km de distância e pouco mais de 500 m de desnível positivo, ideal para quem quer experimentar o Trail e aparentemente não se percebe tanto êxtase por cortarmos aquela meta, quando já for noite escura.

Ah pois! O Trilho das Lampas é especial. Pelo ar que se respira em que se  sente o trabalho e empenho daquela gente, que tudo faz para nos abrir o Trilho das Lampas como se desvendasse um segredo valioso e nos oferecesse uma prova magnífica para nos deliciarmos.E na verdade assim é!

Quando ainda antes da praia, acelero o passo para chegar à praia antes do Pôr-do-Sol, subo a encosta íngreme e com os músculos das pernas a arder e  a suplicar por uma pausa, ouço chamar atrás de mim "Maria Sem Frio Nem Casa!" e quando me volto vejo uma menina bonita, de olhos claros bonitos, de escrita bonita a revelar um bonito coração, e o meu coração se invade de genuína alegria ao ponto de a abraçar com uma espontaneidade rara, porque sou um bicho do mato pouco dado a manifestações daquilo que sente, e então sinto-me imensamente tão feliz por a encontar ali, o regresso dela após a participação na 1ª edição destes Trilhos e tão feliz simplesmente por eu ali estar a viver o momento. Mas queremos chegar à praia antes do Pôr-do-Sol. Nem de propósito encontrar  ali a Susana. Ela avança pois vai melhor que eu e deixa-me para trás. E eu, avanço como posso. Mas o Sol não esperou. Outra vez não esperou por mim. Treinasses, diz-me ele baixinho com malícia e sarcasmo, já escondido no mar, enquanto eu atravesso a praia conformada.

Ah! Então dizes que o Trilho das Lampas é magnífico porque tens sensações de total comunhão com o universo, sensações de plenitude e porque dás abracinhos a amigas que reencontras no Trilho?! Mas lá isso são razões?! Isso poderias encontrar em qualquer trilho...

Não, não podia. E eu digo-te o que o Trilho das Lampas tem, se a ti te interessam apenas factos concretos e palpáveis.

Tem uma inscrição no valor de EUR 10,50 na 1ª fase, depois vai, natural e compreensivelmente subindo até chegar a EUR 14,50 apenas a uma semana da prova, caso ainda haja inscrições o que este ano não aconteceu, pois as inscrições esgotaram.


Tem chip incorporado no dorsal personalizado com o nome do atleta e um contacto da organização para caso de emergência. Pontos de controlo pelo percurso.

Tem uma Caminhada de cerca de 10 Km a decorrer em simultâneo. Tem uma excelente e eficiente organização nas inscrições e levantamento de dorsais.

Uma t-shirt de boa qualidade e de corte feminino para as mulheres.

Tem um bonito relvado e um pórtico insuflável na Partida que é pontal e animada.

Tem um percurso maioritariamente em Trilhos e caminhos de terra, com marcações absolutamente irrepreensíveis, quer de dia quer para o período da noite, com setas reflectoras e pontos de luz. Faltaram este ano os archotes a arder na ponte Romana, que lhe davam um ambiente absolutamente mágico, mas luz não nos faltou.


Tem o Rancho folclórico a cantar, tocar e dançar pelo meio do percurso, ainda de dia. Tem abastecimentos suficientes com água para beber, em copos e depósitos de água para reabastecer, lava-mãos, banana e laranja, bolinhos, batatas fritas e tomate. Eu vi tomate?! Tenho quase a certeza que vi tomate com sal, petisco que andava a pedinchar desde o 1º trilho, e tenho quase a certeza que vi uma meia rodela de tomate perdida e solitária num tabuleiro vazio, mas, a ser mesmo tomate, era já só meia rodela, abandonada, o que me levou a preferir a laranja que era com fartura e acabadinha de cortar. O que só prova que o tomate ou tem muita saída ou então não arriscaram a cortar muito. Ou então eu apenas imaginei e não havia tomate nenhum...

O Trilho das Lampas tem um bonito percurso, um Pôr-do-Sol na praia para a maioria do pelotão que chega à praia por essa altura, tem trilhos de dificuldade de média a reduzida, o que o torna ideal para principiantes e é também muito corrível. Haja pernas, força e folêgo.

Há apoio da organização pelo caminho. Mesmo sozinho nunca te sentes verdadeiramente só. Mais além há sempre alguém a orientar, apoiar ou acautelar numa ou noutra parte do percurso que possa ser mais perigosa.

À chegada à meta, há o pórtico e uma chegada condigna. Medalha muito bonita é colocada ao peito dos atletas.

Chá quente, sopa de legumes, água, fruta, bolinhos e batata frita. Nada falta para repor energia aos atletas.

