Mas o que isto tem a ver com a Corrida Rota do Queijo, que decorreu pela 12ª vez em Lousa a 3 de Maio de 2026, prova integrada no 41º Troféu "Corrida das Colectividades do Concelho de Loures" e onde eu vou sempre que posso? E o que o Carrossel tem a ver com a prova? E a prova com a vida? E o carrossel com a Vida? Tem nada e tem tudo. Tem a ver como tu sentes. Tu que corres, tu que sentes! E nada é certo ou errado. É apenas sentido. Sentido e Corrido. Uma Corrida sobe e desce. Um carrossel de asfalto e terra, uma passagem pela fábrica "Montiqueijo" para depois desceres para a meta e receberes o queijo e o pão, como prémio simbólico por teres ido "buscá-lo" à fábrica, com os músculos a arder, a respiração ofegante e o grilo falante a discutir com a tua alma. Carrossel da vida a fazer-nos subir e descer vezes sem conta. Rodopiando...Tão depressa lá em cima, como outra vez lá em baixo. Tal qual a vida.
Às vezes olho o céu azul ou cinzento e tenho vontade de chorar. Ali, no meio da multidão que é onde melhor nos escondemos e ninguém dá por nada. Depois, reparo num raio de Sol que teima em trespassar as nuvens e chega até mim e dou por mim a sorrir, como se a felicidade me transbordasse do peito, em jorros de luz, também ali, no meio da multidão que é onde melhor nos escondemos e ninguém dá por nada.
12ª Corrida Rota do Queijo
Lousa, 3 de Maio de 2026
Saímos de casa bem cedo. O estacionamento em Lousa não é muito fácil e ainda vou ter de levantar o meu dorsal.
A rua está vazia e há uma serenidade que só encontro nas madrugadas, em cada amanhecer, cada despertar de dia, acompanhado do chilrear das aves a lembrar-me que cada dia que começa é um privilégio cheio de oportunidades e de inúmeras possibilidades com que a vida nos presenteia.
Rosas brancas na vitrine da florista. Balões brancos em pontos estratégicos da rua para não deixar esquecer que hoje é o dia da mãe e a florista precisa de vender.
Branco. Branco por toda a parte. A não deixar esquecer que as mães estão quase todas mortas. Mortas e frias e brancas, antes da putrefacção, evidentemente. Naturalmente uma pessoa da minha idade há-de conhecer muitas mães mortas. Diria mesmo que a maioria está morta. Mães de amigos e de conhecidos, pela ordem natural da vida, já morreram. Talvez não seja bem assim, diz-me o grilo falante, não sei. Não quero saber. A minha, está morta!
E esta prova, por ser normalmente no 1º domingo de Maio, calha sempre no dia dela. Da Mãe.
Estou bem.
Antecedeu a prova uma noite sem insónias, sem dores, sem visitas ao hospital, sem gritos, sem medos, sem agonia, sem filmes, sem sexo tórrido, sem dúvidas, sem inquitações, sem mutilações, sem fantasias ou ilusões, sem fantasmas à solta. Só podia acordar bem. E bem cheguei a Lousa e muito bem Corri e muitíssimo bem me senti no decorrer da prova. Solta, leve, fresca, forte, ânimo raro e uma felicidade da qual já só me restavam longínquas lembranças. Correr é maravilhoso! Correr "assim" é magnífico!
Fiz a prova (8,160 Km) em 44m54s, a valer-me um 4º lugar no escalão (F55).
Uma prova de inscrição gratuita, bem montada, e que eu adoro! Percurso com boas subidas e claro, boas descidas. A passagem pela fábrica do queijo é como um ritual para mim. Chegar à meta e ter um saquinho de papel com 2 queijinhos Montiqueijo, um pão saloio, uma garrafa de água e uma pequena maçã, é um mimo muito especial.
Por todas as razões e mais algumas, foi uma manhã muito bem passada e a Corrida Rota do Queijo é daquelas onde eu vou querer sempre voltar!
"Ai, eu quero andar no carrocel
No carrocel da multidão,
Ai, eu quero voltar, ai, eu quero voltar"
UHF, in "De Carrossel"
FOTOS da prova podem ser vistas aqui, por Luís Duarte Clara