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sexta-feira, 30 de agosto de 2019

As férias e a Corrida

Estórias de encantar, mas sem encanto


Da saga “Férias 2019”

Capítulo III

As férias e a Corrida

Agosto de 2019...lá para dia 8 ou 9

Como se fosse possível, depois da tua partida inesperada, tentámos manter alguma normalidade e aproveitar as férias, o espaço e as pessoas. Tal como tu gostarias que fizéssemos e como me recomendaste com amor, repetida e insistentemente, alternando com pedidos de desculpa, ainda deitada na maca naquele escuro corredor de Hospital, a tremer descontroladamente, sem qualquer conforto ou fármaco para te aliviar as dores.

Assim, a par das viagens de 500 km para te visitar, com a preocupação acrescida da eventual falta de gasóleo nos postos de abastecimento, com que a comunicação social fazia questão de nos bombardear até à ridícula histeria colectiva, continuámos a usufruir das férias. Da piscina, da Sol quente, do descanso deitados na relva à sombra das árvores, da boa comida, da companhia dos que restavam connosco, enfim…da Vida, e claro que a Corrida não podia ser excepção. Lugares novos, com caminhos para explorar, como eu adoro. No entanto, confesso que a vontade era pouca e o cansaço do corpo não convidava. 

Mas contrariando as "desculpas", numa manhã, depois de escassas horas dormidas, depois dos pequenos almoços tratados, compras feitas e almoço adiantado, lá me empurrei, equipei-me e saí para a rua a correr!

E surpreendentemente (ou não), apesar dos caminhos secos e poeirentos, do Sol abrasador, do asfalto a queimar os ténis e a devolver o calor à atmosfera em ondas turvas à vista, corri com o original e genuíno prazer que a Corrida sempre dá. A liberdade e o prazer de estar só comigo mesma, necessidade que se impunha há muito, foi maravilhosa. Como banho de renascimento. Como baptismo repetido e ainda assim reinventado, cada vez que corro. Apenas os montes em meu redor, um ou outro cão ao longe, a guardar o seu monte, os olivais por onde me aventurei, a proporcionarem algumas sombras, a sinfonia das cigarras que claramente cantam com outro timbre no Alentejo, os rebanhos deitados à sombra dos sobreiros, a paz, a plenitude, e eu e a Corrida. Naqueles minutos, nada mais existe e de nada mais preciso. Momentos divinos estes os oferecidos pela Corrida, de forma singela e a encerrar neles tanta beleza. Assim, a passo de caracol, na imensidão do calor e paz deste nosso Alentejo, usufruí. Da Corrida e da Vida.

Poucos quilómetros corridos, mas regresso à casa como nova. O corpo, mais bronzeado, a luzir de suor sob o Sol escaldante, mais torneado e firme, sob a ilusão que a Corrida nos dá, mais forte, cheio de energia, invencível até, tal é a sensação ilusória que a Corrida nos dá. Mas claramente, sem qualquer ilusão, mais feliz, mais segura e cheia de ânimo! 

Uma alegria espontânea, quase infantil, apodera-se de mim. Recebem-me com alegria na casa, especialmente a cadela que não pára de abanar a cauda e de me lamber o rosto e as pernas, não como manifestação de afecto como gostaríamos de pensar, mas porque a transpiração lhe deve ser algo bastante apetecível ao paladar, enquanto alongo. Rio. Faz-me rir a cadela. Faz-me rir a Corrida. Fazem-me rir os meus que me esperavam à beira da piscina, onde e com quem, depois de um duche rápido, partilho mergulhos e brincadeiras com alegria e uma energia que não sentia há muitos dias, no que se hão-de transformar mais tarde, em boas recordações destas férias.

E num mergulho, de corpo totalmente imerso a deslizar nas águas azuis refrescantes, relembro-me que a Meia Maratona de S.João das Lampas está aí à porta e que eu estou inscrita!  




domingo, 25 de agosto de 2019

Todas as manhãs

Estórias de encantar, mas sem encanto

Da saga “Férias 2019”

Capítulo ...qualquer coisa e mais um...