Há banho disponibilizado, embora de água fria. 

Entrega de prémios, com troféus e taças, na geral e por escalões, em absoluta igualdade entre os géneros.

Classificação disponibilizada muito rapidamente no site da organização.

Foram ainda disponibilizados fogareiros para quem quisesse compor a ceia ali no largo de S.João das Lampas.

E isto é o que o Trilho das Lampas oferece, de forma visível, palpável e inegável. Mas o que o torna especial? Ah, o que o torna especial são as pessoas! As pessoas e a energia que emanam, as pessoas que o organizam e te recebem em S.João das Lampas. É o empenho, a entrega, o trabalho e a humildade, ah a humildade, essa coisa cada vez mais rara de encontrar. E o resultado é este: um Trilho absolutamente espectacular, num ambiente único e fantástico que não deixa de encantar e cativar quem lá vai! Mas o que tem de especial, insistes em perguntar. Vai lá para o ano e ...sente! Sente! Porque só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos e é o essencial que torna o Trilho das Lampas muito especial.

Muito Obrigada Fernando Andrade e toda a sua equipa! Estão uma vez mais de Parabéns! 

Se penso voltar? Sempre!













20,8 Km percorridos, em 2h55m49s

Fui 510ª classificada da geral de um total de 585 chegados à meta


Em video, uma das belas passagens neste Trilho das Lampas: na Ponte da Fonte da Bolembre, ao Km 3,5, por Rui Manuel Andrade, para ver aqui - E este som da água? Maravilha!

Resultados, para ver aqui

Fotos

Por Luís Duarte Clara, para ver aqui

Pelo Melro, para ver aqui

Por Rui Manuel Andrade, para ver aqui


Em video, por Luís Gouveia:



E pela Saloia TV para ver aqui, a Partida  da prova e a adorável entrevista com o responsável e mentor disto tudo: o mestre Fernando Andrade

Do arquivo de uma totalista da prova, pateta orgulhosa e que espera daqui a 20 anos continuar a poder dizer com orgulho, prazer e alegria que é totalista da prova:

A minha história no Trilho das Lampas:

O 1º Trilho das Lampas - 2013
O 2º Trilho das Lampas - 2014
O 3º Trilho das Lampas - 2015 
O 4º Trilho das Lampas - 2016
O 5º Trilho das Lampas - 2017

terça-feira, 8 de maio de 2018

7ª Corrida Rota do Queijo

Lousa, 6 de Maio de 2018 


Gosto muito desta prova! Pertence ao Troféu Corrida das Colectividades do Concelho de Loures, que vai este ano na sua 34ª edição.

É a 7ª Corrida Rota do Queijo, em Lousa, e eu lá estive.

Inscrição gratuita e fácil (por mail para a Câmara de Loures, ou mesmo no próprio dia no local, antes da partida, no secretariado da prova), um percurso rápido, para quem tiver pernas e caixa, bonito e num misto de asfalto e terra batida, durante cerca de 8 Km, em que basicamente são 4 a subir e 4 a descer. Saída de Lousa, subida à fábrica de queijo Montiqueijo e regresso a Lousa por asfalto sempre a descer, sempre a abrir para quem puder.

Quilómetros marcados, percurso sem trânsito, feito em segurança e na meta um saquinho com 1 garrafa de água, 1 maçã, 1 queijinho maravilhoso e um belo pão. Troféus por escalões e para as equipas, não esquecendo que o Troféu promove verdadeiramente a Corrida para todos, incentivando, e proporcionando uma manhã desportiva a todas as idades, pois não esqueçamos as provas para os escalões jovens que decorrem antes da principal.

Uma vez inscrita numa prova do Troféu, esse mesmo dorsal dá para todas as provas do troféu, seguindo-se já Bucelas dia 20 de Maio. 

Há pois a natural e quase sempre salutar competição entre os atletas de todas as idades que disputam o Troféu mesmo "a sério" e com objectivos específicos para pontuarem e alcançarem um bom lugar no final do Troféu, para eles e para os clubes que representam. E depois há os paraquedistas, que como eu, não estão propriamente interessados no Troféu mas participam simplesmente numa ou outra prova simplesmente pelo que a prova oferece. E a Corrida Rota do Queijo oferece muito! A custo zero! Eu adoro a dificuldade do percurso, o cenário onde corro, o arvoredo, as subidas em alfalto e em terra batida entre árvores sob um sol abrasador e depois a descida até à meta, novamente em alcatrão. Adoro! Por isso lá volto sempre que posso.

Depois na meta, temos como prémio de presença (limitado aos 200 primeiros chegados à meta da prova principal), um queijo da dita fábrica e um belo pãozinho, além de uma maçã e de uma garrafa de água. No entanto este ano, alguma coisa não esteve bem, pois nitidamente não estavam 200 atletas na prova principal e ao contrário do anunciado no Regulamento não houve o queijo, nem o pão, nem a maçã nem a água (e a água é fundamental!) para alguns dos chegados à meta. Igualmente e ao contrário do anunciado no Regulamento, não houve abastecimento de água durante a prova, o que não sendo muito grave se considerarmos a distância, é mau se consideramos que o regulamento não foi cumprido e é péssimo se consideramos que o Sol já ia muito alto e o calor fazia-se sentir e bem. O que vem levantar a questão se o horário da partida (10:30hrs) não poderia/deveria ser mudado para mais cedo, pois a prova começa com as corridas dos escalões mais jovens, e a principal, de maior distância, acaba por ser muito tarde e apanhar uma hora de maior calor, na minha opinião.

De qualquer das formas, eu sou uma rapariga com muita sorte e apesar de ser quase dos últimos a cortar a meta, eu ganhei, além da manhã rica em vivência, o meu saco de plástico, com a garrafa de água, a maçã, o pão e o magnífico queijo, que por sinal nem  me passou pelo estreito  que isto de ser Mãe, apesar do dia ser delas, das Mães, elas reúnem a família e como sempre, dão o melhor que têm, e se se distraem um bocado, como foi o caso, quando dão por ela, o queijinho ganho na Corrida já era, tendo sido depois muito elogiado por todos que lhe afinfaram o dente.

Ouvi vários atletas descontentes, os que não receberam nada na meta, nem água e isso, a falta de água não é aceitável de todo! Estão chateados e têm razão. A água, não podia faltar!
Mas eu quero acreditar que foi uma falha inesperada, por um motivo qualquer, (os humanos que fazem coisas falham, só quem nada faz, não falha) e quero acreditar que no próximo ano não se repetirá, e se a vida me permitir, lá estarei de novo.

A minha Corrida:

Estou gorda e destreinada. Falta-me força, resistência e velocidade. Sobra-me peso e dores. E medos também. Desânimo e ânimo sempre no campo de batalha. Hoje venço eu e apareço em Lousa para correr. Para ter uma manhã a fazer o que gosto e que me dá mais e melhor vida.

Amigos reencontrados. Recentes e de longa data. Conversas. Sempre bom. Muito bom! Adorei reencontrar a Ana Gonçalves e conversar com ela. 
Entretanto e depressa a partida é dada. Alguns metros na estrada nacional para depressa começarmos a subida. A Ana já desapareceu lá para a frente. Vou alguns metros com a Alexandra, mas não acredito que a consiga acompanhar. E não consegui. Talvez nem tivéssemos 1 km de prova e a subida se intensifica, e ela vai. E eu vou também, mas pesa-me tudo e vou mais devagar. Tenho poucos atletas atrás de mim. Sou obrigada a caminhar. Tão cedo, penso. Isto está bonito está. Não digo mal da minha vida, mas que bom seria estar mais levezinha e melhor treinada. Isto promete. No próximo fim de semana é pior, penso. O 6ª Trilho das Lampas aguarda-me e estou quase apavorada. Mas aquilo faz-se. Agora concentra-te nesta, penso. Mais uns passos de Corrida para logo à frente voltar a caminhar. Ando nisto uns bons metros, até ser apanhada por um atleta que vem de trás e com uma energia positiva altamente contagiante e difícil de se encontrar por aí. Contagia-me verdadeiramente. Conversa. Apoia-me. Motiva-me. "Curtinho, curtinho", repetia ele referindo-se aos passos que deveríamos dar na subida para evitarmos parar. Para eu evitar parar! Que ele ia fresco que nem uma alface! "Curtinho, curtinho, não pára, peito para fora, cabeça levantada, curtinho, curtinho, anda para aqui, mantém-te na minha energia, curtinho, curtinho, vamos apanhar a Clara, curtinho, curtinho!" E assim, como se estivesse na tropa a seguir as instruções de um sargento, lá ia eu seguindo o Serafim, a custo, é verdade, mas muito divertida e admitindo que sem ele, me custaria muito mais e já teria parado um milhar de vezes pelo menos. Ia em esforço, quase contrariada por não poder ceder ao cansaço e começar a caminhar cabisbaixa mas admitia que ele estava a ser uma ajuda crucial. Até que entramos no estradão de terra e a sua inclinação e extensão já fazem mossa. Aí, avisei que ia descolar, tinha mesmo de andar, os músculos já ardiam e caminhei mesmo por alguns metros. Mas o Serafim não descolou! Não me deixou na minha agonia e continuava a puxar por mim, agora já a irritar-me com o seu "curtinho,curtinho, vamos lá, curtinho, curtinho". Não deixei transparecer o que sentia e contive com alguma dificuldade  o que me apetecia mesmo dizer-lhe "Oh homem, vá-se embora, deixe-me em paz, siga, e cale-se lá com o raio do curtinho curtinho, foi uma excelente ajuda até agora mas agora eu tenho de caminhar um pouco, siga, faça a sua prova, fosga-se, largue-me da mão, caraças!" Mas não. Sabia perfeitamente que este grito mudo era uma raivinha por ele não me estar a facilitar a desistência, e dessa forma, me dar força para continuar. E assim, poucos metros andei e depressa o volto a acompanhar, em lentíssimo passo de Corrida, ao ritmo do "curtinho, curtinho".
Passamos a fábrica do queijo, volta-se ao alcatrão, e agora é praticamente "só" descer para a meta. Mas ainda faltam mais de 3 kms. Apanham-nos a Clara e o Luís e fazemos praticamente estes últimos quilómetros, os 4 juntos. Reconheço a imprescindível ajuda do Serafim, e fico-lhe grata pela força que me deu praticamente na prova toda. Cortamos a meta juntos. O Luís adiantou-se um pouco e a Clara, mandei-a para a frente pois estará com certeza a disputar o Troféu e os pontinhos fazem-lhe falta.