Todas as manhãs

Agosto de 2019...lá para dia 6, 7, 8, 9 e seguintes...

Todas as manhãs, invariavelmente entre as seis e as sete, com os primeiros raios de luz e o cantar do galo, acordávamos cansadas. Noites mal dormidas, preocupadas, a deambular como fantasmas pela casa, com eles, percorrendo corredores infinitos, mal iluminados por candeeiros velhos decorados com teias de aranha, a produzir sombras fantasmagóricas pelas paredes, para ir à casa de banho, onde claramente nos sentíamos observados e vigiados, mas espantosamente sem medo. De coração aberto, só próprio de quem está ali e na vida, por bem, o medo nunca fez parte da equação. Afinal os invasores éramos nós e os espíritos só guardavam o que a eles pertencia. As aves nocturnas raramente nos davam o desejado e necessário silêncio nas longas noites, emprestando à noite um misticismo quase aterrador, e o nascer do dia era sempre por isso, muitíssimo bem-vindo.

A necessidade de manter uma normalidade rotineira, mesmo quando acabaram de nos tirar o tapete dos pés e caímos desamparados no chão, imperava, e assim, eu e tu meu amor, aos primeiros raios de luz de cada manhã, saíamos da cama. Enfiava umas calças de ganga, uma camisola e uns ténis, prendia o cabelo e afagava-te o pêlo, ainda sentada na sanita, eu, mas já acompanhada de ti meu amor, que me seguias agora pelo corredor infinito, em silêncio, enquanto o resto da casa dormia ainda.

Depois, íamos até à porta da rua, onde eu, ainda cá dentro, de joelho lixado, com dores a fazer adivinhar uma lesão qualquer que se há-de manifestar, me sentava no chão de pernas abertas e te pedia para te deitares entre elas, e então, te protegia a ligadura da tua pata partida e que não se podia molhar na geada da noite na erva do jardim, com uma peúga grossa, um saco de plástico para impermeabilizar e outra peúga para não escorregares. Por fim saíamos. Acompanhadas, sentia-o bem. Sem qualquer necessidade de medo. E o que nos recebia era sempre assombrosamente belo. O Sol no horizonte, a romper, ou apenas a sua luz quando as manhãs eram cinzentas acompanhadas de bancos de nevoeiro junto ao solo. No entanto, as aves recebiam-nos com uma alegria estonteante e contagiante. Estávamos vivos e a Vida é tão rica e valiosa! Andorinhas, pardais, rolas, e ainda uma ou outra ave nocturna que atrasada era surpreendida por nós e depressa se refugiava . Os sons, os cheiros e o cenário que me era oferecido nessas manhãs, presentes de valor inestimável, são inesquecíveis e apesar de tudo o que de menos bom se passava, sentia uma gratidão tremenda, repetida sem cansaço ou enfado, todas as manhãs, talvez pelo simples facto de constatar que estava viva e que o que mais me importa na vida, estava ali, cabia dentro da algibeira e não precisava de mais para estar grata e feliz.

Dávamos o nosso passeio madrugador pelo monte, surpreendíamos as rolas no seu banho matinal, as andorinhas e os pardais numa chilreada que me fascinava de forma pura e genuína e me surpreendia ingenuamente apesar de se repetir todas as manhãs. De forma irrepetivelmente bela! Manhãs de Sol, de nevoeiro ou mesmo de chuva. Espantosa e com tanto para nos ensinar, a Natureza! E eu, do alto dos meus cinquenta anos, ainda com tanto para aprender...

Contavam-me segredos as aves, segredos que o meu coração ouvia e com eles me fortalecia. 

Entre as ervas e a palha molhada, as aranhas fizeram as suas teias durante a noite e algumas maçãs caíram  assim como algumas ameixas e figos.