Despedidas feitas a todos e agradecimento genuíno ao Serafim. Sem ele, faria a prova na mesma, isso é certo, mas não seria a mesma coisa.  

Foi uma manhã muito bem passada e por isso agradeço e dou os parabéns às entidades envolvidas: Junta de Freguesia de Lousa, Camara Munucipal de Loures e a Colectictivade da Freguesia de Lousa. Mas para o ano, vejam lá melhor a quantidade dos queijinhos e a água, a água, simplesmente não pode faltar!

Outros dados da Corrida:

Apesar do gps continuar a registar caminhos que não sigo, e portanto distâncias que não percorro e logo, média de ritmo que não faço, a verdade é que corri cerca de 8 Km e demorei 53 m para fazer a 7ª Corrida Rota do Queijo.

A minha corrida, registada pelo meu gps, pode ver-se aqui

Mas para quem tiver curiosidade, pode ver o registo correcto da corrida, feito pelo Luís e que pode ser visto aqui. Percurso, distância e altimetria bem mais perto da realidade do que a minha, que como podem ver, parece que corri, andei e voei por lugares incertos, o que não deixa de ser verdade, especialmente quando corro.










O meu companheiro de aventuras: o Melro:





Falta a maçã e a água, que também recebi na chegada:

Classificações podem ver-se aqui

E aqui encontra-se o Regulamento

quinta-feira, 26 de abril de 2018

41ª Corrida da Liberdade


Lisboa, 25 de Abril de 2018:

Vialonga, 25 de Abril de 1977:


Corro desde que me conheço. E conheço-me há quase cinquenta anos.

Passam os dias e os anos, e sem darmos conta, a Vida. 

Muno-me do que tenho e vou à 41ª Corrida da Liberdade em Lisboa. A 1ª vez que corri em comemoração da data faz precisamente 41 anos (em Vialonga, no "I Encontro da Juventude de Vialonga"), e hoje repito a "graça" pelas ruas da cidade onde nasci. Tantos anos depois, continuo a correr.

Comemoração da data... Agora e sempre: 25 de Abril, sempre! Nasci no regime fascista e vivi nele apenas 5 anos, o insuficiente para o sentir na pele de forma consciente, mas cresci a ouvir, não estórias, mas a ouvir a vida que os meus pais levaram, que os meus avós levaram. Cresci. O suficiente e suficientemente inteligente para defender o 25 de Abril acerrimamente. Nada paga a Liberdade. A Liberdade. De falar, de pensar, de estar, de ser!

E de forma singela, comemoro. Corro. Participo numa Corrida, verdadeiramente Corrida para todos! Evento simbólico, festa gigantesta que pára a cidade para cerca de 8000 pessooas (este ano), comemorarem nas ruas. Percursos para todos os níveis atléticos, para todos os bolsos (custo zero), para todas as idades e todas as classes. Desde que sejas de Lisboa, ou tenhas carro e gasolina no carro para te deslocares, ou se tiveres um amigo que te leve (que foi o meu caso) podes participar e ser elemento activo e fundamental nesta festa. Porque a Corrida da Liberdade é a festa da Corrida. Para todos.

Lembra-te as conquistas de Abril, nomeadamente no que à Corrida diz respeito,e cale-se quem o despreza (o 25 de Abril) que também os há por aqui, e se esquecem que antes, nem podiam correr assim nas ruas nem podiam desprezar em voz alta o que quer que fosse contra o regime. Ia dentro! Levava porrada no lombo e ia dentro! Hoje, censuram em voz alta e desprezam em voz alta, sem medo. Esquecem que só o podem fazer precisamente porque houve Abril.

Eu não esqueço. A História, que não é feita de histórias e historinhas mas que é feita da vida real das pessoas reais, e eu, conheço muitas e muitas, que viveram na pele o Regime Fascista.

Por isso,de forma singela, comemoro. Homenageio os capitães de Abril e respeito. Envergo  e ostento ao peito, o cravo, símbolo vivo, e faço a Corrida toda com ele ao peito. Depois, já para o final, ergo-o no punho fechado, levanto o braço e selo com passos de Corrida e o maior sorriso que consigo esboçar, a Liberdade que Abril nos deu e as portas que Abril abriu. Só por isso vale a pena aqui estar. Só porque houve Abril, eu posso aqui estar. Só por isso, Abril valeu a pena.

Certo, certo, já sabemos que defendes Abril com unhas e dentes, mas a tua Corrida como foi?

Foi bem. Num panorama de escassez de participações em provas, esta, veio-me mesmo a calhar e a deliciar. Correr é bom. É muito bom. É magnífico. E correr é sempre um acto solitário. Tiras o maior proveito estando, não só, mas contigo mesmo! (e esses momentos rareiam cada vez mais: estar consigo próprio). Mesmo que haja ali uns tagarelas, que até te motivam, incentivam e apoiam, e picam e te façam correr mais e eventualmente evoluir, o benefício maior é (a meu ver) o proveito que tiras a correr só! Não obstante, gosto destes ajuntamentos, destas festas, deste reencontro de amigos, de falar, das risadas, da alegria partilhada e do convívio. E tinha saudades, confesso.

O carro é deixado nos Restauradores, assim como o meu pai, que nos fica a aguardar, e nós, os atletas, seguimos de metro para a zona da Partida. Já era tempo do Metropolitano de Lisboa se aliar a esta Corrida e permitir as deslocações entre a meta e a partida a custo zero. Mas porque raio, perguntarão! E claro, têm razão, estão ali para ganhar dinheiro. Querem correr? Corram! Agora querem andar de Metro, paguem! Claro que lhes é completamente indifente que EUR 1,95 possa fazer diferença na mesa de quem quer perticipar na festa à qual vai apenas porque a inscrição é gratuita. Prioridades, políticas e posturas de uma empresa, que só à própria dizem respeito, tendo o povinho no entanto o direito de opinar, como é agora o caso.


Na Pontinha, há já um aglomerado de gente. Levantar dorsal é fácil e mesmo quem não estava inscrito passa a estar num segundo. Muitas caras conhecidas, amigos também. Bom rever. Mais alguns colegas de equipa e depois, uma ida à casa de banho e nunca mais vejo a minha equipa. Nem foto em frente ao quartel tirámos, onde no 25 de Abril de 1974, há 44 anos atrás portanto, o Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas esteve instalado e  a partir de onde, dirigiu todas as manobras da Revolução dos cravos.

Vejo-me só. Ovelha tresmalhada. Tudo normal portanto. Não deixo de tirar a foto da praxe, apesar de só, em frente ao Quartel do Regimento de Engenharia 1, local absolutamente histórico. E de cravo ao peito, bem junto ao coração que bate, misturo-me na multidão, e depressa se dá a partida. 

Adoro correr por estas ruas. Por esta cidade onde nasci. De cravo ao peito. O ritmo é controlado e o objectivo é simplesmente mantê-lo e chegar ao fim sem ter de caminhar. Algum público e sempre uma ou outra ovação ao 25 de Abril a encher-nos de orgulho e gratidão e a dar-nos mais força para continuar.

Há abastecimento de água sensivelmente a meio da prova. O trânsito está totalmente cortado por onde corremos. em completa segurança.

Chegar ao Campo Grande, descer para Entre-Campos, Campo Pequeno, Saldanha, Marquês de Pombal e entrar na Avenida da Liberdade, ladeada de verde, é absolutamente fantástico. Agora, podemos soltar as pernas e só agora é realmente a descer. Embalo o que posso e busco o meu pai com os olhos. Levanto o braço, de cravo em punho e corto a meta feliz, só depois de o avistar.