A nossa volta, normalmente, consistia numa visita às sebes que ladeavam a piscina, onde enfiavas o teu focinho e farejavas sofregamente em busca de algum animal, alimentando a esperança que uma distração dele te permitisse apanhá-lo, o que nunca aconteceu, claro, porque tu, meu amor, és uma pateta como eu, apenas curiosa e ávida de descobertas. Também as enormes oliveiras, abandonadas no meio do terreno mereciam sempre a nossa visita. Triste, uma casa na árvore, meia destruída e partida agora, chorava à nossa passagem, mas no entanto parecia agradecer-nos a visita e prometia ainda dias felizes por aqui. 

Fazias as tuas necessidades e eu alimentava as minhas. Enchia o coração de paz e de harmonia. Apenas contigo e a Natureza. Enquanto todos ainda dormiam a havia verdadeiramente paz,  aqueles momentos ao nascer do dias foram o que me deram alento para o resto das horas dos dias e para todos os outros dias que por lá passámos. E para agora. Tem este condão a Natureza. Com a sua espantosa simplicidade, equipa-nos com o mais forte escudo e torna-nos o mais destemido guerreiro.

Voltávamos para casa, mais leve tu, e mais leve eu, apesar de carregar na bagagem experiências e vivências impossíveis de pôr no papel. Ainda assim, ficam por aqui os registos numa tentativa de eternizar as emoções vividas.

Depois de comermos, ficávamos por ali as duas, a aguardar que os outros acordassem e tu, a aguardar que a relva secasse para poderes por fim, pisá-la à vontade.

 Obrigada Molly e obrigada Mãe Natureza.





sábado, 24 de agosto de 2019

Céu


Estórias de encantar, mas sem encanto

Da saga “Férias 2019”

Capítulo XII ou XIII ou outro qualquer no adiantado da história

Céu
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Mais ou menos por volta de 21 de Agosto de 2019, as palavras

Enquanto, ajoelhada no chão, te lavo os pés ensaboando meticulosamente o espaço entre os dedos com a suave espuma do sabonete, dizes que quando eu morrer vou para o Céu, apesar de saberes que a minha fé no divino é nula e que no que acredito mesmo é que o Céu é estes dias que temos o privilégio de viver aqui na Terra, exactamente neste momento em que me lês, apesar de raramente estarmos conscientes disso.

Assim como o Inferno, não duvido que está aqui mesmo na Terra, mas como quase tudo depende do que fazemos com ele, do que fazemos dele. A nossa vida ou…aproveitar as brasas e fazer uma bela sardinhada.








quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Coisas divertidas nas férias

Estórias de encantar, mas sem encanto

Da saga “Férias 2019”

Capítulo ...qualquer coisa

Coisas divertidas nas férias

Agosto de 2019

Sem comentários





Continua...

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Os dias sem ti

Estórias de encantar, mas sem encanto

Da saga “Férias 2019”

Capítulo II

Os dias sem ti

6 de Agosto de 2019

Depois de teres sido levada pelos Bombeiros, depois da noite mal passada, a saber tão pouco de ti, agarrados à tua camisa de noite e à fé que sendo tua, pedimos emprestada e nos foi concedida e nos deu alento, o dia amanheceu como sempre amanhecem todos os dias: cheio de promessas e incertezas. Mas cinzento. Cinzento e triste. Tão triste, tão triste que juro que até o céu chorou. Lágrimas grossas, pesadas e silenciosas.

Sem ti, nós preenchemos o dia com um esforço fora do comum. Os dias e os espaços preenchidos, ainda mesmo quando nada mais podíamos fazer que esperar para saber exactamente o que se estava a passar contigo e o que iam fazer contigo.

Aproveitar era o mote. Aproveitar! Disseste. Frisaste. Apelaste com a tua voz dócil e debilitada. E nós ouvimos. E os nossos corações ouviram também e mesmo apertados, muito apertados, aproveitámos e preenchemos os espaços e os dias.