Há algum congestionamento na chegada e o escoamento dos atletas faz-se lentamente e com alguma dificuldade. Saimos depois dali, com mais uma garrafa de água e uma t-shirt de algodão. Reuno-me com os amigos, alongo e regressamos a casa. 
Por ali, nos Restauradores, a festa continua. Não se esquece Abril. Não se perde Abril. E não se pode esquecer nem perder Abril!

Para o ano, lá estarei de novo.

Obrigada a todos os que mantêm este evento megalómano de pé e desta forma permitem que milhares possam comemorar Abril a fazer o que tanto gostam: Correr. E é bom acreditar e lembrar que a Corrida, deve ser como o Sol quando nasce: para todos!


Organização da ACCL - Associação das Colectividades do Concelho de Lisboa, FCDL - Federação das Colectividades de Cultura Recreio e Desporto do Distrito de Lisboa e a A25A - Associação 25 de Abril, juntamente com a Camara Municipal de Lisboa e em parceria com a CPCCRD - Confederação Portuguesa das Colectividades de Cultura, Recreio e Desporto, com a CMO – Câmara Municipal de Odivelas e as Juntas de Freguesia de Lisboa e Odivelas.

Corri a distância aproximada de 10,800 Km e demorei 1h02m para o fazer, com esforço, controlado, bem gerido e muito prazer.








Fotos da 41ª Corrida da Liberdade:


Pelo Zé Gaspar, AMMA - Atletismo Magazine Modalidades Amadoras

Por Luís Duarte Clara, Album 1, para ver aqui 
 e 
Album 2, para ver aqui

Por MB Run&Photo, Album 1 para ver aqui
e
Album2, para ver aqui

domingo, 15 de abril de 2018

12 anos - Parabéns Maria! A "blogar" desde 2006!

Quando vais ao médico, e assim, só por descarga de consciência (mesmo sabendo que vais ignorar a resposta se esta não te agradar) lhe perguntas, se, mediante o quadro clínico que se pretende tratar agora, faz mal correr, e ela, a doutora te responde categoricamente "Corra, corra, corra! Faz mal é não correr!", só te apetece é saltar da cadeira e abraçar aquela mulher! 

E no dia que a Maria Sem Frio Nem Casa completa 12 anos de existência (14 de Abril), ela não correu. Mas não houve chorrilho de lamentações nem flagelações psicológicas, como era habiual encontrar-se por aqui quando tal sucedia.

E doutora, acha que, mediante as circusntâncias actuais, ainda posso pensar que é possível completar o 6º Trilho das Lampas? Acha, doutora? Claro que sim, rapariga! Precisas no entanto é de um tratamento de choque, que te vou passar. Uma injecção de treinos, que te vão por a cortar aquela meta. E começas já hoje!

Então, desta vez, logo a seguir ao dia da comemoração dos doze anos da Maria Sem Frio Nem Casa, ela, até porque se aproxima rapidamente o 6º Trilho das Lampas, prova que ela faz desde a sua 1ª edição e onde quer continuar a marcar presença, ela, pegou na receita da doutora e tomou a 1ª de muitas injecções. Calçou os ténis e foi ali. Subiu a Serra e desceu a Serra. 


O treino pode ser visto ao pormenor, aqui

Claro que foi obrigada a intercalar passos de Corrida com caminhada. Mas o Trilho far-se-á precisamente assim: a Correr e a Caminhar!

Até amanhã querido Diário


terça-feira, 3 de abril de 2018

O carreiro e o treino no Monte

Um dia, quando caminhava no meu jardim relvado, em silêncio, usufruindo de momentos de paz e tranquilidade, pensando precisamente que aquela relva já estava a precisar ser aparada e melhor cuidada pois ervas daninhas começavam já a predominar e ganhavam uma altura que em certas zonas nos chegavam aos joelhos, quando, entre um olhar fugaz ao cão que, livre, serena e alegremente farejava aqui e ali, e um olhar para a planície imaginada a partir de meia de dúzia de metros quadrados de verde, eis que vejo de forma nítida e inequívoca, um carreiro  estreito, ali no meio da relva e também ele relvado, mas onde incrivelmente, a relva se mantém cortada e nem uma erva daninha se atreve a invadir o espaço. Estranho. Este "carreiro", ao contrário de muitos naturalmente criados pela regular passagem das pessoas, parece não vir e não levar a lado nenhum, dir-se-á à pimeira vista e continua a ser claramente verde, em vez de terra despida, provocado pelos passos e peso das pessoas Ali, a relva não está mais pisada que a restante existente ao redor. Como se os seus utilizadosres fossem de uma leveza e delicadeza surreal. Simplesmente, ali a relva não cresce tanto, como se fosse mais cuidada, e as ervas daninhas parecem estar interditas e respeitam o carreiro, não o invadindo. Curioso no mínimo.

Atenta ao "fenómeno", ao longo das semanas, constato que o carreiro se mantém e apresenta-se-me cada vez mais visível e definido, enquando ao seu redor todo o tipo de vegetação já cresce desgovernadamente. Um dia, entrei nele, no carreiro. Dou alguns passos e levanto a cabeça. Sinto-me leve, muito leve e de repente tudo faz sentido. Em frente, mesmo depois de acabar o relvado, e imaginariamente atravessando passeios e bancos de jardim que estão lá, o carreiro leva-nos direitinho para a porta principal da velha capela em ruínas. Exactamente em linha recta! Arrepio-me. E saio do carreiro.

Outros dias se seguem, e ele lá se mantém, até agora que a  relva e as ervas daninhas em redor  foram cortadas pelas máquinas e pelos homens, o carreiro mantém-se com uma tonalidade diferente de verde e perfeitamente identificável.

Por vezes atravesso-o ou dou apenas dois ou três passos dentro dele. Sinto-me demasiado leve nele e sei que me leva para outra dimensão, universo pararelo ou lá o que queiram chamar. Muda a percepção do tempo e do espaço. E depois sinto-as. E sinto medo. Um medo doce e tentador que me leva para o desconhecido. E salto fora do carreiro enquanto é tempo.

Tempo. Espaço.  Universos paralelos e dimensões desconhecidas e misteriosas. Um tema interessante sem dúvida.

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O treino no Monte

Todos os que correm, conhecem perfeitamente as boas sensações provocadas pela Corrida. Entre elas, as sensações de transcendência, imaginária ou real. Quem nunca sentiu, que enquanto corremos parece que somos levados para lá do conhecido? Para um universo distinto daquele que conhecemos? Viagem interior em cada um de nós, em cada Corrida ao encontro de nós próprios talvez. Sensações que afinal são tão facilmente explicáveis a nível científico, pela produção de substâncias, como por exemplo as endorfinas, no nosso corpo e cérebro quando o tempo de Corrida se alonga. E lá se vai a magia da transcendência...

E hoje, eu fui correr sozinha para o Monte. Só eu e o Monte. Vacas, cavalos, ovelhas, cabras, o cão pastor, o céu, a vegetação, as pedras, a árvore, o moinho em ruínas, eu e o Monte. Absolutamente maravilhoso. Sem grandes transcendências ou experiências extra-sensoriais. Afinal não corri mais que hora e meia.

Munida de telemóvel, para qualquer eventualidade, com  ele, de forma prática, também usufro do prazer da fotografia. Recolho imagens que trago comigo em forma de fotografia, para além da retenção na retina e na alma que só a memória pode guardar. Além disso, o meu único controlo de treino, tempo e ritmo, neste momento, é o telemóvel e o Strava, que utilizo, para além dos caminhos que já conheço, da experiência e da maneira como me sinto a correr, o que sabemos pode ser muito enganadora a nível de ritmos e distâncias.

Corri devagar e andei muito. Praticamente sempre que subia, andava. E subi ao ponto mais alto do concelho de Vila Franca de Xira: o nosso Monte Serves, a uns míseros 350 m de altitude mas é o que temos e é muito bom!

Estou a treinar para o 6º Trilho das Lampas, a realizar-se a 12 de Maio, e tenho muito trabalho e prazer pela frente! Para depois, usufruir mais e melhor da prova! E o treino de hoje foi o adequado e possível.

Treino maravilhoso. Comigo mesma, ao meu ritmo. Surpreendentemente, quando termino e desligo o Strava, ela marca 1h31m (1h23m em movimento) - bate certo, mas marca também 13 Km! 13 Km! Impossível. Pelos meus cálculos, fiz entre 10,5km a 11 km no máximo! Logo o ritmo médio é falseado! Primeira reação é ficar chateada! Uma pessoa gosta de saber o que fez, avaliar o estado em que está, etc., etc. Mas isso é tudo secundário! Absolutamente secundário! Afinal corri, subi ao Monte Serves, sigo a minha preparação para as Lampas e vivi bons momentos pelo Monte acima e Monte abaixo!