Mesmo sem Sol, mesmo sem certezas, porque na verdade as certezas não passam de uma mera ilusão para além do exacto momento em que vivemos, exactamente este em que escrevo e exactamente este em que me lês, mesmo sem tranquilidade, preenchemos os espaços e os dias. E no cinzento do dia, demos por nós a sorrir…

Continua...





terça-feira, 20 de agosto de 2019

Agonia

Estórias de encantar, mas sem encanto

Da saga “Férias 2019”

Capítulo VI ou VII, ou outro qualquer, já no adiantado da estória…

Agonia

13 de Agosto de 2019


A face esquerda espalmada contra a tijoleira fria do chão sujo da casa de banho. 

Estranhamente, essa frescura no rosto e a proximidade do chão, onde frequentemente se avistavam a passear aranhas peludas e centopeias de tamanho generoso, eram-lhe sensações agradáveis.

O corpo, em posição fetal, agonizava e contorcia-se levemente. Os espasmos no estômago sucediam-se e a dor, a agonia, o medo, até agora disfarçados, vinham ao de cima. Sem uma lágrima vertida desde o incidente, com sorrisos forçados para manter a normalidade possível de quem goza as férias com alegria, como a Mãe gostaria de os saber e também por isso se esforçaram. Mas agora, após o telefonema recebido, a líder da matilha caía por fim. O nó no estômago e na garganta, contido há dias, assim como o choro, soltava-se agora, enquanto agonizava de morte no chão daquela casa de banho, após receber a notícia para a ir buscar ao Hospital. 

A Mãe tinha alta, e a partir de agora nada mais havia a fingir. Acabaram-se definitivamente as férias e nova batalha estava prestes a iniciar-se.

Por fim, o vómito libertou o corpo, em espasmos violentos e sucessivos até nada mais haver para expulsar, e as lágrimas libertaram a alma. Como purga tomada, o corpo e a alma tudo expulsaram. Mais leve, levantou-se, lavou a cara, vestiu-se, meteu a roupa espalhada, na mala, mesmo sem a dobrar, e fez-se à estrada, a desejar muito que o gasóleo que tinha no carro chegasse para a levar até à Mãe e depois para voltar quando tivesse de vir buscar o resto da matilha. Ao todo, não seriam muito mais que 500 Km e talvez os efeitos da greve dos motoristas de matérias perigosas não a impedisse de cumprir a sua missão.

Continua…

domingo, 18 de agosto de 2019

A Falta

Estórias de encantar mas sem encanto

Da saga “Férias 2019”

Capítulo I

A Falta

5 de Agosto de 2019

O lugar aguarda-te, vazio agora. Bem viva a memória desta manhã de Sol, em que pela primeira e última vez te sentaste à beira da água e com suavidade e carinho, esse mesmo carinho e amor raramente verbalizado e nem sempre manifestado ao longo da vida, te espalhei o creme protector nas pernas e com as mãos em concha trazia a água até aos teus joelhos, deixando-a escorrer depois para voltar à imensidão do azul da piscina e te refrescar. Gesto repetido sem cansaço ou enfado, sem saber ainda que não se repetiria este Verão,  recompensado neste intante com o amor, a felicidade e a gratidão do teu olhar. 

Deleitaste-te com a sensação e o momento. Raridade na tua vida de oitenta anos. A frescura da água, o sol quente e a brisa morna, o riso e a alegria dos teus a chapinhar na água azul sob o Sol brilhante. Brilhante como o teu olhar e o sorriso no teu rosto nessa manhã a ver-nos divertir. Memória inapagável de momento impagável.

Vazio agora o lugar. Sem ti. O lugar e eu. Vazia. E perdida. A falta faz-se sentir. A falta entrou na casa e ocupou o teu lugar â mesa. Ocupou o teu lugar no jardim, na mesa de jogos e à beira da piscina. A falta esmaga-me o peito. A falta asfixia-me e a falta dói. Ainda se tu estivesses aqui para me dizeres o que fazer, se tu estivesses aqui para me iluminares e dares sempre uma outra visão das coisas e uma orientação lúcida e sensata. Ainda se tu estivesses aqui nesta casa estranha que não nos quer…Ainda se tu estivesses aqui Mãe...Mas tu já não estás e no teu lugar está apenas a Falta...

Continua…