E depois, concluo que afinal o Strava deve também ter contado com alguns passos fantasmas que dei. Numa outra dimensão qualquer, numa realidade paralela qualquer por onde andei nesta manhã. E afinal, sim, acredito que o Strava está certo! Percorri e vivi muito mais que os estimados 10,5 km a 11 km que penso ter feito nesta realidade que conhecemos!

treino de hoje, registado pelo Strava, para ver aqui









quarta-feira, 28 de março de 2018

Até sempre Rui Pacheco

Nesta noite de 28 de Março de 2018, olho o céu infinito, meio nublado, algumas estrelas e uma lua envergonhada, resplandecente ainda assim, numa beleza repetida, quase banal, tal a aparente falta de originalidade, tantas vistas avistada nestes quase cinquenta anos de vida que levo, mas ainda assim, bela, tão bela como poucos cenários vistos, e pintando no céu este belo cenário, a lua a condizer com as estrelas cintilantes a pulsar com diferentes intensidades mas a mesma magnitude e magia. Manto magnífico a cobrir a vida. A cobrir-nos a nós. Universo sublime e de misterioso encanto sobre nós. 

Caio no fundo. Este foi o dia que desapareceste fisicamente deste mundo. A matéria do teu corpo desaparecida, como a conhecíamos, e transformada em outras formas de vida por certo, muito dentro em breve.

Choco-me. Ainda me choco. Como se morrer não fosse vulgar. Inevitável e natural. Como se fossemos grandes amigos, que não éramos. Eras "apenas" amigo de meus amigos e no teu caso faço jus ao provérbio "Amigo de meu amigo, meu amigo é". 

Assim, conheci-te e cheguei a treinar contigo, "à boleia" de amigos, lá nos juntamos no mesmo grupo, duas ou três vezes apenas. O suficiente para perceber o ser humano simples, humilde e solidário que eras. Apesar das tuas qualidades físicas e atléticas, do exemplo de luta e superação que dás, eras um rapaz simples, educado e sem pretensiosismos.

E a vida foi-te ceifada aos 41 anos. Num segundo. Ainda não acredito verdadeiramente. Não pode ser verdade. A tua companheira, luta ainda numa cama de hospital e sem a conhecer desejo-lhe do fundo do coração uma completa recuperação física, para depois enfrentar e superar a perda irremediável. São partidas da vida que não compreendemos e dificilmente aceitamos.

Seremos nós apenas joguetes nas mãos dos misteriosos caprichos e desígnios do Universo, vulneráveis e frágeis, tão frágeis e vulneráveis, à mercê de meros acasos, de circunstâncias e condições casuais que reunidas ditam o nosso destino na porra desta vida? Quando por aqui andamos, ilusoriamente a acreditar que nós fazemos o nosso próprio caminho? 

A ti, Rui Miguel Pacheco, um até sempre rapaz!

A ti, Vanessa, os meus sinceros votos para saires dessa cama e ainda voltares a ser feliz um dia e nos brindares com o teu bonito sorriso.

À família e amigos chegados, as minhas sentidas condolências.

E entretanto, que a vida seja verdadeira e genuinamente vivida, bem vivida e espremida, ao segundo. Que se vivam as emoções, que se vivam as pessoas, que se semei o amor, a amizade, a alegria e o carinho. Que se viva e se valorize o que realmente importa, o essencial, sim, aquilo que é invisível aos olhos, e que nada fique por viver, como gostaríamos caso já seja demasiado tarde depois. Que se viva hoje cada segundo!  Porque no próximo segundo, podemos ser, nós ou os que nos rodeiam, abruptamente retirados de cena. 






domingo, 18 de março de 2018

Estórias que as casas nos contam


A fábrica e o tempo


O tempo passa de forma assustadoramente rápida. É tudo tão rápido. Rápido. Não deixa de ser irónica a palavra. Quando marca afinal uma paragem no tempo, neste caso. O tempo...Não sei mesmo se não foi ainda ontem que ouvi a sirene da fábrica a assinalar o fim do turno, pelas dezasseis horas naquela tarde cinzenta de Inverno e depois de desmontar a velha pasteleira na qual percorria a fábrica para controlar a salinidade dos tanques que me estavam atribuídos, ouvi quase em simultâneo o uivo do comboio rápido, desta vez demasiado insistente e assustadoramente perto, como se estivesse a competir com a sirene da fábrica, desafiando-a, a querer fazer-se ouvir mais alto, a avisar do perigo e a adivinhar a desgraça. Foi a última vez que aquela mãe e aquele filho o ouviram. O comboio e a sirene da fábrica. Naquela tarde triste e cinzenta de Inverno onde depois os bombeiros tiveram de recolher os pedaços dos corpos, da mulher e do menino, espalhados ao longo da linha por muitos e muitos metros. Até ao dia seguinte.
Assistímos a tudo. Eu e a fábrica. E ainda hoje, em certas tardes cinzentas de Inverno, em que a chuva miúda nos molha o rosto, exactamente pelas dezasseis horas, ainda ouço a sirene da fábrica e o apito do comboio, a urrar em uníssono e a lembrar a tragédia.